
A cantora Ana Cañas fez um show em homenagem a Rita Lee nessa sexta-feira (27), durante a programação da Mostra de Cinema de Ouro Preto. Ela interpretou 19 músicas que marcaram a trajetória da padroeira do rock nacional, desde a fase dos Mutantes, até o Tutti Frutti e as músicas com Roberto de Carvalho. A apresentação aconteceu logo após a exibição do documentário “Ritas”, de Oswaldo Santana, no Cine-Praça, e trouxe um repertório preparado exclusivamente para essa apresentação.
“Pra mim, é a maior compositora brasileira de todos os tempos. Fazendo esse show, tive uma envergadura maior do que é a obra dela. E vejo que ela fala por todas nós, no sentido de trazer uma representatividade da mulher real, com inteligência, sarcasmo, humor, ironia fina”, revela Ana Cañas.
Antes da apresentação, a cantora contou que já tinha sido procurada para fazer um show em homenagem a Rita Lee em outros momentos, mas só topou quando o convite surgiu para realizar a apresentação dentro de uma mostra de cinema que exibiria, antes, o documentário. E nota a clara relação entre o humor de Rita, que considera um “superpoder”, e a proposta de um olhar mais detalhado para o humor feminino no cinema.
“Eu tô muito emocionada de fazer esse show, porque sei que meu público vê uma relação entre nós duas. E pra mim não tem elogio maior”, revela Cañas, que não deixa de ressaltar a importância enorme que Rita Lee teve para sua vida, tanto como artista quanto como mulher. “Ela me libertou, me fez sonhar e pensar que eu poderia ser uma mulher compositora, fazer piada e falar de sexo… ela abriu porteiras e cortou o mato para todas nós. (…) É uma mulher em que vida e obra se entrelaçam”, destaca.
A cantora faz essa homenagem a Rita Lee após quatro anos interpretando a obra de Belchior — e de um jeito que também trouxe a identidade dela para as canções. Para ela, é assim que é possível interpretar sem ser uma cópia. “Mesmo quando eu tocava em bares, 20 anos atrás, para sobreviver, eu não fazia versão igual de ninguém. Acho injusto, antiético e imoral copiar alguém. Por mais que você seja apaixonado por esse alguém, você vai sobrevivendo às magias que as pessoas fizeram e tentando encontrar as suas magias”, conta. Mas, para ela, é preciso dosar quando mudar os acordes e quando preservar as versões originais.
Mexer nos “relicários brasileiros”, por isso mesmo, exige coragem. “Estou feliz, só posso pretender emocionar as pessoas se eu fico emocionada antes”, diz. Ela completou, ainda, dizendo que nunca tinha se sentido tão à vontade preparando um show, quanto se sentiu para interpretar a cantora. Foi o primeiro show em que trabalhou um repertório completamente feminino. Apesar de não descartar trabalhar o projeto novamente no futuro, não é o que planeja por enquanto. “Se acontecer, não vai ser agora. Tenho ‘Vida real’ e outro na fila, que vocês vão saber ano que vem. Talvez, quem sabe, mais pra frente”, revela.
Álbum autoral recém-lançado por Ana Cañas
Em abril deste ano, Cañas lançou o seu mais recente álbum autoral, chamado de “Vida real”. Esse é outro fator que faz com que a homenagem a Rita Lee fique, por enquanto, em suspenso. “É difícil fazer a transição e voltar pro autoral. Mas acho que esse álbum tem uma energia de renascimento artístico, de centramento do que quero dizer”, conta. A experiência tocando Belchior, inclusive, a inspirou a entender que queria fazer com que as pessoas também cantassem as suas músicas, e também a compor o que fosse pessoal. No álbum, inclusive, ela traz experiências íntimas, como paixões, a morte de seu irmão e até um momento em que foi amante.
‘Assisto um filme por dia’
Outra inspiração presente em seu álbum autoral — e em sua trajetória como artista, como um todo — é o cinema. Para Cañas, que tem uma tatuagem da assinatura de Bergman na costela, o audiovisual é uma paixão enorme.
“O cinema é vida pra mim. Eu vejo tantos filmes quanto escuto música. Sou muito fã do cinema independente, europeu, do neorrealismo italiano e do cinema japonês. Assisto um filme por dia”, diz. No álbum recém-lançado, inclusive, ela confessa que teve uma inspiração direta do cinema na parceria com Ney Matogrosso, a música “Derreti”. Ela foi influenciada por “O último tango em Paris”, quando assistiu ainda sem saber da polêmica envolvendo o filme e a denúncia de abuso por parte de Maria Schneider.
Mas a história do filme ficou com ela, como muitas outras vezes aconteceu. “Não tenho como colocar em palavras o que o cinema fez por mim, o quanto ele me fez sonhar, o quanto já me deu de emoções, lágrimas e inspirações”, comenta.
