Ícone do site Tribuna de Minas

Aos 88 anos e com filme em produção, Helena Solberg é homenageada em Ouro Preto

PUBLICIDADE

Ao subir ao palco para receber o Troféu Vila Rica, direcionado aos homenageados pela Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP), a diretora Helena Solberg, dos filmes “A entrevista” (1966), “Vida de menina (2003)”, “Um filme para Beatrice” (2024), afirmou: “Muitos anos se passaram, muitos outros filmes. Eu sou outra pessoa hoje”. O legado da cineasta lembrada como a única mulher do Cinema Novo e uma das poucas daquela geração a continuar filmando de forma ininterrupta é, hoje, quase indiscutível entre os pesquisadores e nomes da área, que também consideram a influência que trouxe para as gerações seguintes de mulheres no cinema brasileiro. Mas como sugere a mostra que, neste ano, tem o tema “Um país existe nas imagens que preserva”, ainda há muitos desafios para que sua obra chegue até mais pessoas e dê continuidade ao diálogo que propõe.

(Foto: Leo Lara/ Universo Produção)

Com frio e cheia de respostas lispectorianas, Helena não parece interessada em alimentar nenhuma mitologia sobre a própria carreira. Apesar de se considerar parte da geração que fez o Cinema Novo, também nota diferenças claras entre ela e diretores como Glauber Rocha e Mário Carneiro. “Os rapazes estavam na deles, e eu estava na minha. Não fiz nenhuma força pra pertencer, não tava a fim. Eu estava interessada nas minhas questões”, relembra. Naquele momento, o que a interessava eram as forças que atuavam na sua formação burguesa, enquanto parte da classe média alta carioca e cristã. Tinha como interlocutora, por exemplo, intelectuais como Heloísa Teixeira e Vera Pedrosa.

PUBLICIDADE

Ainda que “A entrevista”, exibido no festival e que está completando 60 anos este ano, seja uma obra que passe pela leitura feminista e que tenha contribuído ativamente com essa discussão, ela afirma que na época não tinha consciência completa disso. “‘O segundo sexo’ (Simone de Beauvoir) era um livro muito difícil. Eu só fui ler ele direito muito mais tarde. Eu pensei que tinha entendido, mas não tinha entendido nada.” Logo antes de filmar a obra, ela foi para os Estados Unidos, onde teve contato com “A mística feminina”, de Betty Friedan, e com um feminismo que lhe pareceu mais organizado do que aquele que animava as discussões no Brasil. Mas ainda assim não era o que chamava mais sua atenção, e nem o que considera que mais refletiu em sua obra. “Eu acho que existem feminismos, mas não posso ser rotulada como feminismo só, porque acho que o feminismo verdadeiro é o humanismo, inclui todo mundo, toda a sociedade. É uma transformação muito profunda.”

Com o filme “Carmen Miranda: Bananas is my business” (1995), trouxe outra importante contribuição para o cinema, com uma obra que transita entre Brasil e Estados Unidos. “Eu percebi que havia uma Carmen Miranda dos americanos, totalmente absurda, que era a Carmen Miranda dos desenhos animados que fizeram sobre ela. Eles estavam interessados somente na caricatura dela”, conta. A ideia, portanto, era conduzir uma obra que se aprofundasse mais em quem ela era. Até hoje, entende que isso é difícil, pois muito se perdeu – o que dialoga também com a ideia do próprio festival. Em conversas ao longo da mostra, conta que falaram com ela que só foram preservados quatro minutos de filmagem de Carmen Miranda antes de se mudar para os Estados Unidos. “É um escândalo, um absurdo o que a gente perdeu de memória dessa época”, diz.

Entre ficção e documentário

Sobre os muitos filmes aos quais ela se refere, é possível notar uma quantidade vasta que flerta entre a ficção e o documentário. Para a cineasta, sempre foi necessário fazer filmes como se essa fronteira nem existisse. “Em ‘A entrevista’, vou entrevistar as moças e elas não querem ser filmadas. Eu tenho uma trilha sonora, mas não um filme. Eu tenho que voltar e quando volto é que o filme acontece. Acontece um filme muito mais interessante que se fizesse um filme de moças contando coisas sobre elas.” Já em seu primeiro filme de ficção, “Vida de menina”, que inclusive foi filmado em Minas Gerais, ela tem como base um documento, o diário real que uma menina escreve entre seus 12 e 15 anos, entre 1893 e 1895, e que foi publicado como livro em 1942.

O olhar pela sua obra também foi feito pela pesquisadora Mariana Tavares. “Ela não via os filmes dela tinha 20, 30 anos. Como todo cineasta, estava preocupada com o próximo.” Ao longo do trabalho, que resultou no livro “Helena Solberg: Do cinema novo ao documentário contemporâneo”, ela reforça a contribuição da diretora para a cena brasileira. “É uma inspiração para as cineastas o fato de que, naquele período, talvez ela tenha sido a única que continuou filmando, ainda que tenha tido intervalos. Ela seguiu com essa carreira, que é um desafio enorme. É uma filmografia transnacional nas Américas”, diz.

PUBLICIDADE
(Foto: Leo Lara/ Universo Produção)

O que é a fé?

O mais novo projeto de Helena poderia ser resumido em uma pergunta: “O que é a fé?”. Foi isso que a fez se interessar pela figura de Wesley Teixeira, que será objeto de investigação nesta nova obra, que já teve filmagens concluídas. “É um filme sobre um candidato evangélico, um rapaz de 30 anos de idade, negro, de esquerda, que está fazendo uma campanha para deputado em Duque de Caxias. Para mim, foi uma revelação essa ida na periferia e descobrir essa cultura, que é uma coisa que estamos ignorando. Vivemos numa bolha se não tentarmos entender esse outro mundo”, conta a diretora. O interesse surgiu a partir do momento em que teve contato com os pastores mirins e o filme “Apocalipse nos trópicos”, de Petra Costa, sobre o impacto do evangelismo na política brasileira.

Apesar de afirmar, no momento de entrega do prêmio, que tinha mudado muito, quando perguntada sobre o que mais mudou, ela enxerga principalmente a energia. Nesse filme, por exemplo, entende que precisou de muita energia física e de um espírito de aventura, e que sente que as coisas não eram mais como antes. No entanto, não deixou o tema de lado. E conclui: “Tenho que escolher com mais cuidado os meus assuntos, mas, no fundo, talvez eu ainda seja a mesma”.

PUBLICIDADE
Sair da versão mobile