"Pois se Franco Zeffirelli pôde tomar um ‘Chá com Mussolini’, por que não posso tomar um chá com Procópio Ferreira?", já indagava Ismair Zaghetto durante o processo de produção de seu primeiro livro de ficção. Contando com 15 contos – dos quais apenas o que relata o encontro com um dos maiores nomes do teatro brasileiro ocorreu de fato -, a publicação "Chá com Procópio Ferreira" será lançada hoje, às 19h, no Museu de Arte Murilo Mendes. Embora já tenha flertado com o gênero da ficção, Zaghetto se dedicou aos fatos por mais de 30 anos.
A entrevista que dá nome à obra aconteceu em 1964. As lembranças do momento, embora ludibriadas pelo tempo, permanecem nítidas ao também sociólogo – por formação – e professor – por excelência. Procópio Ferreira, considerado um dos gênios das comédias brasileiras, se via diante de um jovem jornalista, recém-chegado à redação do "Diário Mercantil", maior jornal da cidade e um dos mais respeitados do estado. "Ter do outro lado da mesa um monstro sagrado da dramaturgia brasileira foi amedrontador. Mas foi um susto agradável", conta. "Ele foi muito amável e me disse algo importante: ‘acredite sempre naquilo que você deseja fazer’. Talvez, se o tivesse encontrado já mais amadurecido, não teria sido tão instigante".
Caneta em uma das mãos e cigarro na outra, durante duas horas Zaghetto entrevistou o ator, diretor e dramaturgo, sem ter ideia de que, nos próximos anos, interrogaria outras fontes notórias, como ministros, governadores e presidentes, além da própria filha de Ferreira, Bibi. "Não foi bem um chá, na verdade foi um cafezinho. Mas chá soa bem mais charmoso", completa. Voraz leitor de biografias, Zaghetto – criador e primeiro superintendente da Funalfa – assina outras obras que remontam personagens e passagens históricas, caso de "Machado Sobrinho: o guerreiro da utopia" e o recente "Itamar e o bando de sonhadores".
Os demais 14 contos que compõem o livro têm como fios condutores as angústias humanas. A seleção das palavras, o olhar e até mesmo a forma de narrar são marcas de autoria incutidas no processo jornalístico. Sempre em meio às letras, Zaghetto se diz surpreso com o fato de os jornalistas não serem considerados literatos. "Pois se vivemos uma vida inteira escrevendo…"
Segundo o autor, o que o levou "da realidade brutal à ficção" (título de sua apresentação no livro) foi o convívio na Academia Juiz-forana de Letras, onde ocupa a cadeira de número 12, cujo patrono é o sociólogo e professor Wilson de Lima Bastos. "O jornalista vive dentro de espaços limitados pelos fatos. A ficção, por sua vez, é ilimitada. A ficção dá as ferramentas com as quais você rompe com os limites do verossímil", reflete.
Ao longo da carreira, Zaghetto foi redator do programa "Ronda policial", na rádio PRB-3, editor-geral do "Jornal da Tarde", comentarista da TV Tiradentes, apresentador do programa "Dimensão", na TV Visão, e colunista da Tribuna. "Do ponto de vista humano, a vida dentro de uma redação de jornal é muito rica. Nós, jornalistas, incorporamos de forma generosa a vida dos outros", avalia. "Diante da minha inquietude, faltava me libertar da realidade da redação e da sala de aula. A ficção foi a minha libertação."
CHÁ COM PROCÓPIO FERREIRA
Lançamento do livro de Ismair Zaghetto, hoje, às 19h
Museu de Arte Murilo Mendes
(Rua Benjamin Constant 790)
