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Com filme preto e branco, Miguel Falabella constrói ‘Querido mundo’ entre destroços

miguel falabella mostra de cinema de tiradentes

(Foto: Universo Produção/ Divulgação)

miguel falabella mostra de cinema de tiradentes
(Foto: Universo Produção/ Divulgação)
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O filme “Querido mundo” foi exibido em Tiradentes neste sábado (24), no cine-praça, para uma plateia cheia e bastante emocionada. A obra é dirigida por Miguel Falabella e Hsu Chien e adaptada de uma peça teatral escrita pelo ator e Maria Carmem Barbosa nos anos 1990, quando ele leu uma notícia sobre uma mulher que tinha ficado presa em casa, na noite de Ano Novo, depois do butijão de gás ter explodido. A trama é centrada em Elsa, interpretada por Malu Galli, uma mulher que vive em um relacionamento abusivo, e Oswaldo, interpretado por Eduardo Moscovis, um homem que acaba de se divorciar e está vivendo uma crise na carreira, quando eles se encontram às vésperas do Ano Novo nos escombros de um prédio abandonado pelos seus construtores. É a partir desses destroços que o filme se constitui e cria uma história de amor entre os dois, filmada em preto e branco. Além de divulgar o filme, o ator, roteirista e diretor também revelou novos planos para a carreira e o que mais o tem inspirado a criar em 2026.

A ideia de transformar a peça em um filme veio da vontade de Miguel Falabella em falar, mais uma vez, da capacidade dos indivíduos de se reconstruírem. “O ser humano tem essa capacidade, graças a Deus, de se construir mesmo a partir do escombro, literalmente dos escombros. E a história da humanidade vem provando isso.” A proposta era jogar luz para os momentos em que isso acontece, dessa vez de uma maneira diferente de como aconteceu no teatro, quando a peça já começava com a explosão que acontece dentro do apartamento. No cinema, é possível conhecer mais sobre a trajetória dos personagens até chegarem neste momento. “Eu queria fazer uma caixinha de música. É uma peça de atores, é um filme de atores, né? É um filme para malucos e para o Du, para atores. E para falar de indivíduos. Eu gosto de gente. Tudo que eu escrevi na minha vida, eu escrevi olhando para gente”, explica ele.

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Desde o começo do processo criativo, Miguel conta que imaginava o filme em preto e branco. “Acho que a vida daquelas pessoas não tem cor”, justifica. Mas isso foi um grande desafio para a produção, até porque não é fácil encontrar público para uma obra com essa característica no momento atual. Mas esse foi um risco que ele quis bancar neste momento da carreira, e que Hsu Chien destacou. “Tentaram de toda forma mudar essa ideia, mas ele não largou pé”, conta o diretor, que disse que nunca tinha imaginado que Miguel Falabella era ainda mais cinéfilo que ele. Os dois conversaram juntos sobre os planos que fariam e se inspiraram em outras produções a partir dessa escolha. É o que também conta o produtor Júlio Uchoa. “Quando se decide fotografar em preto e branco, isso interfere no trabalho de todo mundo, do figurinista ao maquiador, porque é preciso usar cores que funcionem pra um filme preto e branco. Nosso Ano Novo, por exemplo, é todo amarelo, azul, vermelho.” Eles também se recordam que houve resistência a mostrar agressão sofrida pela personagem feminina. “A gente abre o jornal e todo dia tem mulher morta, mulher espancada, mulher abusada. Não podemos mostrar isso?”, questiona.

Todo esse processo, como explica Miguel Falabella, foi também um momento dele experimentar, de ir aprendendo e descobrindo caminhos. “Eu queria falar de recomeços, foi um momento de vida meu, de sair da televisão e de ter que se reinventar em um momento da vida que as pessoas não sabem pra onde ir. (…) Achei que aqueles personagens tinham a ver com isso”, relembra, citando a demissão da Globo durante a pandemia de Covid-19. Partir do ponto de vista pessoal para narrar algo coletivo é algo em que ele sempre acreditou, e que continua acreditando. Não é a primeira vez que reconhece que precisou se reinventar: “Eu fui inventando um caminho pra mim. (…) Se ninguém abria as portas, eu tinha que fazer isso”, diz.

(Foto: Universo Produção/ Divulgação)

Gente, sempre algum fascínio

No meio de peças de teatro, do teatro musical, filmes e ainda participação em novelas (a mais recente foi em “Três graças”, em que faz casal com o personagem de Samuel Assis), ele revela o que o inspira a continuar criando: “Gente, porque gente surpreende sempre, para o bem e para o mal. Mas gente é sempre fascinante, se você olha pelo ângulo certo. Gente tem sempre algum fascínio, alguma história para contar”, destaca. Esse aspecto, que foi também o que o levou para “Querido mundo”, é o que acredita ter de mais importante em uma obra de arte. “Isso é até um texto da Rosa Monteiro que eu acho lindo, que é uma escritora espanhola que ele adora. Ela diz que está dentro do carro, indo para uma premiação, e ela vê uma mulher passando na rua. E ela diz: ‘Subitamente, uma Rosa Monteiro vai para premiação e outra Rosa desce do carro e vai atrás dessa mulher’. E começa a contar a história dessa mulher”.

Miguel Falabella acredita que é também por isso que acredita na importância da troca entre veteranos e novos atores. Ele se orgulha de já ter aberto muitas portas, e conta inclusive que foi ele que deu o primeiro papel de galã para Wagner Moura, indicado ao Oscar de 2026. “A Globo não queria ele, não achava que ele tinha um padrãozinho de galã. Mas ele fez um teste e eu quis ele”, relembra, contando que na época adorava escrever cenas para o ator, que contracenava com Adriana Esteves em cenas memoráveis de “A lua me disse”.

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Projetos futuros

Entre os projetos futuros de Falabella, está o filme “As más influências”, que será de comédia. Ele espera trazer mais uma vez essa mistura de gerações que tem tanto gosto, e não se amedronta em fazer humor em 2026. “Vão fazer o que, me cancelar? Olha bem para minha cara, se eu vou ser cancelado nesta altura da vida”, diz. Também por isso se alegra com a comédia: “O tempo, você apura no palco. É lá que o público te dá a resposta. Para mim, comédia é respiração. Comédia é ritmo”. Quando questionado, também contou que o projeto da continuação de “Toma lá dá cá” ainda existe, mas está engavetado, pois os personagens pertencem à Globo.

Do que ele mais gosta, ainda, é da troca que essas obras permitem. “Eu quero ser feliz no meu trabalho e deixar as pessoas felizes em volta. Outro dia, dei uma entrevista e me perguntaram se eu acho que tenho reconhecimento. E eu falei: ‘Meu amor, encho teatro há cinco décadas. Tenho todo o reconhecimento que eu quero ter, o público está lá a vida inteira'”, diz.

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*A repórter viajou a convite da Mostra

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