A morte precoce, aos 29 anos, não impediu Hipólito Caron de figurar como um dos principais nomes da arte brasileira do final do Império. Ele nos deixou uma indagação tão perturbadora quanto insolúvel: até que ponto teria evoluído sua pintura se a morte não interrompesse tão cedo suas atividades?, questiona o crítico e historiador de arte Carlos Roberto Maciel Levy, que estuda há 30 anos a pintura de Caron e de outros integrantes do Grupo Grimm. O pintor, que viveu a juventude e os últimos anos em Juiz de Fora, motiva a exposição Hipólito Caron – Homenagem 150 anos de nascimento, em cartaz no Museu Mariano Procópio, com seis reproduções de suas obras, além de um desenho e uma fotografia em cena de ateliê impressos em painel.
As reproduções das pinturas originais, que pertencem ao acervo da instituição, foram feitas sobre canvas cru (espécie de tela de algodão). Três delas possuem o tamanho original das obras de Caron, e as outras três têm tamanho reduzido.
O Museu Mariano Procópio possui excelentes obras de Hipólito Caron, destacando-se a paisagem ‘Poço Rico’ e outra representando um trecho de rio cercado por árvores. São obras-primas e rivalizam com as melhores pinturas do artista no Museu Nacional de Belas Artes (maior quantidade em coleções públicas) e com as três coleções particulares, no Rio de Janeiro, que em conjunto concentram a maior parte da produção conhecida do pintor, esclarece Maciel Levy, que ministrará palestra voltada a pesquisadores e estudantes no encerramento da exposição, no dia 11 de maio.
Paisagista por excelência, Caron nasceu na cidade fluminense de Resende, mas foi em Minas que esboçou os primeiros desenhos. O temperamento amigável e o apreço pela boemia consolidaram a carreira e as relações do pintor na cidade, o que explica a existência de obras do artista em instituições locais. Entre as amizades cultivadas, estavam nomes como o do diretor do jornal O Pharol, do qual foi figura assídua, e Alfredo Ferreira Lage. Um dos pioneiros a obter formação técnica na região, Caron ingressou na Academia Imperial das Belas Artes do Rio de Janeiro, em 1880, e, após temporada na Europa, já estava de volta a Juiz de Fora, em 1889.
Ao contrário da maioria dos artistas reconhecidos na época e que fizeram carreira no exterior e no Rio de Janeiro, o pintor preferiu retornar a Juiz de Fora. Abrindo mão dos privilégios da Corte, como o acesso aos meios de comunicação, às instituições oficiais, aos acontecimentos políticos e sociais e, consequentemente, às encomendas de obras de arte e possibilidade de venda de seus trabalhos, Caron optou por, de certo modo, trocar o prestígio nacional pelo limitado reconhecimento regional. Creio que, com base em diversas evidências históricas, a decisão de Caron foi afetiva e definitiva, e teria permanecido em Minas Gerais por longos anos se não tivesse morrido prematuramente, avalia o pesquisador.
Em A história das artes plásticas no Brasil, Carlos Rubens destaca a individualidade da arte de Hipólito Caron. Foi colorista espontâneo, desenhador elegante, sabendo lançar as massas, apreender a cor, enchendo os quadros de equilíbrio e harmonia. Dos integrantes do Grupo Grimm, que segundo esclarece Lucas Marques do Amaral, presidente da Sociedade de Belas Artes Antônio Parreiras, constitui a mais importante rebeldia contra o método de pintura das paisagens praticado na, então, denominada Academia Imperial de Belas Artes, Caron é tido como o mais estável e consistente em relação às suas produções.
Em 1926, após 34 anos passados da morte de Caron, um dos colegas do Grupo Grimm, Antônio Parreiras, descreveu, em sua autobiografia, a pintura única do artista. Os quadros que produziu não se podem confundir com os de outro, são positivamente dele. Parecem pintados com um só pincel largo e chato, fortemente embebido de tinta. Modelava com extrema simplicidade e coloria ainda com maior espontaneidade. (…) A cor sentida, justa, forte, vibrante, macia, delicada, transparente como na soberba paisagem pintada na Normandia, uma das mais belas que conheço entre tantas mil que tenha visto. Para Lucas, por mais emocional que tenha sido o depoimento, não deixa de expressar a verdade sobre a obra de seu amigo mineiro. As obras de Hipólito Caron, em especial as paisagens, possuem tais qualidades que eram uma novidade moderna na pintura brasileira do século XIX.
HIPÓLITO CARON – HOMENAGEM 150 ANOS DE NASCIMENTO
Visitação de terça a domingo, das 8h às 18h
Museu Mariano Procópio
(Rua Mariano Procópio 1.100 – Mariano Procópio)
3690-2200
