Aberturas de pernas que remetem ao balé clássico, ‘quebradas’ de quadril típicas do funk carioca, inspirações do hip-hop, a clássica paradinha na ponta dos pés imortalizada por Michael Jackson, saltos variados e movimentos quase invisíveis de tão rápidos. Estes são apenas alguns dos incontáveis elementos que podem compor o passinho, dança surgida nas favelas cariocas e que se tornou uma representação cultural que extrapolou os limites de bailes, comunidades e do próprio Rio de Janeiro, popularizando-se em todo o país. A singularidade da expressão é retratada no documentário "A batalha do passinho", de Emílio Domingos, exibido hoje no Festival Primeiro Plano.
Segundo Júlia Mariano, produtora e roteirista do longa, a ideia foi mostrar a autenticidade da cultura do passinho, dando voz a seus representantes. "O Emílio tem uma inserção muito grande em movimentos culturais urbanos, então houve uma aproximação natural com os meninos que dançavam, porque eles compartilhavam muitas referências. O que se vê no filme é um olhar de dentro da manifestação, mostrando quem são os personagens deste fenômeno e os valores que ele traz, capazes de transformar realidades da favela", explica.
"Antes quem tinha poder na favela era traficante, e o passinho fez com que os dançarinos se tornassem figuras respeitadas", diz Jefferson de Oliveira Chaves, o Cebolinha, terceiro lugar na batalha documentada no filme de Domingos e um dos pioneiros do movimento. "O passinho mudou nossa vida, tirou muita gente das drogas e impediu que muitos se aproximasse delas, além de ser algo que tira o estigma de violência e crime das comunidades", completa o dançarino.
Se no Rio o passinho é uma representação positiva da periferia, o mesmo acontece com os adeptos juiz-foranos. Para Sandro Luís, de 18 anos, conhecido entre a rapaziada do passinho como Sandrinho dos primos, a dança é mais que um meio de expressão. "É uma forma de esquecer os problemas e evitar envolver-se em algum", opina o rapaz, ganhador da primeira batalha realizada em Juiz de Fora, no início de novembro, no Milho Branco, Zona Norte. "É democrático, une as pessoas para o bem", completa ele, que mora em São Pedro, mas, por causa do passinho, tem amigos dos bairros Bandeirantes, Milho Branco, Parque Burnier, Progresso, entre outros. "Quem está no passinho é amigo, não importa de onde venha", garante o jovem.
Cebolinha explica que esse espírito é universal e que o passinho conseguiu quebrar antigos tabus das favelas. "Eu particularmente sempre circulei em todas as favelas. Fui um dia a uma comunidade rival da minha, e, quando ia entrar, um cara me parou e disse: ‘Tô ligado na sua, você representa muito aí no baile’. Isso aconteceu só por causa do passinho, porque ele conhecia meu trabalho, poderiam ter me matado. Os traficantes também sabem separar bem as coisas e gostam das nossas performances, alguns até apostam dinheiro nas batalhas", conta o rapaz de 23 anos, que atualmente vive das aulas de dança e das apresentações do Bonde do Passinho – do qual é fundador – , que participou de um DVD de Seu Jorge e tem se apresentado no Rio e outros estados.
Para Aice NJ, um dos organizadores do duelo em Juiz de Fora, o crescimento de movimentos como este, que emergem das comunidades, é fundamental para que haja uma afirmação da identidade delas e de sua cultura. "Iniciativas como o passinho, o encontro de MCs e diversas outras atividades da periferia são a expressão do que acontece lá, que acaba se tornando universal. É o caso do samba, do funk e de tantas outras representações que antes eram vistas com preconceito, mas depois mostraram a riqueza cultural dos guetos, para além dos aspectos negativos conhecidos por todos", resume ele, um entusiasta de diversas manifestações culturais em bairros da periferia. "Estamos ganhando o asfalto, fazendo coisas como o duelo no Alto dos Passos, misturando pessoas de várias comunidades e o pessoal da região Central", acrescenta Gustavo Haaz, o MC Batora.
Antropofagia com raízes virtuais
A correnteza de influências que compõem o passinho vem, geralmente, de uma nascente em comum: a internet. "Antes era muito difícil conseguir material, o que a gente fazia era limitado, vinha de DVDs de dança de rua, o que dava uma experiência limitada. Hoje a gente faz uma pesquisa muito extensa no Youtube, não pega exatamente o passo, mas a base, e recria a partir daquilo com o nosso gingado", conta o dançarino, que se inspira atualmente nos gêmeos Laurent e Larry Bourgeois, bailarinos de Beyoncé conhecidos como Le Twins, e que já teve como ídolo o francês Mr Williams, ícone da dança de rua.
Também em Juiz de Fora, o passinho é referenciado por movimentos musicais e de dança diversos. "Assistimos a muita coisa que o pessoal do Rio faz, porque o estilo foi criado lá, mas misturamos com outros passos de dança que gostamos, gestos que traduzem a nossa realidade local, e ensaiamos quando podemos. O resultado acaba sendo a prática disso com o improviso do momento", diz Sandrinho dos primos. Para a roteirista Júlia Mariano, este mix é um movimento antropofágico. "Eles vão do balé ao kuduro e sempre imprimem algo muito particular, porque é uma batalha, um quer ser melhor que o outro, então a criatividade conta muito."
Outro traço marcante dos adeptos do passinho é um estilo visual marcante. "Calça justa e blusão", adianta Rodrigo Oliveira, o Rodriguinho Fratelli, também organizador da batalha juiz-forana. Tênis de marca "que podem ser falsificados" – como brinca o rapaz -, cordões de prata, bonés de aba larga e muitas cores também fazem parte da indumentária. "Tem que estar na beca", resume Rodriguinho. Afinal, "não adianta se destacar na dança e estar mal-arrumado e fedendo", diz Cebolinha, que não dispensa fazer as unhas e as sobrancelhas.
Para Júlia Mariano, a vaidade dos garotos cariocas também está ligada à quebra de paradigmas. "Os meninos do passinho possuem preocupação exagerada com a aparência, a estética. Também uma boa parte dos passinhos tem trejeitos femininos, como se eles imitassem estereótipo gay, mas não é feito de forma pejorativa e, sim, como um elemento da cultura, que dialoga com diversas outras, inclusive a gay."
"A BATALHA DO PASSINHO"
De Emílio Domingos
Hoje, às 21h
Cinemais Alameda
(Rua Moraes e Castro 300 – Alto dos Passos)
