Ícone do site Tribuna de Minas

Para reerguer a realeza

PUBLICIDADE

Quando o príncipe William e Kate Middleton divulgaram oficialmente que iriam se casar, a capital da Inglaterra se tornou vitrine daquilo que muitos apontam como o "evento do século" no país. E o fenômeno ultrapassou os limites da ilha com a exploração do casamento pela imprensa mundial e, com o consentimentos do casal, nas mídias sociais. Segundo apontam especialistas, toda esta espetacularização é uma forma de resgatar a popularidade da monarquia inglesa, desgastada principalmente entre os jovens. Andar pelas ruas de Londres e não ter contato com o evento hoje é impossível, até em ambientes extremamente alternativos. No ciberespaço e nas ondas do rádio e da TV, eles são personagens de programas especiais 24 horas no ar, programas de entrevistas e sites de notícia. Blogs, Twitter, Facebook pulverizam informações de bastidores e da programação oficial minuto a minuto, e por meio de qualquer outra forma de transmitir informação que ainda não tenha sido citada, comenta-se ou já se comentou o bilionário casamento real.

Para o cientista político e professor da Faculdade de Comunicação da UFJF, Paulo Roberto Figueira Leal, a estratégia é pertinente ao momento de baixa popularidade da realeza. "A monarquia britânica precisa desses atos públicos de grande visibilidade, até porque periodicamente enfrenta uma resistência interna, comumente tratada como uma instituição que não tem qualquer outra função senão sugar recursos do estado". Paulo Roberto acredita que a crise de popularidade teve uma de suas raízes na morte de Diana e no fim do seu casamento com o Príncipe Charles. "Aconteceu em meados dos anos 90 um processo de profunda crise, em função do divórcio e das brigas entre o Príncipe Charles e Diana, e também pelas posições públicas da rainha contra a ex-mulher do filho. Neste momento, houve uma baixa na popularidade da instituição monárquica, que quase levou a possibilidade, pela primeira vez em séculos, de que posições republicanas tivessem chances reais de vencer." Segundo o cientista político, existe uma necessidade de garantir contato, sobretudo com os mais jovens, que costumam ser menos focados no que diz respeito à tradição. "Acredito que neste episódio (o casamento de William e Kate), o uso das redes sociais por parte da Coroa e do Estado britânico se insere em um contexto em que há instrumentos de diálogos com frações da sociedade que podem não ser tão defensoras das tradições monárquicas."

PUBLICIDADE

Reação na ruas

Londres enfrentou consecutivos protestos de rua em novembro passado, quando milhares de estudantes e funcionários públicos se uniram contra o aumento das taxas universitárias no país. O Governo conservador do primeiro-ministro David Cameron duplicou as anuidades com a justificativa de equilibrar as contas públicas, e a juventude inglesa confrontou as medidas governamentais com a ostentação da monarquia. "O casamento real, bem como a monarquia, para mim são indiferentes. Estou mais preocupado com as taxas anuais das universidades que absurdamente foram duplicadas", diz o músico londrino Lhasa Mercur, 21 anos. "Respeito e honro a família real, mas me sinto incomodado com tantas ostentações", critica Lhasa, que não vai ao casamento. O feriado concedido será, para ele e muitos outros, uma oportunidade para estar entre amigos e descansar. "O casamento e o feriado, na minha opinião, são razões para as pessoas estarem juntas e celebrarem", acredita o estudante Andrew Jewsbury, 22, que mora em Londres há dois anos. Sobre a grande cobertura, acrescenta que o espetáculo não lhe oferece nada de significante, "me sinto inibido em ligar a TV ou acessar a internet para ver cenas extravagantes. Eu, definitivamente, reprovo o sistema monárquico quando o assunto são os privilégios que recebem a família real sem ter de trabalhar pra tal".

Conforme Paulo Roberto, o espetáculo não é novidade quando o assunto é regime monárquico. "Isso já tem algum tempo. Se você observar no início dos anos 80, o casamento do (príncipe) Charles também teve o mesmo tipo de impacto, com a mesma intensidade. Talvez menos presente como informação no cotidiano das pessoas, porque havia menos mídia. Não há qualquer possibilidade de compreender o fascínio que este tipo de episódio oferece se não verificando essas reminiscências históricas das velhas narrativas, ainda muito presentes no cotidiano mental de tanta gente, mesmo que estas pessoas vivam em repúblicas sem qualquer conexão com a monarquia." Neste aspecto, a utilização das redes sociais é fundamental para qualquer tipo de Governo. "Não há nenhum candidato à Presidência da República do Brasil que se dê ao luxo de não ter um Twitter, mesmo que ele não seja de fato um usuário. É preciso desenvolver estratégias para esse nicho, porque este fala muito intensamente e muito diretamente para públicos que não são tão facilmente capturáveis pelas mídias tradicionais ou pela propaganda televisiva. Acho que, hoje em dia, este é um caminho sem volta, que envolve riscos, é claro, mas que é inescapável para qualquer um que precise de construir uma imagem com grande penetração pública."

 

PUBLICIDADE

Movimento periférico

O movimento real para a cerimônia envolveu até quem está distante ou não queria participar. Bares, restaurantes, pubs, boates e afins desenvolveram uma programação paralela à divulgada pela Coroa. Há quem vibre com o assunto, como uma típica garota inglesa, com seus 20 e poucos anos – que não quis revelar sua idade. Claire Harmer está para se mudar de Londres e vai se despedir comemorando as bodas. "Minha última semana aqui será inevitavelmente marcada pelo casamento real". Isso porque, nesta sexta-feira, qualquer um dos tradicionais pubs londrinos e, até mesmo, casas noturnas da cidade têm o evento como tema. A bandeira do Reino Unido com a foto do casal ao centro está em todos os cartazes de festas. Quando perguntada se irá prestigiar a união, Claire diz que não. "Acho incrível que estejam se casando, mas não são meus amigos. Como cidadã britânica, assistirei pela televisão o acontecimento e, com certeza, terei acesso a muito detalhes sem perder o conforto. Caso decidisse enfrentar a multidão, que se concentra cada vez mais em torno da Abadia de Westminster, com certeza não me divertiria. Mas não nego que realmente adoro acompanhar fatos como esses: eventos positivos que fortalecem a história do meu povo me fazendo sentir orgulho de ser britânica".

 

PUBLICIDADE

‘Princesa’ do povo

Basta uma celebridade aparecer pelas redes sociais e se destacar que logo algum perfil falso, o famoso fake, é criado para tirar proveito. Alguns se utilizam de tanta malícia que são retirados do ar ou até mesmo acabam nos tribunais. Outros porém, com muito bom humor, caem nas graças do povo e conseguem, inclusive, a admiração de seus "originais". É quase o caso do Twitter @Princesa_Kate, perfil que faz uma brincadeira com a noiva. No fake, ela mora em Saquarema e frita coxinhas para a recepção dos convidados. Com cinco mil seguidores, ele foi idealizado por uma internauta de 29 anos que trabalha com comunicação digital e preferiu não se identificar "pra não perder a magia". "Eu resolvi fazer o perfil do nada, durante o feriado, vendo as reportagens que a TV exibiu sobre o assunto. Achei engraçado o brasileiro se mobilizar por um casamento que não vai afetar em nada a sua vida e decidi que ia tirar um sarro disso. Como a princesa é a estrela desse casamento, criei um perfil que avacalha o luxo e requinte de realeza. A princesa Kate vende produto de catálogo, adora cozinhar pro marido e lambe tampa do iogurte. É um exagero de plebeia", explica sua criadora sobre a origem do personagem. "Essa é a graça da @Princesa_Kate, o povo se identifica com as pobrezas dela. Todo mundo tem alguém na família que curte umas economias domésticas porcas como as dela", brinca.

Ela conta que a brincadeira ficou séria depois de seis horas que o perfil estava no ar e já haviam mil seguidores. "Eu não esperava esse sucesso todo. Criei o perfil na última segunda e, em menos de seis horas, eu já estava com mil seguidores e milhares de replies. Eu nem consigo ler a timeline senão não dou atenção aos meus súditos que mandam dicas nas menções". Ao fim da entrevista, a "criatura" falou mais alto e disparou qual o melhor de ser princesa: "A melhor coisa é o carinho que a gente recebe do povo. Você sabia que água de arroz faz bem pra pele? Vou testar antes do casamento. E quanto a morar em Saquarema, é temporário. Só enquanto nosso ‘apê’ não fica pronto". 

Sair da versão mobile