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A língua do corpo

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Em seu artigo no jornal O Estado de S. Paulo sobre o filme Pina, de Wim Wenders, Arnaldo Jabor assegura que a linguagem sem palavras da coreógrafa alemã Pina Bausch diz mais que conceitos explícitos. Jabor aproxima-se de uma interrogação que sempre povoou o território da dança. Logo após acontecer diante da plateia, o movimento corporal, tão expressivo quanto efêmero, dissolve-se no ar. Como registrar seu discurso? Como guardá-lo em gavetas e protegê-lo do tempo? Para comemorar o Dia Internacional da Dança (este domingo), instituído em 1982 pela Unesco, a Tribuna convidou bailarinas e professoras para um debate sobre o assunto. A propósito, o documentário a respeito da obra de Pina, falecida em 2009, esteve em cartaz por aqui. Uma temporada rápida, sem direito a 3D.

Segundo as pesquisadoras Ana Lígia Trindade e Flavia Pilla do Valle, no texto A escrita da dança: um histórico da notação do movimento, a tentativa de repassar adiante uma manifestação do gênero pode ser observada já nas pinturas egípcias e nos vasos gregos. As autoras ressaltam a importância da preservação histórica, mencionando que a criação como um todo dificilmente sairá ilesa se contar apenas com imagens e descrições verbais. É nesse ponto que a cena se abre para notações específicas, como o método Benesh, no caso do balé. Trata-se de uma escrita codificada para o clássico. Ela detalha os passos, mas não pode indicar a interpretação, sempre pessoal, explica Myriam Mockdece, professora da escola Espaço da Dança e da Universidade Salgado de Oliveira (Universo). De acordo com ela, as grandes coreografias de repertório eram transmitidas oralmente, com a ajuda dos libretos e seus enredos. Na fala, muita coisa se perde, assevera Myriam, ao relembrar as aulas que recebeu da mãe.

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Se as notações são essenciais para a perpetuação, mas não dão conta do processo criativo, um caminho seria reunir todas as formas de registro. Na opinião de Sylvia Renhe, coreógrafa e diretora da Cia. Inércia Zero, diários, gravações de conversas, livros estudados, fotografias e vídeos podem assegurar certa integridade à obra. As individualidades do artista, porém, sempre entrarão em ação quando ele se propuser a reavivar uma manifestação anterior. Myriam salienta que busca as indicações dos balés russos Bolshoi e Kirov para fazer releituras adequadas à sala de aula.

Roteiro para remontagem

Ao chegar ao futuro, as criações não apenas contribuem para a construção da história, como facilitam a rotina das companhias. De acordo com a diretora da Ekilíbrio Cia. de Dança, Christine Sílmor, um grupo que trabalhou em uma montagem coreográfica, com o passar dos anos, pode esquecer partes da obra. Para resolver essa questão e ativar a memória sinestésica, os bailarinos recorrem, principalmente, às filmagens, bastante acessíveis. A artista do corpo Letícia Nabuco comenta que todos os coletivos nos quais atuou utilizavam tal recurso, tanto para discutir sobre o projeto quanto para garantir sua adequada repetição.

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Entretanto, conforme pondera Sylvia Renhe, o vídeo sozinho não é capaz de arquivar todos os pensamentos e intenções. Por isso, ela defende a descrição textual do processo. Se eu souber, por exemplo, o motivo que me levou a passar a mão no cabelo, talvez consiga resgatar esse gesto. Myriam Mockdece acrescenta: pode-se, inclusive, substituir uma justificativa por outra, dependendo do momento da vida. De qualquer forma, como menciona Letícia, as gravações servem para preservar o esqueleto da criação e podem ser úteis em outros gêneros, como o teatro, ainda que ele conte com a dramaturgia.

As entrevistadas advertem que as filmagens não devem ser confundidas com a videodança, embora esta já surja resguardada. Como explica a pesquisadora Maíra Spanghero no site Wikidança.net, na linguagem da videodança, a câmera dança com o bailarino, enquanto ele se coloca no espaço e no tempo da câmera. Este jogo adaptativo permite o florescimento de novas práticas para a dança e a modificação do corpo.

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Símbolos e transformações

Diferentemente do balé, a dança contemporânea não envolve movimentos codificados. Ainda assim, existem métodos de escrita para esse caso, como o Labanotation, cunhado por Rudolf Laban no início do século XX, e o Motif, adaptação do Labanotation formulada por Irmgard Bartenieff. De acordo com Letícia, enquanto o primeiro pretende dar conta de tudo, o segundo, mais aberto, compreende essa impossibilidade. A artista, pós-graduada no Sistema Laban, reflete sobre a real necessidade dessas ferramentas. Qual o sentido disso se hoje há o vídeo? Sylvia Renhe sugere o desenvolvimento de códigos próprios, ajustados à realidade de cada companhia. Durante a feitura do espetáculo Kindskeajentenundança, a Inércia Zero, sob sua direção, lançou mão dessa possibilidade.

Mais que proteger a coreografia, as artistas consideram essencial o cuidado com a reverberação além da cena. Myriam Mockdece afirma ter em casa jornais e documentos que a ajudam a analisar os períodos históricos. Reportagens e discussões também são arquivadas por Letícia com atenção, principalmente quando tratam de suas iniciativas. Acho essenciais os debates sobre as transformações que proponho com meu trabalho.

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Momento único

E o que pensar acerca das performances, que nunca se repetem? Christine Sílmor, do departamento de ações pedagógicas da Secretaria de Educação, defende o registro e a preservação das obras abertas. Na última quinta, ela organizou uma intervenção urbana com alunos de seis escolas municipais em um trecho do Calçadão. Nosso objetivo foi despertar as pessoas para as diferentes maneiras de dançar. E tudo foi filmado.

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Na opinião de Letícia Nabuco, exatamente por se dar em momento único, as performances precisam ser registradas. No meu projeto ‘A sua violência, a minha violência’, posto os vídeos de todos os experimentos no site (asuaviolenciaaminhaviolencia.blogspot.com.br). Segundo Jeanne Vieira, professora do Instituto Metodista Granbery e da rede pública municipal, o artista, em todos os tempos, é sempre um propositor, e suas ideias não podem se desfazer como nuvens. Isso é o que a gente espera.

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