
Com a volta dos desfiles de escola de samba em Juiz de Fora, o carnaval de 2026 promete. E, com 86 blocos e 19 dias de festa, as expectativas para a folia estão altas. Porém, antes de a festa chegar às ruas, são meses de planejamento e desafios na busca por recursos privados e públicos. O recado é claro: sem verba, sem festejo.
Segundo a Funalfa, os repasses de recursos em forma de infraestrutura e verba precisaram de alterações para o carnaval em 2026. Entretanto, apesar do aumento do número de blocos (neste ano, são 12 a mais em relação a 2025) e a volta dos desfiles das escolas de samba, o orçamento da Prefeitura de Juiz de Fora é o mesmo de 2025 para o evento deste ano.
De acordo com Nara Pinheiro, gerente do Departamento de Agentes Culturais e Produção da Funalfa, o crescimento do carnaval na cidade, com cada vez mais blocos nas ruas e até o retorno das escolas de samba, se deve ao próprio apelo do público, que tem gostado dos festejos. Mas esse aumento precisa ser controlado para que a prefeitura consiga continuar apoiando a realização.
“A partir do momento que acontece um evento legal, com artistas locais e regionais, as pessoas têm mais interesse, e o carnaval tende a crescer. Mas a gente entende também que a gente precisa limitar o nosso apoio, ele não é infinito, é limitado, a gente está praticamente atuando com os mesmos recursos do ano passado, mesmo tendo números a mais. A gente fica feliz, é claro, com a ocupação popular, a gente tem o desejo de apoiar tudo o que é possível, mas a gente sabe que, em algum momento, vai ter que existir um filtro para que não chegue em um número que não seja possível mais atender.”
Um enredo diferente: a busca pela captação de investimentos
No caso dos blocos de Juiz de Fora, o apoio da prefeitura vem em forma de repasse de infraestrutura: banheiros públicos, trios elétricos e segurança. Nara explica que todos recebem a mesma estrutura, que se modifica apenas de acordo com o tamanho do bloco (grande, médio ou pequeno) e se é um bloco parado ou em movimento.
Para Nelson Júnior, diretor do Bloco Pintinho de Ouro e da Associação Recreativa General da Banda (Desfile da Banda Daki), única de Juiz de Fora contemplada pelo edital “Carnaval da Liberdade” da Cemig, ter independência financeira é necessário diante desse cenário. Ao mesmo tempo, o poder público não pode abandonar os foliões. “O caminho é esse: buscar a independência e ter um diálogo claro com a prefeitura.” A ideia é não depender somente do repasse de verba pública, mas integrar esses recursos com outros obtidos por meio da contemplação de editais e patrocínios. Dessa forma, o bloco obtém recursos para a sua programação e depende do poder público para questões apenas de infraestrutura.
Nelson Júnior, que também integra a Associação das entidades carnavalescas de Juiz de Fora e região (Aesbloc), complementa que, para que o carnaval seja uma festa cada vez maior e mais organizada, é necessário trabalhar em conjunto com outros blocos. Ele explica que a Banda Daki, com esse plano de ação, não quer “servir de exemplo” para outras agremiações, mas mostrar que existe esse caminho a ser seguido. Apesar dos intensos meses de planejamento, “o resultado final sempre vale a pena”, finaliza.
Para Lucas Soares, coordenador do Ingoma, grupo artístico de música popular e realizador de um dos mais tradicionais blocos da cidade, é impossível que o poder público consiga custear a totalidade do carnaval. Por isso, este ano a associação tomou uma iniciativa diferente: a criação de uma vaquinha on-line para arrecadação de recursos. “É uma forma de fazer com que o público participe também e se sinta mais pertencente com o que a gente faz.”
Os diálogos do Ingoma com a Funalfa, de acordo com Lucas Soares, são bons. “A gestão da Funalfa tem feito um bom trabalho em procurar manter canais de comunicação abertos com os artistas da cidade. Claro que desejos e possibilidades nem sempre se encontram, mas existe uma vontade de fazer as coisas acontecerem”, explica. Ele também ressalta que é fundamental que isso aconteça, uma vez que o carnaval é um momento de democratização da cultura, em que as pessoas podem ter acesso a artistas de alto nível de forma gratuita.
Entretanto, para ele, há outro desafio: conversar com o empresariado da cidade. Lucas explica que nem sempre há interesse do setor empresarial privado em patrocinar projetos que trabalham com recortes culturais alternativos e é difícil conseguir recursos de outras fontes. Apesar de investimentos em cultura retornarem para a cidade, nem sempre é fácil obter patrocínios.
Já no caso do Makoombloco, realizado pelo coletivo Makoomba e idealizado por Crraudio, Ocrioulo e Amanda Fie, os recursos chegam no momento certo e são de fato suficientes. Por ser um bloco focado na discotecagem e em DJs, muitas das etapas do planejamento não necessitam de recursos e podem ser feitas digitalmente. Quando chegam, na semana do bloco e em forma de infraestrutura, são “funcionais e são dentro do que precisam”, de acordo com Crraudio.
Além disso, ele destaca a melhoria na provisão dos recursos de infraestrutura: este ano, a Prefeitura disponibilizará os cordeiros, ou seja, as pessoas que fazem a segurança dos trios elétricos, por meio de uma orientação do Corpo de Bombeiros. Esse recurso, necessário para a segurança do público e dos artistas, costuma ser de alto custo, o que desmotivava o uso de trio elétrico nos blocos e pode, em caso de falta, pôr os foliões em risco.
Diante do cenário de crescentes pressões externas, como a investigação feita pelo Ministério Público em relação ao repasse do carnaval de 2023 e um orçamento limitado, blocos e agremiações que são capazes de captar recursos de forma independente já saem na frente. “São blocos que já entenderam como a captação funciona e conseguem crescer e oferecer mais estrutura”, completa Nara.
Esse samba também é meu
Sobre a volta dos desfiles de escolas de samba na programação do carnaval de Juiz de Fora, a representante da Funalfa destaca que muitos tiveram dificuldade em se adequar às novas exigências para o repasse, que passa a acontecer sem intermediários, uma vez que antes o dinheiro ia para as contas da Liga Independente das Escolas de Samba de Juiz de Fora (Liesjuf) e era repassada para as agremiações. Agora, o repasse acontece por meio de um chamamento público, que exige o cumprimento de alguns requisitos, bem como a documentação necessária. Os valores variam de R$80 mil para o grupo A e R$32 mil para o grupo B.
Gilberto Jubinha, presidente da Liesjuf, explica como esse cálculo é feito: “O cálculo da distribuição das verbas segue o Regimento Interno e Regulamento do Carnaval, que são votados pelos presidentes a cada ano na preparação dos desfiles, como rege o estatuto. Grupo B ou acesso tem 30% do montante total destinado ao repasse às escolas; e Grupo A ou Especial, 70% do montante total destinado”.
Ele completa explicando que o repasse feito não é o suficiente para uma apresentação de um grande espetáculo, mas foi o que a Funalfa tinha para disponibilizar, com base nos anos anteriores. Também houve um atraso para que as escolas se adequassem ao novo modelo de repasse, mas Gilberto acredita que todas conseguiram trabalhar dentro de suas possibilidades.
A Liesjuf, em nota, acredita que foi feito o possível em relação aos esforços para chegarem, junto a Funalfa, ao entendimento da necessidade do retorno dos desfiles. “Era preciso fazer este novo modelo de gestão para criar-se credibilidade e passar um posicionamento de responsabilidade com o dinheiro público e com o carnaval de Juiz de Fora, tanto para o poder público, privado e, principalmente, para a população de Juiz de Fora.” Jubinha completa: “A população da cidade e os amantes dos desfiles de escolas de samba vão se surpreender com o espetáculo que será apresentado. Estamos muito confiantes numa bela apresentação de todas”.
*Estagiária sob a supervisão da editora Cecília Itaborahy

