"No princípio era o verbo" e, há quase dois milênios, o verbo tornou-se escrita. Maior sucesso editorial desde a modernização das técnicas de impressão, no século XV, a Bíblia foi responsável por uma tiragem de 6,7 milhões de exemplares em 2011, só no Brasil. A permanência dessas escrituras como o texto mais importante da cultura ocidental voltou a ser tema de debate com a publicação da nova tradução norueguesa, que utiliza recursos literários para melhor se comunicar com o leitor contemporâneo. Produzida por alguns dos principais escritores do país, a edição atingiu o topo da lista dos mais vendidos e provocou filas de espera em livrarias, semelhantes às registradas em lançamentos dos livros da série Harry Potter. Após tantos séculos, como a Bíblia continua sendo um insuperável best-seller?
"A Bíblia é uma leitura importante mesmo para as pessoas que não acreditam em Deus", resume o mestre em filosofia e professor do Instituto Teológico Arquidiocesano Santo Antônio padre Elílio de Faria Matos Júnior. A ponderação do sacerdote refere-se ao teor cultural presente nas escrituras, que, independente de crenças religiosas, pode ser considerado um código da mentalidade judaico-cristã. Segundo o padre, esse seria um dos três pilares da sociedade Ocidental, ao lado da filosofia grega e do direito romano. Tal herança se manifestaria, por exemplo, em nossa noção de "individualidade". "Nas sociedades antigas, o indivíduo não era tão importante, pensava-se sempre em termos do coletivo. Ao colocar a pessoa em relação direta com um Deus, a religião judaica confere ao homem uma dignidade inalienável", explica o padre.
"A Bíblia não é nem católica nem protestante, pois começou a ser escrita bem antes dessas religiões existirem", argumenta Erní Seibert, secretário de Comunicação e Ação Social da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB). Atualmente, a entidade é responsável por suprir cerca de 80% do mercado nacional e comemorou, em 2011, a marca de cem milhões de exemplares impressos no país, em um intervalo de apenas 16 anos. Atualmente, a sociedade sem fins lucrativos produz versões com o texto integral ou diferentes seleções para o mercado brasileiro e também para o exterior. Da gráfica da associação, localizada no município de Barueri (SP), saem exemplares em português, espanhol, inglês, francês, árabe e até em ioruba.
Na linguagem do povo
Seibert, que chegou a encontrar-se com a comissão de 30 tradutores e 12 escritores convocados para preparar a adaptação norueguesa da Bíblia, elogia a iniciativa do país escandinavo e ressalta a existência de uma versão similar, publicada no Brasil no ano passado. "É uma tradução que já utilizava recursos presentes na versão norueguesa", explica. Com o título "O livro dos livros", a edição brasileira saiu com tiragem de 5 mil exemplares, que ainda não foram esgotados. Além de suprimir separações de capítulos e versículos, a Bíblia traz pequenas alterações em relação à linguagem, como a alteração de pronomes de tratamento. "A intenção é que soe para o leitor de hoje como soava no original", sintetiza o representante da SBB.
Ao contrário do que se possa presumir, o texto original da Bíblia não continha capítulos ou versículos. O recurso foi introduzido nos séculos XIII e XV, com objetivo de ajudar o leitor a localizar passagens nos textos. Hoje, o sistema funciona como padronização universal, salvo pequenas divergências entre as edições. "Essa divisão pode facilitar, mas, com isso, perdeu-se a visão geral do texto", opina Seibert.
Padre Elílio, ao contrário, não vê benefícios na supressão dos versículos, apesar de aprovar a tentativa de aproximação com o leitor de hoje. O religioso também pondera para o risco de se padronizar textos que guardam uma diversidade muito grande entre si. "Na Bíblia, existem vários gêneros literários: o conto, a poesia, o provérbio e muitos outros. Não é possível ler tudo da mesma forma."
O eterno retorno aos originais
Relatos históricos dão conta de que os livros do Antigo Testamento tenham começado a ser escritos no século X a.C, durante o governo do lendário Rei Salomão, tomando como base tradições orais ainda mais antigas. O Novo Testamento, por sua vez, teria sido escrito nas décadas seguintes à crucificação de Cristo. Mais precisamente, no intervalo entre 50 d.C e 100 d.C.
As traduções da Bíblia tomam como fonte fragmentos do século II. Há, também, textos inteiros preservados do Novo Testamento, que datam do século IV, como os evangelhos de Mateus e Marcos. No Vaticano, estudiosos se dedicam à crítica textual desses documentos históricos, tentando chegar à versão mais próxima possível do original por meio da comparação.
Em cada nova tradução, linguistas e escritores voltam a esses originais. Há quem considere, entretanto, que a total fidelidade às escrituras só possa ser alcançada pela tradução exata de cada termo, sem adaptações de expressões idiomáticas ou na ordem das frases. É a chamada "equivalência verbal".
Contudo, aumentou nas últimas décadas a preferência pela "equivalência dinâmica", que leva em consideração a evolução do idioma com o tempo e suas diferenças conforme a cultura em questão. Das quatro traduções publicadas no Brasil pela SBB, apenas uma recorre a essa técnica. A empreitada foi realizada em 2000 e reuniu o esforço de especialistas em hebraico, aramaico e grego, idiomas dos textos originais. Batizada de "Nova tradução na linguagem de hoje", a versão logo caiu na predileção dos leitores.
Antes de chegar ao mercado, cada nova tradução da Bíblia deve passar pela aprovação final do texto, fase que reúne ainda mais profissionais, incluindo representantes de diferentes religiões que compartilham seus pontos de vista e evitam que a versão editada não pertença a uma doutrina específica, mas a todas.
Na visão de padre Elílio, a correta tradução deve estar cercada de conhecimentos que ultrapassam o domínio do idioma, mas que são indispensáveis na contextualização das palavras e expressões. "Aqueles textos foram escrito ao longo de 11 séculos, a partir de realidades históricas que não podem ser desprezadas. Há uma cultura fundamental. De algum modo, entretanto, ela se modifica ao longo do tempo."
