Não é necessário reinventar a roda, mas, sim, mantê-la em movimento. Na lacuna entre iniciativas episódicas e uma efetiva política cultural, gerações de leitores são perdidas. A descontinuidade de iniciativas de fomento à cultura foi uma das principais críticas feitas pelos participantes do "Dois pra lá, dois pra cá" sobre literatura, realizado no Anfiteatro João Carriço no dia 5 de dezembro. "Não se faz cultura através de eventos, mas por meio de políticas efetivas. Como são interrompidas, essas iniciativas não cumprem a função de formar público. Entre os anos 1980 e 90, por exemplo, houve três ‘Primeiros encontro de poetas’", argumentou o professor e escritor Fernando Fiorese, sintetizando uma opinião comum aos demais convidados do debate, o poeta Iacyr Anderson Freitas, e os professores e escritores Anderson Pires e Carolina Barreto.
Presente em outras rodadas do "Dois pra lá, dois pra cá", a questão da formação de público ganhou vulto na noite dedicada à literatura em opiniões contundentes. "No Brasil, não há uma preocupação geral com o público, e isso se reflete na falta de políticas culturais. Isso é, de alguma forma, um estelionato aos impostos do cidadão. Esses bens deveriam estar disponíveis a todos os cidadãos que desejem tê-los", comenta Fiorese, referindo-se às dificuldades de distribuição das obras de autores locais.
Contando com uma lei de incentivo que garante a publicação anual de dezenas de títulos, a cidade esbarra na circulação escassa dessas obras. "A gente fica olhando as caixas de livros em casa, e elas vão se acumulando. É uma forma de as coisas não acontecerem. Sem a circulação, é como se apenas uma das etapas do processo estivesse completa", comenta Iacyr Anderson.
Entre os possíveis caminhos para superar essa dificuldade, Iacyr Anderson aposta na disponibilização de livros em catálogos na internet, ou, ainda, no acesso gratuito às obras editadas pela Lei Murilo Mendes em sites de domínio público. "Se não há como ter acesso ao objeto livro, que tenha, pelo menos, ao seu conteúdo", disse.
Durante as intervenções da plateia, espectadores, como o produtor cultural Beto Campos, sugeriram o estreitamento das relações com o setor privado e maior mobilização da classe a fim de promover seu trabalho independente da administração pública. Os convidados, entretanto, contrapuseram o acúmulo de funções a que estão submetidos. "Todos nós fazemos um pouco de tudo, do projeto gráfico à divulgação da obra", comentou Iacyr Anderson.
Fernando Fiorese, por sua vez, cobrou a atuação de profissionais com formação específica na gestão cultural, além de destacar a responsabilidade do setor público, financiado com dinheiro de impostos. "A sociedade civil não pode achar que o poder público conseguirá resolver tudo, mas é preciso lembrar que a verba saiu do contribuinte." A fala do professor também se referiu à observação de um empresário presente na plateia, que afirmou receber muitos pedidos de patrocínio. Embora disposto a financiar iniciativas culturais, esbarra em projetos mal formulados, de caráter amador.
Anderson Pires cita a criação do projeto ECO – Performances Poéticas como espaço independente de políticas públicas. "É um movimento marginal ou alternativo às leis de incentivo", afirmou. Na opinião do professor, o sucesso do projeto – que completa quatro anos de existência – é prova de que há público em potencial na cidade.
Pires, entretanto, ressaltou a falta de investimento em novos autores por parte das editoras, sobretudo na poesia. "Temos que ter consciência de que produzimos dentro de uma tradição, mas o aqui e agora é urgente", afirmou, destacando a falta de espaço para autores surgidos após a década de 1990. A falta de visibilidade também se repete em relação à literatura produzida nas regiões periféricas de Juiz de Fora. Fernando Fiorese acredita que a imagem da produção local pauta-se exclusivamente pelo que é feito nas regiões centrais da cidade, um erro que deveria ser minimizado pela implementação de fóruns permanentes de debates.
Carolina Barreto, por sua vez, questionou o próprio conceito de literatura debatido. Segundo a professora, a elitização desse conceito e a exclusão de modalidades mais populares terminam por afastar grande parte dos leitores. "Que literatura é levada para a cidade? Quem é o público para além dos poetas? Que conceito é esse que afasta tanto os leitores?", indagou. Nesse sentido, Anderson Pires, enfatizou a necessidade de criar canais de contato nos bairros, no intuito de desenvolver novos círculos de leitura.
A formação de leitores conduziu o debate para a inserção da literatura nas entidades de ensino. Na visão dos convidados, a cultura não está presente como deveria nas escolas e faculdades. "Falta diálogo entre as instituições. Esses alunos têm que poder experimentar outras formas de cultura que não a oferecida pela mídia", opinou Fiorese.
Presente na plateia, o estudante Rafael Reis mencionou a escassez de projetos de extensão na área das ciências humanas, por parte da UFJF, a exemplo do que acontece em instituições como a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e a Universidade Federal de São João del-Rei. O pesquisador Jorge Sanglard acrescentou a dificuldade de articulação entre a Universidade e esferas da administração pública. Na opinião de Sanglard, uma parceria entre esses setores poderia viabilizar projetos benéficos para a comunidade, como a criação de uma editora focada na produção local.
Muito além de um campo de experimentação estética, a literatura desempenha um importante papel na elevação da autoestima da cidade. A esse respeito, Fiorese citou o exemplo de Curitiba, que promoveu sua cultura urbana nos anos 1980, por meio de autores como Dalton Trevisan e Paulo Leminski. "As pessoas se apropriam desse imaginário de suas cidades, mesmo que a imagem vendida nessas obras não seja idílica. Juiz de Fora tem autores comprometidos com a cidade e dispostos a traduzi-la em linguagem literária."
Na mesma linha de raciocínio, Iacyr Anderson destacou o nome do juiz-forano Pedro Nava, considerado o maior memorialista da língua portuguesa. Em contraposição, Fiorese critica a "desmemória da cidade", citando o aniversário de 30 anos do movimento literário "Abre-alas", completado em 2011, que passou em branco.
Diante da repercussão alcançada por feiras literárias na região, os convidados opinaram sobre a possibilidade de criação de um evento literário contínuo na cidade. Apesar de se declararem a favor da proposta, os debatedores fizeram ressalvas à natureza dessa iniciativa.
Anderson Pires enfatiza a necessidade de se incluir a produção local em um possível festival literário. Para o professor, uma iniciativa dessa natureza poderia colaborar para a criação de mercado literário na cidade. "O livro precisa ser vendido, precisa circular na sociedade. Quando esse mercado for sólido, a política cultural passará a ser tomada como patrimônio público", argumentou, destacando o exemplo da L&PM Editores, em Porto Alegre, editora que tem colaborado na legitimação de autores gaúchos.
Dentre os possíveis resultados benéficos de um festival, Iacyr Anderson acrescentou o exemplo de continuidade do Congresso Brasileiro de Poesia de Bento Gonçalves, evento que se tornou referência na América do Sul. "Um evento de qualidade que deixa raízes na cidade".
