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‘Um país existe nas imagens que preserva’: CineOP debate memória, cinema e pioneirismo feminino

‘Um país existe nas imagens que preserva’: CineOP debate memória, cinema e pioneirismo feminino

Leo Lara/Universo Produção

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Filme ‘Proust palimpsesto: pastiches e misturas’ será exibido durante mostra competitiva (Foto: Divulgação)
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Com a temática “Um país existe nas imagens que preserva” e o enfoque nas iniciativas pioneiras de mulheres, a CineOP teve início na quinta-feira (25) com uma programação intensa — que inclui 135 filmes, palestras, masterclasses e muitas rodas de conversa. Na 21ª edição, os curadores da Mostra Histórica contam que priorizaram resgatar contextos históricos, políticos, territoriais e criativos que forjaram obras importantes do cinema brasileiro, em diferentes décadas, a partir do olhar feminino, ao qual foram impostos maiores entraves – que inclusive ainda não foram totalmente superados. Por essa razão, escolheram homenagear a diretora Helena Solberg e exibir filmes como “Cristais de sangue” (1975), “Femino plural” 1976), “Mar de rosas” (1989) e “Que bom te ver viva” (1989). Além disso, também explicam os caminhos que a mostra competitiva “Arquivos em questão” está seguindo, em sua segunda edição. 

Juliana Guzman e Cleber Eduardo, curadores da Mostra Histórica, explicam que as estreias femininas apresentam algo de muito significativo: isso porque são recorrentes as realizadoras de um longa só, com carreiras interrompidas e hiatos significativos entre o primeiro e o segundo longa. Portanto, as estreias femininas às quais o festival se dedica a olhar não são apenas o início de uma trajetória artística linear e tida como certa, mas configuram apostas radicais que, muitas vezes, são oportunidades únicas. “Esse risco se transforma em propostas estéticas igualmente provocativas. A urgência do tudo ou nada se imprime na fatura dos primeiros filmes de diferentes realizadoras. E temos um interesse em compreender como essas obras inauguram linhas de força que irão se repetir, intensificar ou se modificar ao longo de carreiras que, contra todas as adversidades, conseguiram se viabilizar”, explicam. 

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Ao oferecer ao público um olhar específico para esses filmes, os dois acreditam que também fazem uma leitura em direção oposta à história do cinema brasileiro, propondo o aprofundamento de análises críticas, discursivas e materiais de obras dirigidas por mulheres — que inclusive só começaram a receber esse tipo de atenção sistemática há não mais que 15 anos. Esse tipo de olhar, para eles, ajuda a identificar lacunas que impedem o público de compreender a pluralidade radical dos “nossos cinemas”. Para eles, não se trata de determinar uma “autoria feminina” de forma homogênea, mas de utilizar o gênero como categoria estratégica para que outros filmes se coloquem no debate, no corpo a corpo com o público. 

Olhar para essa produção diversa, nesse sentido, também foi destacado pela curadoria como uma forma de realçar a inventividade de suas respostas cinematográficas singulares aos obstáculos mais ou menos comuns que foram postos a elas. “Cada qual com sua ginga, contornaram estruturas sistêmicas para fazer cinema, apesar de tudo”, diz. Os encontros proporcionados por isso, em mesas que vão de Helena Solberg com Lucia Murat e Tata Amaral com Viviane Ferreira, também criam momentos para traçar recorrências e particularidades históricas, compreender os vícios  sistêmicos que interditam impulsos criativos e a pluralidade dos enfrentamentos políticos, estéticos e artísticos. “O encontro intergeracional provoca um atrito dialético que pode gerar sínteses imprevisíveis. Esperamos uma partilha frutífera, e que os filmes programados se transformem e nos transformem a partir dos novos encontros”, ressaltam.

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'Apocalipse segundo baby' (Foto: Divulgação)

Em segunda edição, mostra competitiva aponta caminhos para arquivos

A mostra “Arquivos em questão”, que conta com a curadoria de Cleber Eduardo e Rubens Fabrício Anzolim, está em sua segunda edição este ano, e conta com uma seleção de trabalhos que usam o arquivo não apenas como registro, mas como linguagem artística. A partir da experiência de 2025, os dois contam que questionaram o que funcionou e o que precisava de aprimoramento, e puderam perceber um saldo bastante positivo da experiência, tanto por pavimentar um caminho para a Competição de Arquivos, que segue rara no Brasil (ainda mais pensando que há poucos festivais atuantes com esse recorte), como também pelo modo como os filmes têm se comportado enquanto inscritos. “Em 2026, tivemos uma demanda bem maior de inscritos para a mostra competitiva, o que nos revela que houve já um mínimo alcance dessa rede de cineastas que trabalham com arquivos. Ou seja, começamos a ser vistos como janela possível (algo que a ideia de uma mostra competitiva, com premiação, certamente fortifica)”, destacam.

Em relação à última edição, eles também perceberam que houve um aumento de inscritos e de procura, o que ofereceu uma variedade maior de objetos: filmes que antes apareciam com caráter “meramente histórico”, em que as informações eram como dados, agora vêm lidam com o arquivo a partir de noções mais “poéticas”, relativas inclusive a dilemas de montagem. Na percepção dos dois, com esse alargamento, a noção do que é “arquivo” também se amplia, e o público pode entender esse elemento não só como algo que se refere a imagens oficiais ou aquelas vindas de espaços oficiais, mas inclui também aquelas imagens caseiras, feitas com celulares, imagens domésticas e, até, oriundas do universo das redes sociais. “Esses arquivos pessoais tendem a se tornar maioria, uma vez que muita gente captura e guarda imagens, sem pensar que, quando captaram essas imagens, elas poderiam habitar um filme”, explicam.

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Os filmes selecionados são “Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas”, de Carlos Adriano, “Apocalipse Segundo Baby”, de Rafael Saar, “Irritante Prodígio”, de Luiza Lindner, “Universo Circular – Jocy de Oliveira”, de Dácio Pinheiro e  “Notas Sobre um Desterro” de Gustavo Castro, e os dois curadores explicam que os projetos possuem tramas bem distintas, regiões geográficas de abrangência díspares e tramas e objetivos às vezes distantes. O que os une, no entanto, é o fato de que o arquivo é usado como forma. Isso significa, inclusive, que nem todos os filmes são exatamente documentários, pois o uso de arquivos não é uma prática que tem aparecido exclusivamente nesse tipo de filme, e pode se constituir como ponto de partida para  filmes ficcionais ou híbridos. Esse é o ponto central da mostra: “O arquivo vira narrativa, vira material de cena, vira decupagem. Ele serve como elemento fulcral de uma forma cinematográfica, e não necessariamente como uma muleta ou uma inserção dentro de um filme que lida com certos temas. Eles são o cerne e o coração das obras. E elas vivem através deles, eles fazem os filmes movimentarem-se”, destacam os dois.

*A repórter viajou a convite da Universo Produção 

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