A palavra pode ser diferente: serendipidade. Trata-se de um fenômeno amplo e multifacetado, do qual o sinônimo mais imediato poderia ser “feliz acidente” ou então “descoberta fortuita e não planejada”. O termo surgiu pela primeira vez no século 18, com o escritor inglês Horace Walpole, em uma carta. Nela, ele narra um conto persa sobre as descobertas maravilhosas de três príncipes viajantes. O caos do cotidiano prega: se você tem um objetivo, dizem, trabalhe e pense nele 24 horas por dia. A serendipidade demanda exatamente o contrário, “cuide do seu interesse com leveza.”
Com a pandemia do coronavírus, diversas pessoas tiveram de se dobrar em busca de um passatempo novo para aquietar a mente e escapar desse momento de incertezas. A reportagem da Tribuna conversou com quatro pessoas que encararam o desafio de aprender algo novo, de início sem pretensões, mas que se tornou um exercício fundamental para encarar o isolamento.
releituras de obras de arte célebres (Foto: Fernanda Proba/Divulgação)
Começou como um simples hobbie
A estudante de direito Lívia Tambasco, 24 anos, teve seu primeiro contato com o bordado em 2018, através de um workshop que durou apenas um dia. “Foi uma coisa bem despretensiosa, aprendi aqueles pontos básicos só para testar algo novo”, ela conta. Mas tudo mudou com a chegada da pandemia. Lívia lembra que logo no início a faculdade as aulas pararam e ela ficou perdida. “Resolvi pegar aqueles materiais e tentar bordar pela segunda vez.” A jovem lembra que na época passava a maior parte de seus dias bordando. “Foi ótimo! Eu até postava algumas vezes no meu Instagram pessoal quando finalizava o bordado, e meus amigos adoravam.”
Lívia começou a se aventurar nos bordados como uma maneira para ocupar a mente e lidar de uma maneira mais leve com a ansiedade. Mas logo com suas postagens vieram pessoas querendo encomendar os artesanatos. “Muita gente falava para eu vender. Então, em junho, resolvi abrir uma agenda de encomendas.” Surpresa com a demanda que foi gerada, a estudante de direito resolveu criar um Instagram específico para seus bordados, o @Lívia.bordou. Ela conta que esse processo aconteceu rápido, e sua agenda foi lotada em menos de um mês.
O Instagram também acabou se tornando uma ferramenta amiga. “Como postava diariamente lá, comecei a criar um vínculo maior com as pessoas. Isso foi um divisor de águas na minha quarentena.” Lívia compartilha que sua troca com os seguidores, a evolução de seus bordados e também o contato com outras pessoas fez com que ela se sentisse útil, mesmo nesse período em que as coisas estavam paradas.
Atualmente ela prefere reproduzir em seus bordados pinturas de artistas famosos. “Sempre fui apaixonada por arte em geral, então bordar me aproximou desse interesse.” Desde junho, quando começou seu Instagram, até dezembro, ela fez mais de 80 bordados. “Começou como um hobbie, uma terapia, mas depois acabou virando uma fonte de renda extra, de realização. E até uma rede nova de amizades e histórias.” Mesmo com as aulas e outras demandas que voltaram, ela diz que não pretende parar de bordar. “Faz com que eu me sinta realizada. De verdade, não consigo imaginar como teria sido todo esse tempo sem o bordado.”
Com a cara e a coragem mesmo
Juliana Guimarães, 31 anos, diz que sempre teve interesse pela automaquiagem, mas nada aprofundado ou profissional. Seu primeiro contato com o mundo das makes profissionais foi em 2019, quando foi a São Paulo para o evento Horror Expo, uma feira internacional do gênero horror. “Fiquei fascinada! Acredito que foi ali que nasceu meu amor pela maquiagem artística. Mas com a vida corrida que temos, acabei deixando de lado.”
Para Juliana, tudo mudou quando começou a pandemia. Com o isolamento somado ao momento delicado de uma pandemia global, Juliana se encontrava em uma rotina muito estressante e maçante. E assim resolveu começar a se arriscar na maquiagem. Seu processo inicial se baseou em escolher o que queria pintar e comprar pela internet alguns itens específicos para testar. “Foi aquela coisa bem ‘vamos ver no que dá'”, ela brinca.
E essa aventura não foi fácil, tudo aconteceu na base da tentativa de acerto e erro. Ela relembra com carinho de quando finalizou pela primeira vez, com muita satisfação, seu trabalho, a caveira colorida. “Quando me olhei no espelho, veio um amontoado de alegria. Pronto. Aquilo ali passou a ser minha válvula de escape.” Animada com seus resultados, Juliana decidiu começar a postar as maquiagens em seu Instagram @jumrguimaraes. E diz que surpreendeu muito o tamanhão da repercussão que teve. “A partir disso eu quis me aperfeiçoar, aprender novas técnicas e conhecer produtos. Precisava também de um curso.” E se inscreveu em um curso on-line. As aulas proporcionaram o aprendizado de novas técnicas.
aprendizado de maquiagens artísticas
Sobre os planos para o futuro, Juliana afirma que ainda está no início dessa aventura, mas que também sente satisfação com sua evolução. Ela ainda diz que, quando a pandemia enfim acabar, e todos puderem iniciar o novo-novo normal, a maquiagem artística sem dúvidas continuará sendo parte de sua vida. “Porque muito mais do que um hobbie, descobri um dom, uma identidade e uma paixão.”
Tudo on-line, minas
A professora de educação física Andrea Mello, 44 anos, trabalha com abordagens como pilates e reeducação postural. “Nada a ver com o cavaquinho, né?”, ela brinca. “Tudo começou quando perguntei para Roger Resende (sambista e compositor) se ele aceitaria dar aula para um grupo de amigas.” O músico topou e, em seguida, Andrea fez um post no Instagram convidando quem quisesse participar. E assim algumas pessoas entraram em contato com ela, mulheres que estavam cheias de vontade de aprender.
O grupo chegou a ter alguns encontros em novembro de 2019, mas as aulas precisaram parar. “Mesmo que a gente tenha dado início em novembro, foi apenas nessa loucura (a pandemia) que meu estudo aconteceu.” Andrea lembra que, em março, com todo mundo dentro de casa, voltar às aulas foi estranho.
“Uma coisa é você estar presente com os amigos e o professor, tocando juntos. Agora, você, seu celular e o instrumento, é muito diferente.” Assim, ela e outras três amigas que também participavam das aulas passaram a buscar algum incentivo para enfrentar essa desmotivação. “Começamos a desenvolver coisas através do nosso grupo de WhatsApp, como abordagens para a gente se motivar. Foi nesse contexto que surgiu o Cavaco das Minas”, coletivo de mulheres que tocam e promovem encontros musicais. Tudo, por enquanto, on-line.
A professora conta que o perfil @cavacodasminas no Instagram foi um divisor de águas. “O início do aprendizado de algo novo é sempre muito difícil, principalmente quando você já é adulta e tem na cabeça muita coisa para resolver”, ela ri. O grupo acabou virando uma corrente de trocas e incentivo, “uma via de mão dupla mesmo.” Daí para frente ela foi se aperfeiçoando ainda mais. “O cavaco está sendo um parceiro fundamental nesse momento de isolamento social. Uma terapia, porque várias vezes, quando vou ler alguma notícia, ou assistir um jornal, fico meio baqueada. Aí eu pego meu cavaco e vou diluir essa tensão, ele tem sido um grande companheiro.”
Exigência e urgência de expressão
Escrever é guardar, é uma maneira de fazer com que algo dure. Em seu poema “Guardar” o artista, Antônio Cicero expressa a necessidade de fazer com que algo permaneça. “Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema: para guardá-lo”, escreveu o poeta. Para o estudante de medicina Leonardo Nasser, 20 anos, a escrita teve um papel terapêutico fundamental na sua vivência de pandemia.
A pandemia produziu coisas que Leonardo e grande parte das pessoas nunca tinham vivido. Nesse contexto de inquietações consigo mesmo e também com o mundo, o estudante buscou na poesia uma maneira de se expressar. Antes da pandemia, ele lembra que escrevia “muito pouco ou quase nada” e não dava importância ao que fazia parte de seu cotidiano. “Com o isolamento social, escrever foi algo urgente. Uma necessidade de gritar um pouco, através das palavras.”
Com todo esse contexto de isolamento e também com a ajuda da escrita, Leonardo admite que passou a prestar mais atenção em si mesmo. “Principalmente porque acho que, quando escrevo sobre o mundo, inconscientemente sei que não estou falando do mundo em si, mas de como o mundo se reflete dentro de mim, sabe?” O seu apreço pela poesia vem justamente da objetividade do estilo.
O estudante lembra de um texto “de um cara que chama Carlos Augusto Lima”. “Estou parafraseando: ‘tudo isso é a vida que eclode espúria e eterna’. Foi isso que virou a chave na minha vida.” Ele se refere às situações comuns da vida que estão acontecendo na nossa frente, mas que na correria do dia a dia, não prestamos tanta atenção nas coisas em volta. “Hoje eu consigo processar coisas que estavam na minha frente e eu ignorava, mas que, com essa vivência da pandemia, se tornaram únicas.”

