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Samba engajado de Douglas Germano chega pela primeira vez em JF

douglas germano
Pela primeira vez em Juiz de Fora, sambista apresenta ‘Branco’ e destaques da carreira (Foto: Jon Turner)
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A música começa: “Zarabatana, flecha certeira/ sabiá, caninana/ batucada, padê/ tripa de fora, futum, cecê/ gira (na rua) de ogunhê:/ tudo é samba”. É assim que a faixa de Douglas Germano dá o tom do álbum “Branco” — como quem enxerga o ritmo brasileiro feito pelo povo presente em cada detalhe do dia a dia. O músico, que vai estar em Juiz de Fora nesta sexta-feira (28) para uma apresentação no Café Muzik, às 21h30, mistura o que tem de tradicional no samba com traços da música contemporânea, para criação de um estilo próprio e conectado com a atualidade. O mais recente álbum mostrou como isso pode ser feito a partir do uso de instrumentos que não costumam ser valorizados nos arranjos do samba, e também com parcerias que incluem nomes como Elza Soares, Criolo e Wanderléa, somando ao seu trabalho de décadas.

O show vai ter como repertório todos os álbuns do artista, que começou a carreira solo em 2011, com o disco “Ori”, finalista do 23º Prêmio da Música Brasileira como Melhor Cantor de Samba. Em seguida, ele lançou  “Golpe de vista”, “Escumalha”, “Partido Alto” e, finalmente, “Branco”. “Muita gente nem entende que o que eu faço é samba. Às vezes as pessoas escutam e não percebem que é. Mas é samba, tudo que eu faço é samba”, conta ele, que revela que o show pode incluir ainda algumas composições inéditas. A afirmação de que faz samba é importante, em sua perspectiva, para mostrar inclusive que “samba não é uma coisa só”. Sobre isso, reflete: “Eu tento alternar e fazer determinadas mudanças na instrumentação e nas formas do arranjo, porque acho que é um gênero musical muito sofisticado e que pode apresentar várias roupagens em um mesmo repertório”.

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O caso do álbum mais recente é exemplo disso. A concepção da obra começou durante a pandemia de Covid-19, de maneira despretensiosa. “Diante de todo aquele quadro terrível que vivemos na pandemia, a última coisa que dava vontade de fazer era pegar o violão pra tocar. Mas meu trabalho depende disso. Conversando com meus parceiros, fomos nos mandando letras, pra um estimular o outro, e quando o período passou, percebi que tinha um roteiro para um álbum”, relembra. A música citada no começo da matéria é exemplo disso: foi composta em parceria com o historiador e escritor Luiz Antônio Simas e, posteriormente, ganhou feat de Loreta Colucci. Ele também colaborou com Fábio Peron, Roberto Didio, Alfredo Del Penho e Márcia Fernandes.

Douglas percebe que se abrir para essas parcerias foi importante para o seu trabalho, que até então contava mais com pesquisa ou reunião de repertório. Fez com que percebesse, inclusive, que a sua relação com o samba sempre esteve ligada a uma abordagem de temas sociais da atualidade. É nesse espaço, e também na possibilidade de se apresentar para o público novamente, que encontra sempre a força do samba: “O que tem potência é ter um gênero que atue em favor da identificação do público com uma forma de arte que dialoga com as necessidades que temos hoje, neste tempo espaço, sem saudosismo ou anacronismo.  Trata do que vivemos hoje, essa é a minha grande preocupação”. 

(Foto: Jon Turner)

Samba é assunto sério

Douglas leva o samba muito a sério. Isso não quer dizer que não encontre no samba lugar pro riso, pra piada ou pro festejo. Quer dizer que rejeita a ideia de que seja uma “música improvisada” ou feita por aquele artista que sempre aparece de camisa aberta, de jeito malandro e bebendo uma cervejinha. A representação da figura folclórica do sambista, inclusive, o incômoda bastante. “Há um interesse em exibir essa figura assim, como uma certa fragilidade, como alguém que não deve ser levado a sério. E nesta, temos o Cartola, que foi considerado a Academia Brasileira das Letras, mas que não está lá — e muitos dos que estão têm trabalhos muito inferiores ao dele”, afirma.

O artista diz isso sem ter dúvida, porque conhece bem esse sambista. E descreve Cartola como um operário, um cara sério, que aprendeu a construir o próprio instrumento. E que assim compõe uma bela letra, harmoniza a música e cria uma escola de samba. “E assim faz o maior espetáculo que o mundo tem notícia e que é contestador e que transforma”, destaca. É por acreditar que esse samba tem papel político, também, que acredita que é importante falar nesses artistas e na sua genialidade real. Para ele, o samba pode ser “questionador e linha de frente de inquietações da sociedade de maneira geral, assim como é o rap”. 

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Estímulos por toda parte

O  que tem inquietado Germano na música, nos últimos tempos, são as mazelas do próprio país. Desde as pessoas que ainda não têm um CEP até aquelas que não têm acesso à cultura devido à padronização da cultura de massas. “Não podemos perder de vista as mazelas que a gente tem quando vamos produzir arte e falar de arte. Se não, fica uma soberba enorme. Não podemos esquecer o país em que vivemos”, destaca. Mas também não busca determinar qual é o lugar do samba e qual deixa de ser:  “Faço músicas que as pessoas escutam, muitas vezes, para lavar louça ou participar de um churrasco. Posso fazer uma música questionadora e engajada e falar com uma pessoa que também é questionadora, engajada e trabalhadora, mas que naquele momento quer desopilar. Não podemos achar que tudo que fazemos é extremamente importante. A gente tem que ter a sensibilidade de criar identificação e estímulo”. 

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