
Responsável por 50% da bilheteria da campanha deste ano, Gueminho volta ao Cine-Theatro Central nesta sexta com “Tropa de Elite…”, e sábado com “Melhores momentos do TQ”, a partir das 21h
Sábado ou domingo à noite, procurando uma vaga para estacionar no Centro de Juiz de Fora e nenhum lugar onde deixar o carro. A razão de tal fato é que, neste dia, a cidade abriga (mais uma vez) um dos espetáculos de humor que arrastam uma legião de espectadores para os teatros. Se não é um queridinhos da vez, como é o caso de Paulo Gustavo, deve ser Gueminho Bernardes. Assim como acontece todo ano, é certo que as produções do humorista juiz-forano encabecem a bilheteria da Campanha de Popularização do Teatro e da Dança, que termina no próximo dia 1º. Neste ano, só a fatia que lhe cabe, corresponde a 50% de todos os ingressos vendidos, o que, até terça-feira, significava 2.500 espectadores, número ainda considerado baixo em relação ao resultado das outras edições (70% somente em 2014).
Um dado curioso é que todas as peças apresentadas por ele – “Mineiros on the beach”, “Mocreias na laje”, “Como fracassar na vida e ser infeliz no amor”, “Tropa de elite da guarda municipal de Juiz de Fora”, “Melhores momentos do TQ”, “Mau humor” e “Made in Piraúba” – já foram vistas e revistas várias vezes por boa parte da plateia. A matemática pode deixar muita gente insatisfeita, mas é verdade que ela não mente. Enquanto o musical “Milton Nascimento – Nada será como antes”, produção de peso do eixo Rio-São Paulo, aparentemente não levou mil pessoas ao Cine-theatro Central em cada dia de apresentação, Paulo Gustavo causou alvoroço na portaria do espaço. Também sempre por aqui, Gustavo Mendes e outros comediantes precisam partir para uma sessão extra para dar conta de uma enorme fila de espera.
“As pessoas procuram o teatro para diversão e, automaticamente, associam essa palavra à comédia. Elas não querem refletir. Claro que, às vezes, numa peça que faz rir, elas refletem muito mais. O título também atrai público, sem contar a carência do povo, que já tem muito problema e quer algo para desanuviar. A pessoa vai para o teatro para purgar tudo o que é angústia através da gargalhada. Esse poder é comprovado cientificamente. Quem leva a vida com bom humor tem possibilidade de viver melhor”, opina o professor e presidente da Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Juiz de Fora (Apac), Cristiano Fernandes, destacando que o fenômeno ocorre, de maneira geral, com todas as peças do gênero apresentadas no festival. Embora seja cedo para falar em números precisos, um levantamento parcial aponta que 80% de todos os ingressos comercializados foram direcionados para a comédia, também representada na campanha por Cláudio Ramos, Rafael Titonelly, Adelino Benedito, o grupo Butecomédia, entre outros.
Um microfone na mão e muita gente na plateia
A fórmula que atrai multidões é simples. Um microfone na mão, nada ou quase nada de figurino e muitas e muitas observações impagáveis sobre o cotidiano. “Não é um humor de personagens pitorescos. É um humor mais de situação, mais próximo do dia a dia, mas jovial. O humor que o Chico Anysio fazia era mais clássico”, dispara Gueminho, ao ser questionado sobre o que caracteriza o trabalho da nova geração engraçada do Brasil. Com 36 anos dedicados ao Teatro de Quintal (TQ), o ator e os outros integrantes da trupe, que começou a escrever sua história de bar em bar, sabem bem o que o público quer ver e ouvir. Vale repetir quadros, como o hilário “Quem vai dar para o Daniel Filho”, escrito em 1986 com a finalidade de discutir o mito do sofá na carreira artística, mas vale, principalmente, se reinventar. “A obrigação do humor é não só estar atualizado, mas estar na frente. É ele que puxa e abre os olhos da sociedade”, observa Gueminho, sem ter a menor ideia de quantos já foram testemunhas de suas performances Brasil afora.
“A gente tem uma boa comunicação com o espectador. Fazemos com gosto, com prazer e com muita verdade. Não fazemos porque é mais conveniente ou comercial”, garante ele, que não tem a preocupação de se policiar na hora de escolher um tema que será alvo de suas piadas. “As pessoas veem a vida delas refletidas ali, por isso falamos de família, de relacionamento, de política, de doença e religião. Hoje, ninguém fala verdade, é tudo propaganda. O único que não tem rabo preso é comediante. Aí vem aquela velha discussão de que o humor não tem limite. A grande função do humor é permitir que as pessoas possam rir de seus dramas, o que me faz pensar que não existe algo que seja tabu para quem faz comédia. Porém, sempre prezo por fazer uma boa piada.”
O tipo de espetáculo que essa nova safra faz não é tão novidade assim. Tradicional nos Estados Unidos, ele foi feito pelas bandas de cá a partir da década de 1960 por José Vasconcellos. Depois, veio lançando novos partidários ao longo dos anos. O stand-up comedy levou para a TV uma leva de atores, como Rafinha Bastos, Marcelo Adnet e Fábio Porchat. Por falar em Porchat, ele pertence ao portal da internet dedicado ao humor mais famoso do país, o Porta dos Fundos, cujo primeiro filme chegará aos cinemas este ano. Mas, se a fórmula não é tão recente assim, é preciso destacar o que mudou. “A internet virou a ferramenta mais poderosa de divulgação dos nossos trabalhos. ‘Os melhores do mundo’ foram ao programa do Jô Soares, fizeram o esquete do Joseph Klimber, postaram na rede e estouraram. Lotam o teatro o ano inteiro. Quando fiz a produção do Porchart aqui em Juiz de Fora, pesquisei para saber como o público tinha ficado sabendo da peça, e 60% disseram que foi através do Facebook. Cinquenta mil pessoas veem meu anúncio no Facebook”, comenta Gueminho.
Sucesso nos palcos, sucesso na TV
Onde a varinha mágica do humor toca, tudo vira ouro. Notícias publicadas à exaustão no início de 2014 deram conta de que a turma da pensão da dona Jô alçou o “Vai que cola”, do Multishow, ao posto de programa de maior audiência da TV paga nos últimos dez anos. Segundo o Ibope, a primeira temporada, exibida em 2013, alcançou a marca de 11 milhões de espectadores, sendo superada em 23% no ano seguinte. A popularidade foi tamanha que alguns dos ilustres moradores do Méier ganharam mais espaço na grade, como é o caso de Samantha Schmütz, em “Não tá fácil pra ninguém”; Cacau Protásio, em “Trair e coçar é só começar”; e Marcus Majella, que protagonizará série produzida pelo amigo Paulo Gustavo em 2015. A propósito, é de Paulo Gustavo os ultrarrentáveis “220 volts”, “Hiperativo” e “Minha mãe é uma peça”.
Quando o assunto é a sétima arte, exemplos de triunfos não faltam. Mesmo a contragosto de adeptos de uma produção mais “cabeça”, a comédia dispara na frente nas bilheterias brasileiras. Falando em números exatos, até o dia 23 de janeiro, “Loucas pra casar”, com Ingrid Guimarães, Tatá Werneck, Márcio Garcia, Suzana Pires e Fabiana Karla no elenco, havia sido visto por 2.562.550 espectadores. Do mesmo diretor, Roberto Santucci, “De pernas pro ar 2” liderou no país em 2013, arrebanhando aproximadamente cinco milhões de pessoas. O primeiro “De pernas pro ar” foi a maior bilheteria nacional de 2011, com 3,5 milhões de espectadores, R$ 31,5 milhões de arrecadação. Engrossando essa lista, na relação divulgada pelo “Guia da semana”, entre os dez filmes brasileiros mais vistos em 2014 até 12 de novembro estão as comédias “O candidato honesto” (2.185.071 espectadores), “Os Homens são de Marte… E é para lá que eu vou” (1.794.385) e “Muita calma nessa hora 2” (1.429.862).

