
Leandro Hassum e Marcius Melhem estrelam mais um enlatado ‘made in Brazil’
E o cinema brasileiro encerra 2014 insistindo na mais que surrada – pelo menos artisticamente – transposição para a tela grande de séries de TV, peças de teatro e livros best-sellers, sem contar a superexposição do comediante Leandro Hassum. Ele, que havia estrelado este ano os dispensáveis “Até que a sorte nos separe 2”, “Vestido para casar” e “O candidato honesto”, agora vem acompanhado do parceiro Marcius Melhem na comédia (mais uma?!) “Os caras de pau em o misterioso roubo do anel”, adaptação da série de TV que estrelaram entre 2010 e 2013 e que antes era uma esquete do “Zorra total”.
No filme de Felipe Joffily, a aparvalhada dupla de seguranças Pedrão (Melhem) e Jorginho (Hassum) é contratada pela socialite Gracinha de Medeiros (Christine Fernandes) para vigiar seu valiosíssimo anel, aparentemente roubado quando um grupo de ninjas tenta levá-lo. O artefato, na verdade, foi engolido acidentalmente por Jorginho, mas a dupla de segurança é acusada de ter surrupiado o objeto, precisando fugir da polícia, dos ninjas e de uma gangue de mafiosos portugueses – como se imagina, uma desculpa para uma saraivada de piadas com nossos colonizadores.
Em entrevistas, os atores principais e o diretor declararam que a grande inspiração para o filme foram as antigas comédias dos Trapalhões – tentando reeditar a tradição do quarteto de humoristas de lançar filmes para a família durante as férias – e (pasme!) o “Kill Bill” de Quentin Tarantino o que gera a questão: o que o cineasta norte-americano fez de errado no seu clássico de vingança para ser citado em uma comédia caça-níqueis de fim de ano?
Leandro Hassum, em particular, é um comediante talentoso e carismático, mas precisa tomar cuidado para não gastar todos os seus cartuchos de uma vez. Essa é a quarta comédia fast-food em que ele aparece com destaque neste ano que se aproxima do fim, e o público se cansa muito facilmente das celebridades nesses tempos tão voláteis.
Fica também a dúvida sobre quanto tempo o cinema nacional vai sobreviver apostando apenas na cópia do pior que Hollywood pode oferecer em termos de comédia descartáveis, no nosso caso protagonizadas – em sua maioria – por atores globais. O problema não é haver produção de filmes descaradamente comerciais e superficiais, mas sim o fato de que tal tipo de produção vem ocupando quase todo o espaço da cinematografia brasileira. Em vez de equivalentes a “O que é isso, companheiro?”, “Central do Brasil”, “Cidade de Deus”, “O ano em que meus pais saíram de férias” e “Casa de areia”, entre outros, o que temos são as continuações infinitas de “Se eu fosse você”, “De pernas pro ar” e congêneres.
Cinema nacional? Estamos fazendo isso muito errado.
OS CARAS DE PAU EM O MISTERIOSO ROUBO DO ANEL
UCI 1: 13h25, 15h20 (todos os dias), 17h15, 19h10 e 21h05 (até terça-feira). Alameda 1: 15h20, 17h20 (todos os dias) 19h20 e 21h20 (até terça-feira)
Classificação: 10 anos
