Violino, violoncelo, guitarra, baixo e bateria. Essa é a mistura que o público juiz-forano poderá conferir amanhã, no encerramento do 22º Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga. A mescla entre rock e erudito é resultado da mais nova ousadia da Orquestra Ouro Preto: o concerto "The Beatles", só com músicas do quarteto de Liverpool. O espetáculo no Cine-Theatro Central terá sucessos como "Imagine", "Penny Lane", "Let it be" e "Yesterday" em versão que agrega requintes do universo clássico sem abrir mão dos elementos que tornaram essas canções conhecidas no mundo todo. Os ingressos são gratuitos e limitados à capacidade do teatro, podendo ser retirados no Pró-Música até uma hora antes do início da apresentação.
Completando 12 anos de existência, a orquestra tem tradição na quebra de fronteiras da música erudita, criando uma identidade que tem garantido uma comunicação muito eficiente com públicos de diferentes segmentos. Essa mágica se repetiu nas duas participações do grupo no Festival do Pró-Música, em 2008 e 2009, quando os músicos apresentaram composições eruditas entremeadas de tangos, obras do folclore mineiro e até uma "suíte caipira", com os clássicos "Tristeza do Jeca", "Galopeira" e "Menino da porteira". "A orquestra sempre se propôs a entrar nesse mundo experimental. Esse é um dos nossos pilares", constata o maestro Rodrigo Toffolo, diretor artístico e um dos fundadores da orquestra. Entre as próximas empreitadas do grupo, está um projeto em conjunto com o cantor Alceu Valença e a montagem de uma ópera contemporânea, criada pelo violeiro baiano Elomar Figueira Melo.
Para o maestro, esse trânsito livre por diferentes gêneros tem respaldo no próprio amadurecimento da orquestra, que já conquistou reconhecimento suficiente para buscar uma identidade própria. "Podemos tocar Beatles, mas não precisamos necessariamente disso para agradar o público. É muito bom ter maturidade para poder escolher", pondera Toffolo, que passou pelas oficinas do Festival do Pró-Música nos tempos de aprendiz. "Há outro recado nesse repertório. Queremos mostrar aos estudantes que há várias fatias de mercado."
Diante de uma identidade como essa, a ideia de criar um concerto apenas com obras dos Beatles soou como uma bem-vinda provocação da reitoria da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). Preparado originalmente para os alunos da instituição, em uma apresentação de encerramento do ano letivo de 2010, o espetáculo ganhou força para uma carreira de êxito em outros palcos. Uma das explicações para o sucesso pode estar no tratamento conferido ao repertório. Ao invés de tentarem enquadrar as conhecidas canções em um estilo mais erudito, os músicos optaram por versões que não descartam os elementos que tornaram as músicas famosas. Assim, os naipes de cordas da orquestra ganharam a companhia de instrumentos populares. "Não dá para fazer rock sem guitarra e bateria", resume o maestro, que há 12 anos faz parte de um trio de música popular.
Assinados pelo violinista Mateus Freire, os arranjos prometem um toque de originalidade, sem comprometer a identificação imediata de cada música. Desse modo, a base formada pela banda de rock abre espaço para que as melodias sejam entoadas por violinos e violoncelos. "Tivemos que abrir mão das palavras, mas sei que as pessoas cantam interiormente." Tamanha popularidade também tem seu revés. "A cobrança da plateia é muito maior. Se errarmos em uma sinfonia de Mahler, pouquíssimas pessoas perceberão. Mas nas músicas dos Beatles não há margem de erro", sintetiza Toffolo.
O maestro, entretanto, elege o momento da seleção do repertório como o mais crítico da criação do concerto. "Foi a fase mais sofrida. Ouvi toda a discografia da banda e tive que abrir mão de músicas lindas", relata.
