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Testemunhos da história

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O aroma e o sabor do bolo de fécula com batata e calda de laranja ainda estão guardados na memória. No intervalo do trabalho, Maria Izabel Brick Bara, então com seus 17 ou 18 anos (os anos que se passaram enganam as lembranças), funcionária da Cia Auto Lux, foi convidada para um almoço de aniversário da colega Carmen, sobrinha-neta de Alfredo Ferreira Lage. A mesa ocupava uma sala de jantar de uma das casas da família, vizinha da suntuosa Villa Ferreira Lage, transformada em Museu pelo herdeiro de Mariano Procópio. A data exata foge de suas recordações, mas acredita-se que o ocorrido pertença à década de 1940. Era hora de almoço, a visita foi bem rápida. Carmen devia ter uns 40 anos. Ela ainda me deu um brinquinho de presente e me levou ao museu, subimos aqueles caminhos escuros cercados por árvores de todos os lados. Quando entramos no salão principal, vi um lustre enorme, confidencia a senhora, hoje com 84 anos. Ela também me contou um caso de alguém que tinha escutado o barulho do lustre caindo e, quando chegou lá, estava tudo no lugar. Ficamos apavoradas.

Em seus 92 anos, o Museu Mariano Procópio acondiciona não só objetos e documentos valiosos, mas também histórias marcantes. Personalidades ilustres ultrapassaram os portões, como a Família Imperial, o presidente Getúlio Vargas e o escritor Pedro Nava, e também pessoas comuns. Na mostra Eu e o museu, em cartaz a partir de hoje no parque do Mariano Procópio, dentro da programação da sétima edição da Primavera dos Museus, estarão expostos registros de personalidades que lá estiveram.

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No ar também a partir de hoje, o hotsite, cujo endereço é http://ecgp.pjf.mg.gov.br/museu, traz as 13 imagens expostas e recortes de jornais. A iniciativa faz parte de um projeto idealizado em maio deste ano e se abre a internautas que queiram eternizar seus relatos envolvendo o espaço. Quem quiser participar poderá enviar depoimentos e fotos por meio da fanpage do museu no facebook. Depois de serem avaliados, os registros poderão ficar disponíveis na página criada. O objetivo é estreitar os laços com o público juiz-forano, ampliando a sensação de pertencimento, conforme aponta o diretor-superintendente, Douglas Fasolato. Uma possível exposição física das imagens enviadas deve ser realizada.

Existe uma perene rede de afeto do público com o Museu Mariano Procópio, construída ao longo de décadas, e, em muitos casos, transmitida de geração em geração. Relação tão forte que garante vínculos até mesmo diante dos desafios históricos, como neste período em que os prédios históricos e parte do jardim se encontram fechados para obras de restauro e requalificação, mas gerando uma grande expectativa em torno de sua reabertura, escreve Fasolato em texto de apresentação da mostra.

Tempos áureos

Na época com quatro anos de estrada, o Grupo Divulgação, comandado por José Luiz Ribeiro, também tem em sua história a apresentação de Escola de mulheres, de Molière, no Museu Mariano Procópio, em 1970. Dois anos depois, a trupe retornou ao local para uma homenagem ao poeta Murilo Mendes, com o espetáculo Murilo, Belmiro e Pedro Nava, durante cerimônia de entrega da Medalha do Cinquentenário da Fundação do Museu Mariano Procópio ao escritor. Versos dos três autores eram costurados e embalados por canções. Foi uma das poucas vezes que Murilo esteve em Juiz de Fora, conta a jornalista Leda Nagle, ex-atriz da companhia. O poeta tinha chegado com a esposa, Maria da Saudade. Ele ficou muito satisfeito com a trilha sonora e me perguntou quem tinha descoberto as músicas que ele mais gostava. Claro que na obra dele existem muitas referências, completa Ribeiro.

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Segundo o diretor teatral, eventos no museu eram comuns naqueles tempos, já que a amplitude do local e o envolvimento da diretora Geralda Armond com a poesia favoreciam as apresentações culturais. Quando entrei para o Conselho de Amigos do Museu, fiquei triste de ver um instrumento, como a harpa, num estado precário. O museu era um centro de cultura, era um local onde as pessoas iam com frequência para fazer piquenique, diz José Luiz Ribeiro, antigo morador da Rua Senador Feliciano Penna, via próxima ao museu, e portador de momentos que merecem ser registrados. Quando criança, a gente ia roubar jabuticaba lá. Descíamos correndo numas folhas de coqueiro. De vez em quando, os macacos fugiam da vila. O museu faz parte da minha vida.

Para Tetê Tostes, o dia em que seu avô Antônio Carlos Ribeiro de Andrada disse que seu acervo, composto por raridades, deveria ser doado ao Museu Mariano Procópio depois de sua morte, não sai de suas lembranças, apesar dos mais de 50 anos vividos após o episódio. A inauguração da Sala Antônio Carlos, em 1950, foi revivida por ela em entrevista à Tribuna e também poderá ser conferida pelo juiz-forano que entrar no site ou visitar a exposição. Tetê era uma garota de 13 anos, acompanhada da mãe Ilka de Andrada Tostes e as irmãs Julieta e Vera. Também estavam presentes, entre outros ilustres, o Prefeito Dilermando Cruz e Fábio Bonifácio Olinda de Andrada.

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Lembro-me direitinho do Dilermando na mesa principal, onde estavam coisas importantes da família e de Juiz de Fora. Fiquei encantada de olhar os pertences e os retratos do vovô arrumados. Tinha um busto, as canetas de ouro, era tudo valioso mesmo. Juiz de Fora representa a felicidade, afirma ela aos 78 anos.

Talvez nove em cada dez juiz-foranos tenham um caso curioso, engraçado e até mesmo assustador para contar. Dona Maria Giovanini Corrêa, 79, dedicou uns dois anos de sua vida à instituição. Sua função era guiar os visitantes. Como não podia deixar de ser, uma de suas histórias mais marcantes está relacionada ao quadro de Pedro Américo, Tiradentes supliciado. Estava trabalhando lá há pouco tempo. Acho que o filho de um casal queria me testar, pedindo para ver a cama onde Tiradentes tinha morrido. Como percebi a intenção dele, brinquei dizendo que poderia mostrar algo muito mais importante do que a cama. Mostrei o quadro do Américo e fiquei com vontade de rir com o descontrole do menino, brinca. Eu era a mascotinha da equipe. Tinha a dona Julieta, a Guilhermina, a Márcia e a diretora, dona Geralda. Ficava cismada de entrar em algumas salas. Acho que é porque falam que museu é lugar de gente que já morreu. Era muito nova. Infelizmente, nesta fase, não damos tanta importância a experiências como esta. Vez ou outra, conto algumas histórias do museu para meus netos.

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Quem quiser conferir a programação do parque do Museu Mariano Procópio, impressões dos visitantes, percursos, informações sobre a fauna e a flora, poderá acessar o endereço eletrônico www.mapro.pjf.mg.gov.br, lançado no dia 23 de setembro, também dentro das atividades da Primavera dos Museus. Em breve, um CD, utilizado como suporte educativo, também deve ser lançado. De acordo com Fasolato, a página deverá ser atualizada frequentemente.

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