A despeito das mudanças nos ventos da política nos últimos 17 anos, a museóloga Vera Lúcia Bottrel Tostes permanece no comando do Museu Histórico Nacional (MNH) desde 1994, tempo suficiente para o mandato de quatro presidentes da República e outros tantos titulares do Ministério da Cultura. O crédito conquistado tem como fundamento os resultados colhidos nessas quase duas décadas, como o crescimento expressivo na área e a projeção alcançada por um museu que se esconde por trás do viaduto da Avenida Perimetral, no Rio de Janeiro, em uma região que passou por anos de marginalização na cidade. A gestora ficou conhecida, sobretudo, por sua capacidade de obter recursos para os projetos do museu. Para tanto, aprendeu a lidar com as "regras do jogo", dominando trâmites burocráticos e mantendo-se antenada com possibilidades antes ignoradas pelo setor cultural.
O estilo Vera Tostes fez escola, e hoje a museóloga enfrenta a concorrência de outras instituições que aprenderam com seu exemplo. "Temos que pensar com cabeça empresarial para termos sucesso. É necessário agir com profissionalismo. O projeto tem que estar bem fundamentado, pois ele está concorrendo com outros mil", constata.
A diretora do MHN esteve em Juiz de Fora há duas semanas para ministrar dois dias de treinamento com os funcionários da Fundação Museu Mariano Procópio (Mapro). Esse não foi o primeiro contato da gestora com o acervo da entidade. Em 2010, ela foi responsável pela curadoria da exposição "Doce França", realizada no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm). Nessa aproximação, conta que ficou impressionada com o que encontrou na coleção juiz-forana. "É um museu que não é importante só para Juiz de Fora ou Minas, tem peso nacional", avalia.
Mangas arregaçadas
No treinamento que ofereceu à equipa da Mapro, Vera destacou a necessidade de uma atitude menos intelectual e mais objetiva. "É necessário ter uma cabeça mais prática e colocar o pé no chão, não ficar apenas no campo das ideias, da contestação." Nos últimos anos, o Museu Histórico Nacional ficou conhecido por sua capacidade de abocanhar verbas dispersas entre diferentes ministérios ou procedentes de projetos rejeitados de outras instituições. "Dinheiro existe, temos que saber o caminho para chegar até ele", diz a diretora.
Conforme a museóloga, a estratégia depende de um planejamento constante, que engloba a elaboração de ações a curto, médio e longo prazo, uma vez que as oportunidades podem aparecer de modo inesperado. Em 2009, por exemplo, durante o Ano da França no Brasil, aconteceu o improvável: uma importante montadora de automóveis francesa bateu às portas do museu, oferecendo verba para aplicação imediata em uma iniciativa cultural, dinheiro que poderia ter sido destinado a outra entidade, caso não houvesse propostas prontas na gaveta da diretora.
A diretora do MHN também inovou ao ceder um pátio localizado na entrada do museu para a realização de eventos, em troca de uma doação em dinheiro para a instituição. Praticada na Europa, a iniciativa foi – e continua sendo – alvo de polêmica. Contra às críticas, Vera apresenta os resultados positivos: a verba dos donativos financiou a restauração de 80% do acervo de carruagens do museu. O argumento é o fiador da gestora no projeto de construir uma cobertura no pátio central do conjunto para a obtenção de um novo espaço de eventos. "Não há qualquer prejuízo à visitação normal, uma vez que os eventos são feitos em um pátio fechado, com acesso independente do restante do circuito", afirma.
O desafio da visibilidade
Apesar de estar localizado em um dos mais importantes sítios históricos do Rio de Janeiro, o Museu Histórico Nacional teve que superar sua "invisibilidade" diante do grande público. Uma luta que começou a ser travada quando a gestora assumiu o museu, em 1994, e que permanece em pauta. A fachada do conjunto tem sua visão comprometida pelo viaduto da Avenida Perimetral, um problema sem perspectiva de solução definitiva, já que esse trecho da estrutura não será demolido nas obras do Porto Maravilha (projeto de revitalização da Zona Portuária da cidade para a Copa de 2014). Para minimizar a decadência da área, a museóloga conta que foi necessário o esforço conjunto do MNH com outras instituições públicas dos arredores e com o comércio local.
O Museu Histórico Nacional integra o que Vera classifica como "núcleo arqueológico da cidade", ao lado do prédio da Santa Casa de Misericórdia e da Ladeira da Misericórdia – porção restante do Morro do Castelo, onde a cidade foi fundada. O edifício de paredes robustas e brancas, semelhante a um forte, ocupa as instalações do antigo arsenal de guerra da cidade. Com as ampliações construídas posteriormente, constitui um conjunto de 30 mil metros quadrados, que abriga um acervo de 277 mil itens, cerca de 67% das coleções brasileiras ligadas ao MinC. "Essa região é como um diamante e merecia, pelo menos, uma iluminação especial", advoga a gestora.
Falando a língua de todos
Com tamanho patrimônio nas mãos, o MHN tem o desafio de abarcar toda a história nacional entre seus muros, uma tarefa que foi aprimorada em dezembro, a partir da inauguração de um novo circuito expositivo. Um dos desafios nessa empreitada foi proporcionar uma linguagem atraente a visitantes de todos os graus de instrução, sem banalizar as informações históricas. "Quando queremos atingir o público, temos que utilizar uma linguagem acessível", ressalta, respaldada pelo sucesso do mercado editorial brasileiro com livros de temática histórica, caso de "1808" e "1822", de Laurentino Gomes. Vera Tostes aponta a necessidade dessa comunicação fluente em outras instâncias, como na recuperação de objetos artísticos roubados. "Não adianta dizer que é uma imagem policromada, porque o policial que está no aeroporto não vai entender. Isso só dificulta a identificação do objeto", exemplifica.
O novo circuito do museu dedica setores a informações que foram, por muito tempo, sonegadas da história nacional, como a pré-história brasileira e os legados da cultura africana. Essa versão ainda traça um perfil dos portugueses que chegaram ao Brasil. "Um museu de história, como o nosso, tem um componente didático muito forte", ressalta. Ainda conforme Vera Tostes, a concepção das exibições leva em consideração a ideia de personagens e mitos históricos como construções. É o caso da imagem de Tiradentes, que teve sua iconografia deslocada do período colonial para a República. "Aquela imagem do mártir foi construída no século XX. Era uma ideologia política da época", explica a diretora. No encerramento do percurso, um grande espelho funciona como metáfora do futuro, destacando a responsabilidade de cada indivíduo com a construção do que amanhã será considerado história. "Espero que isso chame a atenção do visitante de que não é só receber, ele também é agente da história."
