Ícone do site Tribuna de Minas

Antes e depois do aplauso

PUBLICIDADE

Se todos os caminhos levam à arte, por algum momento, muitas pessoas intervieram em processos tidos como intocáveis para tornar as manifestações artísticas palpáveis à população. Um assunto não tão didático mesmo entre entusiastas e interessados do ramo, a ópera seguiu meandros obscuros até chegar aos teatros e, agora, às salas de cinema, em transmissões ao vivo. Crítico musical e colunista de música erudita, Rodolfo Valverde é o responsável pela exibição das produções do Metropolitan em salas do Rio e de São Paulo. Por aqui, segundo ele, ainda não há interesse dos grupos exibidores em transmitir este conteúdo simultaneamente. "A cultura e a informação favorecem a apreciação", ele enfatiza. "Se em Juiz de Fora, a rejeição dos cinemas é por não haver público, nas grandes capitais, os ingressos são disputados a tapa", diz.

Mais que investir na inclusão da cidade no eixo das grandes produções operísticas, Valverde vem sendo o braço teórico do 22º Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, aguçando a sensação do ver e ouvir com bate-papos antes de todos os concertos. Na última semana, porém, ele, que também é co-fundador e professor efetivo do curso de música da UFJF, resgatou a história da ópera, mostrando o quanto esta arte se desenvolveu até tomar o espaço que nasceu para ser seu, os grandes teatros.

PUBLICIDADE

Em entrevista à Tribuna, ele aposta no distanciamento histórico como fator importante para a apreciação de uma obra de arte. "Durante as décadas de 10 e 20 do século XVII, os teatros mantinham diversas óperas (de temática sacra ou secular) particulares nos palácios, onde estavam todos a serviço dos mecenas."

 

Música do aprimoramento

Após duas semanas de aulas é hora de colher os frutos do aprendizado. Em todas as edições, o Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga reserva espaço em sua programação cultural para as apresentações dos alunos em diferentes tipo de formação, como o madrigal, a banda sinfônica e as orquestras de crianças, experimental, sinfônica e brasileira histórica do festival. Atrações de hoje e amanhã, os grupos abrem o final de semana de despedida do evento em espetáculos na Igreja São Sebastião e no Teatro Pró-Música.

Empregado para definir um determinado tipo de poema, o termo madrigal também é aplicado para indicar um tipo de música vocal polifônica de origem profana. A formação do Madrigal do Festival, que se apresenta hoje, às 20h30, na Igreja São Sebastião, teve início na primeira semana do evento, quando o regente Homero Magalhães Filho escolheu os integrantes. No concerto, os cantores interpretarão obras de compositores renascentistas e barrocos, à capella, ou acompanhados de instrumentos de época.

PUBLICIDADE

No Teatro Pró-Música, às 14h, é a vez da Orquestra de Crianças do Festival, resultado do trabalho realizado pelo regente José Ademar Rocha, incumbido de ensinar mais de cem instrumentistas a tocar em grupo e a funcionarem como um só corpo musical. Nessa tarefa, Rocha conta com o método Suzuki, técnica que empresta à música a mesma naturalidade da aquisição de outros tipos de linguagem, como a fala. Mais tarde, às 18h, o teatro recebe a Orquestra Experimental do Festival, formada por alunos que já contam com alguns anos de aprendizado. Para marcar a juventude do elenco, o repertório mescla composições eruditas de Haydn e Mozart à ópera rock "Rapsodia Bohemia", do grupo Queen.

A versatilidade caracteriza a Banda Sinfônica do Festival, que se apresenta amanhã, às 10h, sob o comando do regente Erivaldo Fraga. Além dos naipes que integram uma orquestra sinfônica, o grupo agrega instrumentos da música popular. A mistura resulta em um repertório eclético, que coloca o clássico ao lado de jazz, samba e forró.

PUBLICIDADE

Encerrando essa parte da programação, as Orquestras Brasileira Histórica e Sinfônica do Festival dividem o palco do Teatro Pró-Música amanhã, às 20h30. Ambas são compostas por alunos das disciplinas de cordas do evento. Com foco específico no tema do festival, os grupos interpretam composições dos períodos colonial e barroco. Nesta edição, estão no repertório obras do brasileiro Francisco Raposo e do português Bernardo José de Souza Queiroz, além de músicas de Johann Adolph Hasse, Mozart, Schubert, Haydn e Strauss.

 

Retreta, tocata e concerto

Enquanto muitos param para ver a banda passar, outros vão até ela. No universo particular da música, é assim que funciona, e o Festival do Pró-Música está aí para comprovar que lugar comum quando o assunto são notas musicais não existe. Ninguém está imune à contaminação de retretas, tocatas e concertos. Mas qual é a diferença entre retreta, tocata e concerto? O solista americano Ronnie Ingle, que dá aulas de trompete na University of North Dakota (EUA), veio para assumir uma disciplina no festival e um compromisso toda vez que o relógio do Colégio dos Jesuítas marca meio-dia. Entre uma lição e outra, Ingle tem convidado os alunos a realizar uma retreta, tradição dos anos 40 em cidades pequenas que vem ganhando força nos dias de hoje. "É um concerto popular de uma banda em praça pública", resume, após quase um minuto de performance. A tocata é itinerante, uma banda sinfônica que sai tocando pelas ruas, enquanto que o concerto é, como a maioria que desconhece os outros dois sabe, prioridade de espaços fechados.

PUBLICIDADE

Em todos os casos, o solista, ou "trumpet player", como Ronnie Ingle prefere, tem um papel fundamental. "O mais importante é tocar em grupo e ter o desafio de sempre diferenciar a fórmula como solista", explica o trompetista. "A diferença é que na orquestra todos estão juntos numa unidade enquanto que, como solista, é possível criar obras mais originais", assegura.

O solista é o responsável por executar um instrumento com habilidade e técnica perfeitas. "É o músico em evidência, torna-se uma referência", define o violinista carioca Daniel Guedes, que veio para se apresentar com a Orquestra Pró-Música.

Quem também passou por aqui foi a cravista Elisa Freixo, solista da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. "O festival evidencia vários papéis, entre eles o do solista. Uma boa orquestra é formada por pessoas que também são bons solistas que aprendem a tocar juntos sem se destacar, mesmo mantendo perfil e carreira paralela como tal", sublinha Elisa.

PUBLICIDADE
Sair da versão mobile