O período de pré-produção de um folhetim requer muitas escolhas. Depois da sinopse pronta e aprovada, autor e direção começam a escalar o elenco, selecionar músicas para a trilha sonora e convidar profissionais de confiança para a equipe técnica. Entre tantos pontos a decidir, chegar ao nome da trama costuma ser uma das partes mais complicadas do processo. Algumas novelas têm suas histórias inspiradas pelos títulos, enquanto outras são nomeadas pouco antes da estreia. A demora na escolha é justificada por alguns entraves, que podem ir desde questões jurídicas, caso o título já tenha sido registrado no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), ao consenso da diretoria artística da emissora. É uma definição que não tem um momento certo para acontecer, mas é de extrema importância. É o título que vai acompanhar a novela durante todos os meses. É necessário que ele tenha a ver com tudo o que vier a acontecer no período, acredita o autor Ricardo Linhares.
Na recém-terminada Insensato coração, trama de Ricardo Linhares e Gilberto Braga, a dupla evitou problemas para nomear a novela porque iniciaram todo o trabalho a partir do título. A inspiração veio um ano e meio antes da estreia, em um momento de pesar, durante o enterro do compositor baiano Dorival Caymmi. Pela primeira vez, uma novela minha começou pelo título. Estava me despedindo do Caymmi quando me veio a letra da canção Só Louco na cabeça. Sempre adorei essa música e achei que ‘Insensato coração’ daria um bom nome de novela, justifica Gilberto, referindo-se aos versos Ah, insensato coração/ por que me fizeste sofrer da música composta por Caymmi, em 1956.
Já Fina estampa, atual novela das nove, teve um processo mais lento para a escolha do título. O nome que constava na sinopse entregue à emissora pelo autor Aguinaldo Silva era Marido de aluguel, que faz alusão ao trabalho da protagonista Griselda, de Lilia Cabral, hábil em serviços mais ligados ao universo masculino, como troca de pneus, reparações elétricas e hidráulicas, entre outros. O título era bom. Mas não iria combinar com o restante da trama. Seria meio limitador, destaca Aguinaldo. Além disso, Marido de aluguel também já estava registrado. Outro título candidato a dar nome à trama foi Pura estampa, logo descartado por Aguinaldo. O autor é quem tem mais voz nesse quesito. É ele quem assina a obra. Acho que o nome que vingou é bem mais adequado, pois a novela vai falar sobre aparências. O que é ter uma fina estampa? Estar bem vestido ou ter bom caráter?, indaga Aguinaldo. Coincidentemente, Fina estampa também é nome de uma música da compositora peruana Chabuca Granda, que deu nome a um CD de Caetano Veloso de 1994.
Nomes mais abrangentes e que possibilitem a interpretação da trama como um todo estão sempre rondando a cabeça dos novelistas e diretores executivos das emissoras. Assim como Aguinaldo, Walther Negrão também achou válida a troca de nome de sua última novela das seis. A trama iria se chamar Girassol, por se desenvolver em uma fictícia cidade homônima. No entanto, o folhetim foi ao ar como Araguaia. A novela inteira se passava às margens do rio Araguaia, e ele tinha muita importância fundamental para a trama. Acho bom quando o nome consegue justificar a história de maneira simples, ressalta Walther.
Outro que tenta contar a história do folhetim já no título é Silvio de Abreu. Em Passione, de 2010, o nome era uma referência à forte relação entre o italiano Totó, de Tony Ramos, e a vilã Clara, de Mariana Ximenes. Definiu bem a novela. Mas foi um dos meus títulos mais largos. Dava margem à muitas interpretações. Em outras novelas, consegui ser mais conciso, como ‘Guerra dos sexos’, onde o tema era a briga entre os gêneros, ou em ‘Belíssima’, onde abordei a beleza, conta Silvio, falando sobre seus folhetins de 1983 e 2005, respectivamente.
