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Cinema de sonhos possíveis

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Tiradentes (MG) – Um filme de estrutura artística vigorosa, que resgata memórias pessoais e a história do país. Foi assim que o júri da crítica descreveu o documentário "Os dias com ele", de Maria Clara Escobar, estrela da noite de premiação da 16ª Mostra de Cinema de Tiradentes no último sábado. O longa foi duplamente contemplado como melhor filme da Mostra Aurora – menina dos olhos do festival -, levando R$ 50 mil do prêmio Itamaraty (além de serviços e materiais de produção) com a premiação da crítica, e sendo o eleito também pelo júri jovem. No filme, "ele" é o dramaturgo e filósofo Carlos Henrique Escobar, pai da jovem diretora. A relação de distanciamento e curiosidade – o intelectual vive em Portugal – vai dando o tom do filme, compondo o quebra-cabeça da história familiar e do período ditatorial brasileiro, em que Escobar foi torturado e sobre o qual evita falar. "A experiência de exibi-lo em Tiradentes é maravilhosa, e a premiação, sobretudo do júri jovem dá um sentido de ‘vamos lá, galera’, é esse o caminho, vamos fazer cinema", comemorou Maria Clara.

No júri popular, "Dossiê Jango", de Paulo Henrique Fontenelle, exibido no Cine-Praça, foi eleito melhor longa-metragem, tratando de um suposto complô que culminou no assassinato do ex-presidente João Goulart. O curta "A onda traz, o vento leva", do pernambucano Gabriel Mascaro, recebeu dois prêmios: o de melhor filme, pelo júri popular e o Prêmio Aquisição do Canal Brasil, no valor de R$ 15 mil. Outro premiado da noite foi o curta "Meu amigo mineiro", de Gabriel Martins e Victor Furtado, considerado melhor curta da Mostra Foco pelo júri da crítica. Na Mostra Aurora, o júri jovem concedeu uma menção honrosa a "Matéria de composição", de Pedro Aspahan, e a crítica contemplou o comentado "Linz – Quando todos os acidentes acontecem", de Alexandre Veras. "Linz destaca o embate entre o corpo e a paisagem tensionando pontos de vista, e tem excelência ao articular diversas dimensões do fazer fílmico", observa a pesquisadora Sheila Schvarzman.

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Em nove dias, a mostra reuniu cerca de 35 mil pessoas e exibiu 131 filmes gratuitamente. Na edição em que o tema "Fora de centro" permeou discussões e as escolhas de curadoria, 15 estados brasileiros estiveram representados na programação. Nos debates com o público, especialistas discutiram a produção brasileira contemporânea, suas características e os caminhos que podem ser traçados a partir do panorama atual.

 

Para o curador do festival, Cléber Eduardo, é difícil falar sobre este "novo" cinema nacional em um momento em que ele ainda está se configurando. "O que se vê, como característica geral, é a perda de uma centralidade organizadora, com trabalhos que não respondem necessariamente a uma ideia central em termos narrativos e estéticos."

Também argumentando neste sentido, o cineasta mineiro Sérgio Borges aponta que diversos fatores contribuem para filmes com uma narrativa mais aberta. "Por si só, o número maior de pessoas envolvidas na produção faz com que as experiências estéticas possam ser mais diversas. Esse aumento de realizadores se deve à democratização dos meios de produção, devido às tecnologias digitais e à ampliação das redes de exibição, em festivais e na internet."

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O crítico carioca João Luiz Vieira acrescenta que a produção contemporânea está intimamente associada ao papel da universidade como porta de entrada do fazer cinematográfico para a maioria dos diretores estreantes. "É lá que se formam cineclubes e outros ambientes que têm resultado em grupos que continuam trabalhando juntos anos após a universidade, legitimando a tendência atual de produções realizadas coletivamente e de forma não hierarquizada."

"Tenho a convicção de que estamos vivendo um momento singular do cinema brasileiro, em que somos testemunhas de uma geração jovem que vem amadurecendo ao passo que faz cinema, proporcionando um amadurecimento também da produção sem que ela pare", avalia Marcelo Ikeda, cineasta do Rio de Janeiro. Arrematando este pensamento, João Luiz Vieira afirma que vivemos, em termos de realização cinematográfica, em uma época de sonhos possíveis. "Sonhos podem ser realizados fora de uma hegemonia estética e centralizada geograficamente, esse festival é o maior exemplo disso, reunindo a mais variada gama de temas e escolhas de diretores, feitas em diversos estados do país."

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