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Biografia de Geraldo Santana é lançada hoje

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As mais de 400 canções – cujas letras foram catalogadas a partir de folhas soltas, escritas à mão – estavam todas na memória. Nenhuma partitura ou esboço cifrado registrava a melodia das composições de Geraldo Santana. "Ele sabia boa parte das músicas – para não dizer todas – de cor", conta o biógrafo Wanderley Luiz de Oliveira, que estima que as composições de Geraldo possam chegar a mil. "As melodias morreram com ele", lamenta o escritor, também presidente da Associação de Cultura Luso-Brasileira e vice-presidente da Academia de Letras da Manchester Mineira. Após três anos de trabalho de apuração e convivência diária com o músico, Wanderley lança hoje, no Museu do Crédito Real, o livro "Geraldo Santana – Sonho, música e realidade" (200 páginas), com apoio da Lei Murilo Mendes. A vida do sambista, compositor e intérprete marcante e polêmico é resumida, já nas primeiras linhas da introdução da biografia, como "uma história de simplicidade, de samba e busca pelo reconhecimento".

Geraldo sempre dizia "viver na música, mas não da música". A despeito das dificuldades, conforme explica o biógrafo ao mencionar que o compositor jamais chegou "sequer a flertar com a independência financeira", os comentários de críticos e colegas do meio artístico sempre exaltaram o talento intuitivo, a inspiração e a produtividade de Geraldo Santana. No prefácio da obra, pesquisadores, críticos e músicos, como Ricardo Cravo Albin – que já havia colocado o músico como verbete no consultado "Dicionário Cravo Albin da MPB" – Nelson Bravo, Saint’Clair L. Nascimento, Domingos Lima Souza, Paulo Roberto dos Santos, Waldir Silva e Altamiro Carrilho reverenciam a história de luta e talento do compositor. A partir do levantamento biográfico de Geraldo, Cravo Albin diz vislumbrar um "clarão de resistência" diante das "pesadas e injustíssimas brumas do esquecimento".

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Participante ativo de todas as etapas da produção da biografia, Geraldo Santana não chegou a ver o livro publicado. No posfácio, "Adeus a um bamba", Wanderley se diz surpreso com o falecimento do compositor de 81 anos, em 19 de outubro do último ano. "Ele, como sempre, acordou cedo, cantou, ensaiou uma nova composição… e de repente sentiu-se mal, vítima de um infarto." Apenas no desfecho da obra, que também conta com texto assinado por Leila Barbosa e Marisa Timponi, é mencionada a morte do músico. "Deixamos desta forma de propósito. É como se ele ainda estivesse vivo, e, em parte, está", coloca Wanderley.

 

 

60 anos de MPB

Rascunhos do próprio sambista, fotografias familiares, recortes de jornal, apresentações e entrevistas gravadas em fita cassete serviram de base para as pesquisas do biógrafo. As anotações de um livro idealizado por Geraldo Santana – mas que nunca foi lançado – bem como os depoimentos de poucos amigos próximos e do próprio músico foram as únicas fontes usadas para contar a história do sambista, desde a infância até a maturidade. "Foi um desafio compilar este material pela dificuldade de confirmar todos os relatos", diz Wanderley. Franco, o próprio compositor se comparava ao ídolo Jamelão – com o qual chegou a se apresentar e ensaiar certas composições -, assumindo ser "respeitado, mas não adorado". "Ele era de fato polêmico. Mas essa excentricidade e exigência se justificam, pois era um gênio. Ele tinha uma orquestra na cabeça."

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Nascido em Coronel Pacheco, Geraldo viveu em Juiz de Fora desde menino, iniciando-se cedo no cenário musical. Fez shows, bailes, apresentou-se em clubes e programas de rádio, participou de diversos programas de calouros e festivais de música. "E ele ganhava todos", brinca Wanderley. Além de ser autor de centenas de músicas, tocou e gravou com artistas de sucesso como Jackson do Pandeiro, Cartola, Altamiro Carrilho, Cida Morena e Elza Soares. Apegado à família e contrariando o conselho do pai – que dizia ser o Rio o lugar dos artistas -, Geraldo jamais deixou Juiz de Fora, embora tenha participado das rodas de bambas cariocas. "No fundo, lá no Rio ele se achava um ‘estranho no ninho’."

 

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Carnaval e futebol

O carnaval e o futebol foram paixões presentes em todos os momentos da vida de Geraldo Santana. "Há quem diga que ele participou, de alguma forma, de todos os blocos e escolas de samba da cidade", relata o biógrafo. Além dos sambas-enredo, os hinos de times de futebol, que exaltavam desde os times locais, Tupi, Sport e Tupinambás, aos cariocas Flamengo, time de coração, e Botafogo, para o qual produziu mais hinos, como o "Avante Botafogo", ocupam lugar de destaque nas composições de Geraldo.

Comprometido em resgatar a obra completa do compositor, Wanderley Oliveira trabalha na compilação não só das letras, mas das melodias das composições. "Na biografia, faço um apelo a quem souber ou tiver registro em áudio ou vídeo das músicas compostas por Geraldo, para que compartilhe esse material." Discografia, músicas e letras recuperadas ficarão à disposição dos pesquisadores na Biblioteca Municipal Murilo Mendes e na Divisão de Memória da Funalfa.

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Outro projeto de resgate do biógrafo é a tentativa de relançar o CD autoral "Batuque de negro", produzido por Márcio Gomes, com o apoio da Lei Murilo Mendes, em 2001. "Foram feitos poucos exemplares, apenas 500. E Geraldo teve, de fato, posse de apenas 150 deles." Entre as canções do CD, figura uma das preferidas de Geraldo, "Menino, Natal e carnaval". "Ela amava carnaval, mas, em função da infância pobre, o Natal era uma época triste para ele. Dezembro era um mês triste, pois foi no dia 16 de dezembro, com a diferença de cinco anos, que ele perdeu os pais." Coincidência ou não, o biógrafo Wanderley Oliveira comemora o aniversário na mesma data.

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