
Thaïs em seu ateliê em Nova Lima, na região metropolitana da capital mineira (Vicente de Mello)
Referência em gravura, Thaïs foi aluna e professora na Escola Guignard (Vicente de Mello)
Série “Tempos impressos” (Vicente de Mello)
Em estante com 240 caixas de vidro, artista reúne lembranças da vida desde a infância (Vicente de Mello)
Gravatas de quando o pai era alfaiate. Utensílios de cozinha de uma mãe que era confeiteira. Livros, tecidos, desenhos e pequenas lembranças. Infância, juventude e maturidade preservadas em 240 caixas de vidro e dispostas em uma agigantada estante metálica preta. “Quase museu de objetos esquecidos”, a instalação é uma narrativa afetiva da caminhada de Thaïs Helt, partindo da Juiz de Fora natal e chegando à Belo Horizonte onde escolheu fincar raízes. A linguagem é inédita na trajetória da artista visual que viu a cidade na Zona da Mata mineira deixar de ser paisagem na janela aos 12 anos. A hoje senhora de 66 anos, cabelos grisalhos, voz calma e acolhedora, escolheu imprimir em papel o tempo que sempre lhe foi caro. Tornou-se reconhecida – somando diversas individuais e coletivas no currículo – pelos papéis de sua autoria.
Uma das peças mais instigantes da exposição “Códice – do risco ao risco”, no Museu Vale, em Vila Velha (Espírito Santo), que traça um diálogo entre as obras de Thaïs, Marco Tulio Resende e o aclamado Amílcar de Castro, a estante revela técnica nova da artista, mas discurso frequentado nos quase 40 anos de carreira. “Dentro de cada caixa, tem uma história: minha, da minha infância, de minha mãe quando era confeiteira, de meu pai quando era alfaiate. Essa estante ganhou muita força. Já fazia isso, tenho trabalhos sobre papel que têm relevos, têm objetos colados. Até então, estavam só na parede. Com essa estante, trago meu trabalho para o tridimensional”, pontua Thaïs, com trema, sim, como a personagem-título da ópera em três atos do francês Jules Massenet.
Assim como a estrutura, o título do trabalho também parte da faceta “acumuladora” da artista. “Guardo muitas coisas. Temos não sei quantos liquidificadores antigos. Batedeiras também. O Allen (Roscoe, o marido, arquiteto de Belo Horizonte e curador da obra de Amílcar de Castro) é colecionador de jipes da Segunda Guerra, tem 35 jipes”, conta. Há pouco tempo, eles compraram uma salsicheira antiga, que veio embalada num jornal de 1949. “Desembrulhei e guardei o papel. No momento, estava trabalhando na exposição e não sabia dar um nome para a estante. Os trabalhos de parede se chamam ‘Tempo impresso’. Ao abrir o jornal guardado, estava escrito ‘Quase museu de objetos esquecidos’. Era uma matéria da Panair, contando sobre um espaço montado com o que havia sido encontrado dentro dos aviões.”
Cidade efervescente
Do que Thaïs Helt não conseguiu guardar em uma caixa estão as muitas recordações de Juiz de Fora, da qual fala, por telefone à Tribuna, com incontestável carinho. “Fui criada aí. Tínhamos uma turma superlegal. Morávamos em uma rua sem saída no Morro da Glória. Estudei no Santos Anjos, depois fui para o Santa Catarina. Tive uma infância muito agradável. Depois que vim para Belo Horizonte, até entrar na faculdade, passava todas as férias aí”, lembra.
“Meu pai é descendente de alemães e natual daí. Já minha mãe, foi adulta para a cidade, após ter estudado em Barbacena. Quando chegou, foi fazer um curso de enfermagem da Cruz Vermelha com o desejo de ir para a Itália, para a Segunda Guerra”, conta sobre Amadeu e Amélia. “Na minha época, Juiz de Fora já era uma cidade cultural, de muita efervescência. Tinham muitos balés, o Conservatório onde estudei piano, além de cinemas maravilhosos”, rememora ela, sugerindo que sua inclinação artística se deu pelas bandas de cá. Na Escola Guignard, onde se graduou e foi professora até ano passado, Thaïs encontrou não apenas sua expressão na vida, mas parceiros de profissão que se tornariam grandes amigos.
“Lotus Lobo (prima dos irmãos Bracher) foi minha professora e mentora dentro da litografia. Por causa dela, conheci o Waldemar e todos os Bracher. Conheci o Amílcar nesse período também. Ficamos amicíssimos, e ele começou a fazer gravuras comigo. Naquele tempo, fizemos – eu, a Lotus e o meu irmão, George Helt – a Casa Litográfica. O lugar sobreviveu por pouco tempo, e, daí, abri meu espaço, com a ajuda do Antônio Grosso, um litógrafo carioca”, diz ela, que hoje tem seu ateliê na casa onde vive, em Nova Lima, na região metropolitana da capital mineira.
Ponto de encontro de artistas do país todo, seu ateliê imprime gravuras, o que justifica o alto domínio da técnica pela artista. Dessa compreensão de sua artesania, Thaïs soube subverter. “Já não posso falar que meu trabalho é apenas gravura. Mistura litografia, xilogravura, desenho, ‘frottage’ e outros tipos de impressão. Às vezes, coloco ‘impressão com papiers collés e desenho’, explicando para o espectador. Costumo chamar essa minha parte de ‘collés'”, aponta ela, que escreveu a própria história sempre de olho na terra onde floresceu. De Dnar Rocha, fala com admiração e lamenta não ter tido um convívio maior. De Nívea Bracher, fala com encantamento. De Roberto Vieira, ressalta a genialidade.
De todos, é por Amílcar sua mais terna gratidão. Tanto é que a exposição capixaba ressalta a escrita como o elo entre o trabalho de seu colega de Guignard (Marco Tulio) e o mentor de ambos (Amílcar). Na espécie de livro histórico, como anuncia o título da mostra (“Códice”), o trio remonta as relações que a arte proporciona, que vão do inicial ato de riscar ao caráter de ousadia expresso no fazer do artista. “A mostra vem revelar a unidade e coerência gráfica desses três artistas, que pelo gesto em comum trazem os seus universos particulares através da intimidade com o traço, o desenho e a poesia”, analisa, em texto, o diretor do Museu Vale, Ronado Barbosa. A exposição segue em cartaz até 30 de agosto, com lançamento do catálogo agendado para o próximo dia 12.

