Em meados da década de 1990, as pessoas ficaram livres de virar o disco. A chegada dos CDs no mercado fonográfico revolucionava o setor musical, com o formato compacto, que possibilitava um som mais limpo. No final da mesma década, a pirataria dos álbuns ganhava força, e os brasileiros começavam a baixar músicas de graça pela internet. A realidade foi implacável com as gravadoras. Em 2003, por exemplo, o retrocesso era tão grande, que o volume de vendas já voltava a patamares de 1994. Com a clientela escassa, as lojas especializadas, que estavam por todos os lados, sumiram gradativamente. O desdobramento de todo esse processo é que, assim como aconteceu com os vinis, os CDs começam agora a ganhar status de item de colecionador. Mas, se depender desse público, teorias de que essa mídia estaria com os dias contados jamais se concretizarão.
O jornalista Marcos La Falce tem 2.500 CDs em casa e avisa: "mesmo se ficar surdo, continuarei comprando". Ele conta que, apesar de ser da época do vinil, a mudança para os compactos foi favorável, possibilitando um som ainda mais puro, com as gravadoras passando a caprichar nas edições, investindo em arquivos remasterizados e encartes primorosos. "Algumas edições de luxo são de se ouvir rezando." Na opinião de La Falce, é fato que os CDs já se transformam em itens de colecionador. "As novas gerações não ligam muito. No máximo, vejo alguns jovens comprando sob influência dos pais. Além disso, alguns produtos lançados no passado estão fora de catálogo. Se disponibilizados novamente, será em tiragem pequena, já com os colecionadores como foco."
Mesmo com um acervo tão grande, La Falce garante que escuta todos os álbuns. "Na minha casa, há aparelhos de som até no banheiro. Além disso, gravo alguns álbuns e transformo os áudios em mp3 para escutar nos players." A paixão pelos discos já o levou a ficar três horas em uma loja especializada em Londres, a Meca do Rock, de onde saiu com 54 CDs. "Por lá, o número de estabelecimentos do ramo diminuiu cerca de 60%. Em compensação, os que restaram garimpam mais exemplares exclusivos." A diferença, segundo ele, é que, na capital britânica, é possível comprar discos a preços mais acessíveis. "Uma edição de luxo no Brasil custa R$ 120. Em Londres, o preço gira em torno de 20 libras (R$ 52)."
Com um acervo de aproximadamente três mil CDs em casa, o comerciante Claudio Luiz da Silva visita as lojas especializadas com frequência. Ele procura um estilo de música que geralmente não é encontrado de outra forma. "Gosto de discos de jazz da década de 1960, assim como álbuns de ícones da bossa-nova e da black music. De qualquer maneira, não estou atrás simplesmente das canções, mas do registro completo de uma época. Em hipótese alguma baixo músicas. No máximo, escuto rádios on-line." Para ele, cópias piratas ou mp3 não possuem a mesma importância que ter um bom álbum em mãos. "Seria como ler um livro xerocado."
Claudio considera o CD como um passaporte para o universo envolvido no álbum. Por meio dos encartes, é possível conhecer os músicos responsáveis por cada canção e os compositores. Além disso, as mídias equivalem "a todo um produto artístico ilustrado por grandes criadores gráficos". Como exemplo, ele cita álbuns emblemáticos como "Kind of blue", de Miles Davis, e "Sinatra & Jobim – The Complete reprise recordings", que fazem parte de sua coleção.
Lojistas resistem, na contramão dos downloads
Proprietário do Museu do Disco, onde aproximadamente 20 mil CDs estão à venda, João Roberto de Moreira está no ramo desde 1980 e se recorda de que, no começo da década de 1990, foi um dos primeiros a vender os compactos em Juiz de Fora. "Na época, eram cerca de 30 lojas especializadas, hoje não passam de meia dúzia." De acordo com ele, as vendas caíram mais de 50% nos últimos anos. Entretanto, como o número de lojas ficou escasso, ele conseguiu manter uma boa clientela, que, aliás, é remanescente de uma rede de cinco pontos que já foram mantidos por Roberto. "Vendo muito para as pessoas que têm perfil de colecionador, mas os artistas que estão na mídia saem bem, como o CD da Paula Fernandes, que é o mais vendido há uns cinco meses." Em meio a tantas previsões obscuras, Roberto não acredita em uma extinção. "Não sou pessimista. Acho que vai continuar, ainda que seja como objeto de coleção", conta Roberto, que vende cerca de 1.500 CDs por mês.
Com atuação mais focada, Douglas Stércio é dono da Tuka’s Rock, especializada em discos de rock. Ele acredita que, cada vez mais, o material fica restrito às coleções. Uma das provas disso é o fato de "os clássicos serem os que vendem mais". Entre os internacionais, por exemplo, ele pontua que qualquer álbum do Iron Maiden tem boa saída. No meio nacional, Raimundos e Legião Urbana também permanecem com força. "Ainda têm as coletâneas, muito procuradas por fãs mais novos." E isso, segundo ele, levando-se em consideração que os preços nem sempre são acessíveis, por conta dos impostos. Douglas cita o álbum "BBC sessions", do Led Zeppelin, que mesmo ao custo de R$ 65 tem venda garantida. Apesar do movimento, ele aponta uma redução de cerca de 40% nas vendas nos últimos anos. "Se fosse mais barato, com certeza venderíamos mais."
Novos nichos
Os últimos levantamentos da Associação Brasileira de Produtores de Discos (ABPD) apontaram que, em 2009, os CDs ainda correspondiam a cerca de 60% do total das vendas no mercado musical nacional, ficando à frente de plataformas como DVDs, blu-rays e formatos digitais. Entretanto, a queda no setor, ao longo dos anos, é gritante. Em 2003, foram comercializados 52 milhões de CDs, correspondendo a R$ 511 milhões em vendas. Já no ano de 2009 foram vendidas 20 milhões de cópias, com um lucro de apenas R$ 215 milhões. Nesse intervalo, a queda foi de cerca de 60% no volume de cópias e 58% no lucro.
Para a presidente da Associação Brasileira da Música Independente, Luciana Pegorer, que também é proprietária da gravadora carioca Delira Música, esse contexto acabou evidenciando um nicho que vem se tornando a "menina dos olhos" de muitas empresas. Trata-se do consumo das edições de luxo, nas quais álbuns de MPB, música clássica e jazz ganham tratamento sofisticado, com embalagens de papelão e brindes. "Embora o conteúdo esteja na internet, o produto físico acaba oferecendo um design bonito, valorizando o exemplar. É um mercado representativo, já que a margem de lucro é maior e não compete com a pirataria." Como ela avalia, o ramo tende a ter um certo crescimento e atingir estabilidade, devido à boa aceitação. Por outro lado, segundo Luciana, os discos que não se enquadram nesse perfil caminham para o outro extremo, perdendo qualidade nas embalagens para que haja barateamento.
