Um sentimento pessoal de dúvida, até em relação à própria profissão, dividia o ator e diretor Selton Mello, enquanto atuava em Jean Charles, de Henrique Goldman, em 2009. Tinha tudo para estar bem e não estava. Não me sentia feliz com aquilo tudo, descreveu o artista, em entrevista coletiva realizada em Paulínia (SP), onde filmou seu segundo trabalho como diretor, O palhaço. Orçada em R$ 5 milhões, a produção, que também teve filmagens em Santa Rita de Ibitipoca, Bom Jesus do Vermelho, Conceição do Ibitipoca e Lima Duarte (todas as localidades em Minas), chega, hoje, às salas de todo o Brasil, com 200 cópias, quantia digna de um blockbuster, que o filme não pretende ser.
Acredito que ‘O palhaço’ tenha um potencial para atingir o grande público sem abrir mão de um refinamento estético, de camadas mais sensíveis de entendimento. Um filme é uma representação emocional e afetiva da vida. Esse raciocínio é meu guia, resumiu, por e-mail, Selton Mello, enquanto voava a caminho de Belo Horizonte.
É uma comédia que emociona. É com essa frase que Selton define o filme que conta com sua participação como diretor e ator principal. O palhaço conta a história de Benjamin (Selton Mello) e seu pai Valdemar (Paulo José), os palhaços Pangaré e Puro Sangue, que vivem na companhia da trupe do Circo Esperança. Queria discutir o lugar no mundo de um indivíduo a partir de suas escolhas e dilemas. Eu poderia falar de um médico, de um engenheiro, mas escolhi Benjamim, um palhaço em crise, que acha que perdeu a graça. O circo é o lar deste personagem e de sua relação com o pai, com os amigos de trabalho, com suas escolhas e com o futuro, ressalta Selton, sobre a vontade de falar de identidade, do peso e da beleza que o destino exerce na busca de cada um.
O desenrolar dos fatos ocorre quando Benjamim acha que perdeu a graça e inicia sua busca por sonhos e motivações para viver. E para isso Selton Mello coloca na tela o universo circense com todo seu encanto e magia através de estradas de terra pelo interior do Brasil. Sonhava em fazer um filme claro, legível, sem afetações estéticas. Um filme que chegasse ao público pela via mais calorosa, o caminho do coração.
O diretor explica que Benjamin nasceu nutrido por esta crise pessoal, dentro do roteiro coassinado por Marcelo Vindicatto (que dividiu com Selton os créditos de sua estreia como diretor em Feliz Natal, de 2008). Ele esclarece ainda que, a partir de um determinado momento, o personagem ganhou vida própria, com suas próprias questões. Portanto, é um personagem mais metafórico que autobiográfico. A crise foi só um ponto de partida. Ele tem pensamentos que não são meus, reforça.
Para quem nasceu em Passos (numa fazenda no interior de Minas) e foi criado em São Paulo, Selton Mello sempre esteve dividido entre dois mundos, por isso seu filme, embora a maioria das cenas seja atemporal, é ambientado nos anos 80, época em que, na juventude, ele ingressou no circuito artístico. A trajetória do palhaço, inclusive, passa por Passos, sua cidade natal, que ele quis homenagear. Mais que isso, O palhaço também tem como argumento o fato de ser um filme solar, em que, de acordo com Selton, a paisagem externa é menos importante que os personagens.
A nostálgica redenção do protagonista e sua volta ao lar é a prova de que é possível ao cinema ser um circo dentro de um circo. Aliás, o longa vem carregado das referências circenses de Selton, como Renato Aragão, Oscarito e os personagens de Federico Fellini, cuja obra cinematográfica é a reprodução definitiva do teatro.
Portanto, se O palhaço é um filme que surgiu para fazer sonhar, que essa coceira se espalhe por onde a caravana do Circo Esperança passar.
Autoconhecimento de um artista
Há vários motivos para se fazer um filme. No caso de O palhaço, Selton Mello queria falar sobre vocação e identidade. O filme é uma homenagem a minha profissão. O principal motivo foi querer lançar um longa que deixasse o espectador encantado na saída do cinema, produzir algo que faça bem para o espírito de quem assiste, detalha o diretor, ao comentar ainda sobre sua procura por uma comédia lírica, com um personagem sonhador e um pai que identifica no filho coisas que talvez tenha deixado para trás. E muito mais.
Tribuna – Como transportar para as telonas o clichê de um palhaço em crise sem parecer piegas?
Selton Mello – Quis fazer um filme que fosse engraçado sem forçar barra alguma. As comédias estão arrancando o riso a fórceps nos últimos tempos. Aos poucos, você vai entrando na atmosfera de O palhaço e, quando menos espera, está rindo e se comovendo com a trama do Benjamim e sua trupe.
– O que mais te inspirou?
– Me inspirei muito nos filmes que vi durante o processo de realização do roteiro. Assisti de Trapalhões a Fellini, passando pelo filme Muito além do jardim, com Peter Sellers. Busquei também referências literárias e pictóricas, como (Marc) Chagall, Dostoiévski e Christian Andersen.
– Você já teve medo de palhaço?
– Nunca. E as pessoas têm reagido lindamente ao filme. As crianças também adoram aventuras da trupe de nosso circo.
