
“Muito a crescer e muito a se desenvolver.” É assim que Tairone Vale, ator, produtor, diretor, roteirista e dramaturgo, define a cena teatral em Juiz de Fora. Próximo ao Dia Internacional do Teatro, comemorado na última sexta-feira (27), integrantes do setor analisam as principais dificuldades e necessidades da área na cidade, com destaque para temas como valorização da arte, união da categoria e profissionalização.
Historicamente, Juiz de Fora tem, em sua maioria, produções teatrais amadoras. Nesse contexto, o termo “amadoras” se refere ao fato de muitos artistas não possuírem certificações oficiais que comprovem sua atuação profissional no teatro. Na maior parte dos casos, esses artistas aprendem com outros profissionais ou realizam cursos na cidade que não oferecem esse tipo de certificação.
Uma das discussões centrais nesse cenário envolve o DRT, registro profissional de artistas, técnicos e atores no Brasil, emitido pelo Sindicato dos Artistas (Sated). O tema divide opiniões, sobretudo porque muitos profissionais não trabalham exclusivamente com o teatro e exercem outras ocupações. Atualmente, a certificação precisa ser obtida em capitais, como Belo Horizonte ou Rio de Janeiro – os destinos mais procurados por artistas de Juiz de Fora -, ou por meio do envio de documentos que comprovem a atuação na área. Na cidade, o único curso de formação que fornece a certificação é o Close Formação Artística, que, inclusive, está com matrículas abertas.
Para Tiê Fontoura, vice-presidente da Associação Produtores Artes Cênicas e Produção (Apac) de Juiz de Fora, o município vive uma situação particular. De porte médio, a cidade tem uma produção cultural em expansão, mas ainda não conta com uma classe artística consolidada, capaz de se manter exclusivamente da arte. Por isso, muitos artistas têm o teatro como ocupação secundária e, como consequência, a necessidade de certificação e de um sindicato estruturado acaba ficando em segundo plano, o que dificulta a organização do setor.
Segundo Tiê, a principal questão é como oferecer uma formação profissional que contemple essa realidade local. Ele afirma que muitos artistas buscam complementação por meio de formações técnicas certificadas pelo MEC, o que torna o DRT desnecessário. Também aponta que, além de cursos que oferecem o registro, a cidade carece de formações que priorizem a qualidade. Ainda assim, a demanda não seria suficiente, e aqueles que buscam certificação geralmente pretendem trabalhar fora de Juiz de Fora.
Um teatro juiz-forano
A profissionalização também passa, segundo os entrevistados, pela possibilidade de permanência dos artistas na cidade. Lúcio Araújo, que hoje atua em outra área, mas segue no teatro e possui DRT, conta que o que seria inicialmente apenas um curso experimental de um mês se transformou em quatro anos de forte envolvimento com a cena teatral. “Quanto mais eu fui conhecendo, praticando, vivendo o fazer teatral, mais certo eu ficava de que o teatro deveria estar em primeiro plano na minha vida.”
Ao analisar a cena juiz-forana, Lúcio afirma que o município forma talentos, mas não oferece condições para que eles permaneçam. “As pessoas têm uma visão de que Juiz de Fora é um polo produtor de talentos, o que é um fato; porém, não basta formar artistas. Nós precisamos encontrar na cidade condições de dar continuidade ao nosso trabalho, sem que a gente precise migrar para outros grandes centros, como Rio, São Paulo, Belo Horizonte, em busca de oportunidades”.
Ele diz que decidiu tirar o DRT em busca de mais segurança profissional. “Em uma realidade em que os artistas são descredibilizados enquanto profissionais, em que as condições mínimas de trabalho são cada vez mais relativizadas, a importância de se buscar o registro formal na DRT está no respaldo legal que é conferido ao artista sindicalizado, com remuneração tabelada e revisada regularmente, com carga horária limitada, como qualquer profissão.”
‘A luta depende do público’
José Luiz Ribeiro, fundador do Grupo Divulgação, que neste ano completa 60 anos, também percebe mudanças no teatro local, mas aponta outro aspecto essencial para a profissionalização: a formação de público. Segundo ele, temporadas curtas e apresentações únicas não permitem que a audiência se enraíze no teatro da cidade. “Não se faz profissionalismo só com lei, a luta depende do público.”
José Luiz, assim como grande parte dos integrantes do Grupo Divulgação, possui DRT, mas relativiza a centralidade do documento. “A DRT não é a supremacia do mundo”, afirma, embora reconheça sua importância. Segundo ele, quando há o interesse de uma emissora ou companhia, a certificação costuma ser obtida com mais facilidade – e, nesse caso, ela é obrigatória.
Tairone Vale também chama atenção para o papel que um sindicato poderia desempenhar nesse processo. Para ele, seria positivo se a entidade ajudasse na obtenção do registro oficial e também filtrasse a qualidade da formação oferecida aos artistas. Ao mesmo tempo, ele observa que muitos profissionais acabam sendo “escravizados pelo próprio trabalho”, chegando a jornadas de até doze horas por dia no período de montagem de espetáculos.
“Não há fiscalização porque é amador”, afirma. “E se houvesse uma fiscalização, como seria?” Para ele, em um cenário em que a maior parte das produções é amadora, sem financiamento adequado e sem equipes certificadas, uma fiscalização mais rígida poderia enfraquecer ainda mais a cena local.
Tairone observa ainda que, para seguir carreira no teatro, muitas vezes o artista precisa assumir também a função de produtor para conseguir entrar no mercado. Apesar dos entraves, ele diz enxergar possibilidade de crescimento e espera que Juiz de Fora se torne um “polo de prestígio”.
‘O que é amador? Quem classifica isso?’
A atriz, diretora e roteirista Pri Helena, com vasta atuação no audiovisual dentro e fora da cidade, também avalia que crescer como artista em Juiz de Fora é um desafio. ”É um caminho longo, mas muito bonito”, resume. Para ela, um dos principais obstáculos ao desenvolvimento do teatro local é a visão romantizada da atividade, quando seria necessário separar a dimensão artística da empresarial para que a profissionalização se concretize.
“Se nem os órgãos públicos – que muitas vezes convidam os artistas a se apresentarem sem cachê – não valorizam a cultura, como exigir isso em outros lugares?”, questiona. Segundo Pri, a falta de investimento na cultura faz com que muitos artistas se desenvolvam sem formação adequada e, por consequência, sem conhecer os próprios direitos. Nesse contexto, ela considera superficial a oposição entre amador e profissional. “O que é amador? Quem classifica isso?”
Pri Helena também defende que Juiz de Fora carece de cursos voltados a artistas mais experientes, para que possam se tornar produtores e defender a própria arte. Além disso, aponta a falta de união da categoria e a chamada “síndrome de vira-lata”, em que muitos artistas se colocam, de forma pejorativa, desconsiderando o profissionalismo e a qualidade de suas produções.
Quando a profissionalização é essencial
Já Trajano Amaral, diretor da Close, entende que a própria existência desse debate em Juiz de Fora já revela o estágio do setor. Ele aponta para a resistência dos próprios artistas em aderir a uma organização sindical.
Amaral afirma que o Sated já ofereceu alternativas para viabilizar a certificação e a fiscalização de teatros e cursos na cidade, mas não houve interesse. Para ele, deixar de buscar a certificação é prejudicial para quem deseja transformar o teatro e as artes em carreira, especialmente porque grandes centros próximos, como Rio de Janeiro e Belo Horizonte, exigem o DRT. “Se a pessoa deseja trabalhar com isso, ela precisa se profissionalizar e aprender com profissionais.”
Por fim, Trajano destaca a ausência de políticas públicas permanentes de financiamento à cultura e de projetos voltados à profissionalização – e não apenas à educação teatral – como alguns dos principais obstáculos para o crescimento do setor. Para ele, o mercado local tem potencial, mas ainda apresenta um quadro “um pouco decepcionante”.
*Estagiária sob supervisão da editora Cecília Itaborahy

