
Em 1983, Abrãao atravessou o Atlântico e se encantou pelo Brasil
Terminada a entrevista, o fotógrafo Leonardo Costa segue com Abraão Vito Dantas Pereira, 57 anos, até o parapeito do mirante do Morro do Imperador e pede que ele abra os braços para um registro. Sorrindo para a câmera, o fotografado diz: “Oh! O Abraão é o dono do morro!”. Dono por afeto, por escolha, por identificação. Dono por encantamento, por admiração, por olhar para baixo e ver a cidade que o acolheu. Prestes a transpor o tempo em que viveu em sua terra natal, sente-se um verdadeiro brasileiro. “Sou da Guiné-Bissau, na África Ocidental, uma ex-colônia portuguesa. Cheguei aqui em maio de 1988. Quando vim, mudei tudo. Agora sou de Monte Verde”, ri o permissionário da lanchonete e da loja de artesanato do ponto turístico da cidade.
Em 1983, Abraão aceitou o convite do irmão, que estudava em São Paulo, e atravessou o Atlântico. Ficou pouco mais de dois anos na capital paulista até voltar à Guiné para encontrar a esposa, que regressava de Portugal. Após conversar com a embaixada brasileira, conseguiu viabilizar a vinda da mulher, Joana, através de um convênio cultural para estudar serviço social na UFJF. Começariam tudo, outra vez. Determinado, ele se empregou na antiga TV Tiradentes e foi ser operador de transmissão numa sala próxima à antena, no Morro do Imperador, numa jornada de 12h em serviço e 36h de folga. Nas horas vagas, operava áudio e vídeo no estúdio da TV, inscreveu-se num curso de eletrônica e conseguiu ser aprovado para Engenharia Elétrica na UFJF, mas, faltando menos dois anos, trancou o curso.
Avante!
Para trás, onde acenou o tchau, Abraão deixou as poucas perspectivas de um país e sua recente independência. “A vida lá era difícil porque, quando era colônia não tinha nada praticamente. Haviam as estradas que ligavam os quartéis às casas dos militares e o aeroporto era um entreposto. A vida era dos portugueses, que tinham cargos bons, e nós só servíamos para cumprir obrigações para eles. Só havia estudo até o segundo grau”, recorda-se. Acenou o adeus para os irmãos, que também partiram e para os pais, que não mais viu. “Minha mãe faleceu na Guiné e meu pai foi morar com meus irmãos em Portugal e depois faleceu também. Ele foi preso político na época da colônia, sofreu muito, ficou sete anos preso numa ilha e, quando saiu, ficou doente”, conta. Tem vontade de voltar à África?, pergunto. “Prefiro conhecer outros lugares no Brasil”, ri.
Presente!
Para os três filhos – a geóloga Aireslene Marinarda, a administradora de empresas Nercyneila e o estudante de ciências da computação Osmir -, Abraão reservou a origem que queria para si. “Gosto muito do Brasil. Isso aqui é um paraíso. Aqui, no primeiro dia que cheguei, parecia que já era brasileiro. As pessoas chegavam, conversavam, convidavam para sair, para comer. Coisas que em outro lugar não acontece. Em Portugal, por exemplo, você só conversa com quem já é seu conhecido. Seu vizinho nem olha para sua cara. Aqui, não, ele te vê e fala: ‘Opa, amigão! Beleza?! Tranquilo?! Vamos tomar uma cervejinha?!'”, diz, mostrando que é preciso algum distanciamento para enxergar com clareza. E não só de pessoas fez-se o encantamento de Abraão. O homem que começou sua lanchonete numa caixa de isopor fala de uma terra de oportunidades, onde é possível, mesmo que com dificuldades, romper com as previsões. “Quem tem disposição, consegue vencer.”
Atento!
Para a vida, um novo desafio que lhe permitisse ter um pouco mais. Num dia comum de trabalho na extinta TV Tiradentes, um colega de Abraão lhe disse de uma excursão de crianças ao Morro do Imperador. “Ele me contou que teve um ônibus e não tinha nada para as crianças, nem água, porque o trailer estava fechado. No outro dia, minha esposa, que ouviu a história, falou: que tal levar umas coisa para vender no Cristo? Fomos ao Centro da cidade, compramos uma caixa de isopor, água, refrigerante e gelo. Viemos numa sexta-feira e vendemos umas dez garrafas de água. Voltamos no sábado e foi uma correria, em meia hora acabou tudo. Compramos mais e voltamos no domingo”, lembra. Em pouco tempo, ele trocaria o isopor pelo trailer, hoje reformado e mais espaçoso, fora a loja de artesanato, também sob sua gestão. O restaurante, também guiou, até 2014. Durante nossa conversa, poucas pessoas. E o movimento, Abraão? “Durante a semana, em período letivo, costuma ser devagar. As pessoas vêm depois das 18h, mas aos finais de semana o movimento é melhor. Nas férias é bem grande”, afirma. Como uma formiguinha, se prepara no verão para os invernos de um morro de cerração baixa. “É preciso ter variedade e muita criatividade para se manter, tanto no período de muito movimento, quanto no inverno, quando as pessoas somem”, diz ele, que conhece todas as antenas e se acostumou com os quatis que passeiam pelo lugar. Incontestável: “Oh! O Abraão é o dono do morro!”

