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Contra a correnteza da mediocridade

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Basta que se aponte uma câmera para a lona de circo. Pronto. Não há cinéfilo que deixe de pensar em Federico Fellini. O cineasta italiano, entretanto, não foi a principal referência para o ator e diretor Selton Mello durante a criação de "O palhaço". Didi Mocó, interpretado por Renato Aragão, marcou a infância de Selton, e o humor ingênuo de "Os trapalhões", naturalmente, foi levado para o segundo longa do artista mineiro. Incontáveis espectadores ficaram de fora da sessão especial oferecida durante a 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes, encerrada ontem. Selton estava lá, como homenageado desta edição e exibindo já alguns fios brancos. Aos 38 anos, acumula 30 de carreira. Emocionou-se diversas vezes nos eventos dos quais participou. A uma mulher que confessou garimpá-lo em filmes e ver nele um homem generoso, disse: "Acho que de tanto me procurar, você vem me achando."

Selton parece afagar a simplicidade. Ao observá-la no trabalho do parceiro de cena Paulo José, tratou de ampliar sua coleção. "Ele valoriza a incompletude, deixando uma parte para ser resolvida pelo público. Essa ideia não saiu mais de mim", comenta, durante um seminário que analisou sua carreira. Aliás, são comuns na vida do artista as caídas de ficha que o fazem tomar fôlego ou mudar de direção. "O palhaço", por exemplo, o ajudou a se sentir mais criativo. "Como ator, só pensava em mim. Como diretor, tenho que me preocupar com o todo."

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Sem receios, o mineiro saiu de "Feliz Natal", sua estreia como cineasta, para a segunda incursão. Sabia que o primeiro filme, sombrio e autoral, havia sido pouco visto. "Ele foi um grito. Em seguida, veio o sussurro", compara. E conclui que deve ser mais pressionado no terceiro projeto, ainda indefinido. "’O palhaço’ deu certo. Apontou um novo caminho para o cinema brasileiro, juntando as possibilidades de experimentar e se comunicar com as pessoas", avalia, salientando que seu longa esteve entre os de mais sucesso da telona brasileira em 2011.

A primeira epifania de Selton se deu em 1998, quando filmou "Lavoura arcaica", de Luiz Fernando Carvalho. Na época, o ator também estava em uma novela global. Sentia-se um burocrata e descobriu que aquilo não combinava com sua definição de arte, embora tenha sido importante para sua formação. Tomou o caminho do cinema, encarando, no mesmo ano, "O auto da compadecida", de Guel Arraes. "A correnteza da mediocridade quer sempre nos arrastar. Às vezes, a gente vai. Às vezes, a gente volta." Na opinião do mineiro, Carvalho e Arraes estão entre os poucos diretores que sabem comandar seu elenco. Na estreita lista, também entra José Eduardo Belmonte, que capitaneou "Billi pig", protagonizado por Mello.

O homenageado da vez não poupa elogios à geração de atores da qual faz parte. "São pessoas que se mexem." Embora admire o entusiasmo de Rodrigo Santoro, confessa ser muito ligado ao que construiu por aqui. Mas já experimentou a tentação. Recentemente, foi convidado para trabalhar em "Star Trek 2", de J.J. Abrams. Recusou, pois não sabia nada sobre seu papel, a não ser que ficaria em uma nave. "Acho que me sentiria meio deprimido com aquele uniforme."

De acordo com ele, o cinema nacional espelha o público por meio de heróis e mitos verde-amarelos. "Nós não somos Brad Pitt. Somos Wagner Moura, Lázaro Ramos, Matheus Nachtergaele." Aliás, Santoro e Moura foram convidados para o papel de Benjamim, em "O palhaço", mas tinham outros compromissos. Foi assim que Selton tomou para si a responsabilidade de dividir o picadeiro com Paulo José, sua referência de atuação ao lado de José Dumont, já na mira do diretor.

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Ator eclético, que vai de "A erva do rato" a "Mulher invisível", Selton Mello admite ser preguiçoso. Chega a sonhar com a composição de um personagem sem preparação. Talvez por isso, nas palavras dele, não tenha sido picado pelo bicho do teatro. "Essa coisa de ter que se reinventar todo dia, fazer a mesma coisa de quinta a domingo, não é comigo." Apesar disso, a passagem pela escola O Tablado e a participação em peças do dramaturgo inglês Harold Pinter são momentos marcantes da carreira. "Pinter reverbera em tudo o que faço. Nele, o dito é sempre menos importante do que o que está acontecendo." Outra fase importante para sua formação é a de dublador da Herbert Richards, dos 12 aos 20 anos.

Diversos critérios fazem o ator aceitar ou não determinado projeto. Da grana à admiração pelo roteiro. Na condição de diretor, porém, Selton orienta-se pelo que quer dizer. As mutações trazidas pela internet vêm tomando boa parte de seus pensamentos, pois sabe que a atualidade é apenas um embrião do que há de vir. "Os valores vão mudar. Fico impressionado com as possibilidades de expressão e estou com vontade de vasculhar esse ‘negócio’ em algum trabalho para a web", avisa, destacando o fenômeno "Menos a Luíza, que foi para o Canadá", que bombardeou as redes sociais. "Aliás, ela estragou a piada ao voltar para o Brasil", brinca.

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Muito exigente e munido da insatisfação própria de todo artista, o mineiro admite que já pensou muitas vezes em desistir. Para fazer o quê? "Pois é. Aí eu volto atrás. Sei que nunca farei outra coisa." Durante a entrega do Troféu Barroco, na abertura da mostra (dia 20), Selton afirmou buscar na arte traços da eternidade. Definindo-se como um jovem velho, procura resgatar atores no ostracismo, mas não justifica a atitude por meio da generosidade ou do fetichismo. "O esquecimento é o maior pavor do artista. Quero muito que alguém faça isso comigo se eu estiver deixado de lado."

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