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Um século de história

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Obra deve resgatar características originais
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Obra deve resgatar características originais

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Como de praxe, andaimes foram erguidos para serem utilizados por operários que dariam início aos trabalhos. Aos mais distraídos, que pelo Calçadão da Halfeld, esquina com Rua Batista de Oliveira, circulam diariamente, os anteparos de madeira que envolvem a sede do Ballet Misailidis nada mais escondem que uma construção antiga, deteriorada pelas ações do tempo. De fato, era para ser uma reforma comum, não fosse o espaço ter sido testemunha de um século de história. Erguido em 1913 pela Construtora Pantaleone Arcuri & Spinelli, com projeto assinado por Raphael Arcuri, o Palacete Pinho comemora o seu centésimo aniversário em processo de reforma, sendo garantida a reconstrução da cúpula que cobria a trapeira (janela superior). Um incêndio no local provocou a queda da estrutura, de acordo com o arquiteto Marcos Olender, autor do livro "Ornamento, ponto e nó – Da urdidura pantaleônica às tramas arquitetônicas de Raphael Arcuri (2011).

Orçada em R$ 150 mil, a iniciativa foi totalmente custeada pelos donos do imóvel, que tem fachada e volumetria tombadas pelo município em dezembro de 2001. A previsão é de que as obras terminem em agosto, podendo o térreo abrigar um espaço para exposição, ainda a ser definido.

De família libanesa, o menino Salim Uhebe veio para o Brasil aos 7 anos de idade, ficando órfão em terras juiz-foranas. Ainda adolescente, com 12 anos, ele encontrou trabalho na antiga fábrica de meias instalada no Palacete Pinho. Se durante o dia era no primeiro andar que ele se dedicava a suas atividades profissionais, à noite, seu dormitório era o segundo pavimento. Depois de acumular dinheiro suficiente, comprou parte da empresa, passando a investir no ramo da construção, conforme relata a neta Dani Marie, diretora da escola de dança Misailidis, que lá funciona há 16 anos. "O prédio tem uma estrutura maravilhosa. Nem no Rio encontramos salas com o pé-direito alto, indicado para a prática do balé. É importante não só pelo valor afetivo, por ser o primeiro imóvel da família, mas também para o patrimônio histórico da cidade. Infelizmente, poucos se preocupam com a arte", comenta ela, que não se cansa de ouvir as memórias narradas pela mãe.

O prédio preserva inúmeras histórias. Foi lá, no então edifício mais alto da época, de propriedade do capitalista Antônio Martins de Pinho, que uma sociedade carnavalesca se reunia para alegrar os foliões. Nas primeiras décadas do século XX, funcionou ali uma alfaiataria e, até mais recentemente, a farmácia, que ocupou o espaço durante anos, entre tantos outros estabelecimentos. A construção, conforme Olender, é um exemplar do ecletismo, assim como o prédio das Repartições Municipais, no Parque Halfeld, e o Cine-Theatro Central, também projetados por Raphael Arcuri, mas possui elementos que remontam ao art nouveau. "Foi um projeto feito logo que o Raphael voltou da Itália, daí possuir alguns traços do próximo estilo, já difundido por lá. As esquadrias das janelas, por exemplo, são art nouveau", comenta Olender.

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Resgate das características originais

Assinado pelos arquitetos Eduardo Felga e Daniele Baião, da Arquitetônica Engenharia – empresa responsável também pela reforma do prédio Íris Villela, onde funciona a clínica de Fonoaudiologia do CES, e o Instituto Estadual de Educação -, o projeto foi protocolado na Prefeitura com a intenção de solucionar problemas de infiltrações, telhas quebradas, fiação exposta, esquadrias e gradis danificados, rachaduras, trincas e pintura envelhecida, procurando se aproximar das características da época em que a obra foi erguida. "Não poderemos reutilizar as telhas francesas, pois elas estão em péssimo estado. Só de transportá-las, estão quebrando. Porém, vamos substituí-las por outras de mesmo modelo. Tentaremos também recuperar os adornos e utilizar tintas novas, mais resistentes, com cores parecidas com as que eram utilizadas naquele período", conta Felga, para logo justificar a não utilização de mão-de-obra especializada no processo, que para ele é mais uma reforma do que restauração.

"Não houve perda das características originais. Nesse caso, não seguiremos uma técnica específica. A restauração tem um custo bem mais alto e é bem mais demorada." Para garantir a manutenção da construção, esforços não serão poupados. A recomposição das flores que compõem as grades feitas de ferro fundido vai ser realizada com material adquirido numa fundição do Rio de Janeiro, a mesma que forneceu produtos para a construção original. Com relação às esquadrias, o arquiteto comenta que aquelas que não tiverem como ser recuperadas, serão refeitas com o mesmo desenho, mas com madeira nova. Na parte interna do edifício, as escadarias originais foram mantidas, a novidade fica por conta das paredes que agora ganharam tijolos aparentes. "Do lado de dentro, procuramos preservar tudo o que pudemos, até mesmo por ser um patrimônio da cidade", diz Dani.

Além de reformar o prédio, a família Uhebe quer garantir a visibilidade do entorno. Por isso, no projeto, Dani propôs a retirada da banca de jornais que está localizada em frente à entrada da escola, transferindo-a para o outro lado da mesma calçada. "A pessoa que quer admirar a arquitetura do prédio fica impedida com tanta informação em volta. É nesse ponto que entra a contrapartida da Prefeitura. O documento foi aprovado com essa ressalva, e vamos cobrar isso. Porém, não é simplesmente tirar essas pessoas que lá estão há tanto tempo, mas colocá-las em local mais adequado."

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Paulo Gawryszewski, diretor da Divisão de Patrimônio Cultural (Dipac) da PJF, vê com bons olhos a iniciativa, porém afirma que, apesar de o pedido de transferência constar no projeto, isso não é garantia de que ele será executado e nem é um impedimento para que a obra se realize. "É interessante que os imóveis tombados tenham visibilidade total, pois isso só os valorizam. Mas há que se considerar que a banca está lá há muito tempo. Vou levar a questão para a próxima reunião do Conselho (Comppac), que acontecerá em junho", assegura ele.

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