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Angélica Freitas aborda poesia e política em encontro na UFJF

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A poeta Angélica Freitas participa da Jornada Literária da Faculdade de Letras da UFJF, onde discute relações entre literatura e política (Foto: Reprodução redes sociais)
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Em “Canções de atormentar”, a poeta gaúcha Angélica Freitas questiona se “é inventado ou verdadeiro que a sereia cantou para o marinheiro”. Imersa nessa imagem, ela reflete que, já que não é possível viajar dentro das embarcações, seria melhor tornar-se sereia, caminhar com os pés na areia e seguir adiante. Não cantaria para tentar seduzir marinheiros, “no máximo um espirro, no máximo um bocejo”, escreve.

Para falar sobre a relação entre literatura e política, tão presentes em sua poesia, Angélica Freitas participa da décima terceira Jornada Literária da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que dedica-se, nesta edição, à memória e à criação de mundos possíveis através de expressões literárias. Para o encontro, marcado para a próxima quarta-feira (3), a poeta compartilha a mesa “Literatura e política: representações, discursos e poder” com a professora de literaturas africanas da Unicamp Elena Brugioni e a professora de comunicação e memória da UFJF Christina Musse.

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“Na época em que escrevi, as sereias eram os poetas e as canções de atormentar eram os poemas. Essas poetas escrevem e incomodam alguns marinheiros muito experientes”, afirma Angélica, ao comentar as figuras que compõem o universo poético do livro publicado pela Companhia das Letras em 2020.

Antes do título mais recente, a autora lançou “Rilke shake” (2007) e “Um útero é do tamanho de um punho” (2012). “Canções de atormentar” retomou um processo semelhante ao do primeiro livro, reunindo poemas escritos ao longo de vários anos. Sua poesia combina ironia, jogos com referências pop e literárias e reflexões sobre a experiência de ser mulher e escritora.

“Bom, o que a literatura e a poesia podem mover? Isso vai depender de que haja pessoas lendo literatura”, observa a poeta. Para ela, essas formas de expressão podem estimular debates e novos pensamentos, embora não considere que a arte deva cumprir funções determinadas. “Quem escreve tem que ser livre para fazer o seu trabalho da maneira como achar que deve ser feito.”

No início deste ano, Angélica publicou “Mostra monstra”, pelo Círculo de Poemas e pela editora Fósforo. O processo de criação diferiu dos anteriores: começou com esboços feitos em pequenos cadernos. Daqueles traços no papel, “puxou poemas”, escrevendo não sobre os desenhos, mas a partir deles. “Como sou uma pessoa que trabalha bastante a partir de obsessões, fiquei meio obcecada com essa ideia de um desenho bem livre, que eu, às vezes, fazia sem óculos. Depois eu colocava de novo, pois sou bem míope, para ver o que tinha acontecido na página, então, me surpreendia e escrevia poemas.” Buscar essas surpresas resultou em vinte cadernos preenchidos. A autora considera o livro “apenas uma amostra” de um projeto maior, reunindo desenhos que remetem a monstros ou criaturas fantásticas.

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‘Para escrever poesia, você precisa de rua’

A poeta recorda que escreve desde os nove anos, quando ganhou de uma tia uma enciclopédia cujo primeiro volume era inteiramente dedicado à poesia. “O mundo da criança” era o título daquela coleção. “Gostei tanto de ler aqueles poemas que, para mim, a reação mais natural foi começar a escrever os meus próprios, meus primeiros versos. Nesse livro, tinham poemas do Edward Lear, um poeta inglês que escrevia versos nonsense. Acho que, por isso, associei a poesia ao humor, enfim, a um jogo de palavras.”

O desejo de continuar escrevendo a levou ao curso de jornalismo. Depois da graduação, trabalhou por quatro anos como repórter do Estadão, em São Paulo. Iniciou na editoria de cartas dos leitores, passou pelo caderno de bairro e, em seguida, pelo de política, até chegar à cobertura de cidades, que exigia rotina de rua para encontrar pautas. Ela conta que gostaria de ter atuado na área de cultura, escrevendo resenhas de livros, discos e shows, mas não havia vaga disponível naquele momento. “Como pessoa que escreve poesia, foi mais interessante ficar no Caderno de Cidades, porque na rua você está observando o mundo, uma parte muito grande da escrita poética. Para mim, para escrever poesia, você precisa de rua, sair do seu lugar, da sua casa, e observar o mundo.”

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A experiência no jornalismo diário também transformou sua relação com a escrita, que passou a compreender como prática contínua. “Não importa se você quer escrever poesia, prosa ou crônica, o jornalismo te ajuda dando essa noção de que precisa praticar, de preferência, todos os dias.” Talvez, em um dia como estes, de olho na rua, ela tenha voltado para casa e escrito sobre “caminhar assim na rua tão solta/ com a cabeça cheia de zorrilhos/ sentir a chuva no encalço/ os pulmões cheios/ querendo somente uma experiência esplêndida/ voltar com ela pra casa/ escrever um poema”.

Criações e leituras andam juntas

As criações de Angélica Freitas percorrem diferentes linguagens. Da escrita jornalística à poesia e ao desenho, sua produção também dialoga com sons, voz, língua e música. A poeta participou do processo de composição de “Mulher limpa” e “Mulher depressa”, canções do álbum Folhuda (2019), da cantora e instrumentista mineira Juliana Perdigão. “Escrevi alguns poemas pensando no canto e no arranjo musical, mas acho que ainda não foram musicados. Sou bem ligada em música e tendo a escrever poemas que podem ser musicados. A poesia e a música andam juntas desde os primórdios”, afirma.

Além da escrita poética, Angélica também trabalha com tradução, atividade que considera desafiadora. “Você tem que recriar o livro, reescrever na sua língua. Fazer o que o escritor ou a escritora fez na língua original, na língua em que você escreve. E isso implica fazer escolhas o tempo inteiro.” Entre suas traduções, estão “Os diários de Virginia Woolf”, da própria autora, “A consulta”, da alemã Katharina Volckmer, e poemas infantis da obra “Bichos malvados”, do britânico Roald Dahl.

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A literatura infantil, que marcou o início de sua relação com os livros e poesia, é um dos seus sonhos ainda não materializados. “Sinto que estou me preparando para isso há alguns anos, e sei que em algum momento vou pegar um caderno e começar a escrever esse livro”, diz.

Sobre seus hábitos de leitura, Angélica se descreve como uma leitora “nada fiel”. “Olho para a minha estante, se tem um livro que me chama a atenção, pego e começo a ler. Eu não necessariamente termino os livros. O que é interessante, para mim, é essa polinização cruzada. Eu abro um livro de poesia, leio, depois abro outro livro. E muitas vezes, se a gente presta atenção, tem coisas ali, tem coincidências que ocorrem.” No momento, alterna leituras entre o texto hindu “Bhagavad Gita”, a trilogia obscena de Hilda Hilst e um livro do poeta persa Rumi. “Meu plano é ficar aqui, sentada na minha poltrona, lendo esses livros que acumulei nesses 52 anos de vida.”

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