Se como dizia Oscar Wilde, "O Estado precisa fazer coisas úteis, para que a sociedade possa fazer coisas belas", o Plano Nacional de Cultura, sancionado em dezembro de 2010, pode ir além de um mero desenvolvimento do setor. Para os músicos da cidade, acima de qualquer discurso do "fazer" está a polêmica discussão sobre como escoar a produção. Este é um dos temas que a classe pretende tratar durante o segundo encontro do projeto "Dois pra lá, Dois pra cá", da Tribuna, amanhã, às 20h, na videoteca do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM).
"A cidade ferve com produção, composição e gravação de canções lindas. O juiz-forano precisa conhecer o que está bem embaixo do seu nariz. Para isso, é preciso viabilizar a divulgação desse material", ressalta o representante do setor no Conselho Municipal de Cultura (Concult), Fred Fonseca, um dos quatro convidados a participar do encontro. Na última quarta, Fred se juntou a outros músicos da cidade para definir os próximos passos rumo à execução da produção regional nas mídias do município, tendo a equivalência de 20% da programação, o que, também, deve vir à tona no Ciclo de Debates.
Presente na reunião, o compositor Edson Leão destacou a necessidade da criação de canais alternativos que se pautem pela execução do que não toca de forma alguma nas rádios comerciais. "Pelo que eu sei, a UFJF já teve oportunidade de ter canais de rádio e TV que realmente tivessem alcance local e regional. Fora do Brasil, há uma tradição de rádios universitárias se tornarem uma alternativa consistente. Bandas como o REM se destacaram primeiro em canais como esses."
O compositor Roger Resende propôs uma manifestação, 30 minutos antes do debate, convocando os músicos a comparecerem "em peso" para apresentar seus discos em forma de "ato representativo".
Coletivo como alternativa
Como se portar no cenário contemporâneo de mídias dinâmicas e interativas? Como formar público? Como viabilizar o sustento a partir deste trabalho? Como circular com sua canção para fora do seu meio, se no seu próprio meio você é desconhecido? A partir dessas perguntas, Fred Fonseca espera respostas. "O trabalho coletivo pode viabilizar conquistas coletivas também. Uma nova lógica de mercado em meio ao mercado sem lógica das grandes gravadoras se faz urgente para essa cena alternativa", conclui.
Além de Fred, a professora Valéria Assad, do Conservatório Estadual de Música Haidée França Americano, o compositor Carlos Fernando e o pesquisador Daniel Quaranta, do curso de música da UFJF, estarão à frente do bate-papo.
"Debater no ‘Dois pra lá, Dois pra cá’ será de extrema importância, afinal, poucas foram as vezes – ou posso dizer nenhuma – que se conseguiu reunir músicos de diferentes segmentos. A época do individualismo já passou. Temos que trabalhar e fazer acontecer em conjunto. O mercado atual exige isso de todos nós", ressalta Valéria, sugerindo ainda temas como a abertura do curso de música na UFJF e a obrigatoriedade do ensino da música na escola. "Foi comprovado que o ensino da música auxilia no aprendizado da criança e na diversidade dos estilos de música que escutamos pelos meios de comunicação o tempo todo", complementa.
Endossando a oportunidade de congregar diferentes segmentos da música local num mesmo instante, Carlos Fernando acredita que o encontro pode gerar ainda tomadas de decisões, como com relação à questão das leis de incentivo – destaque para a Lei Murilo Mendes -, além da articulação entre os setores públicos e privados no fomento do campo musical.
Já Daniel Quaranta destaca e necessidade de detalhar os rumos da pesquisa na área como um todo. "Por que existe diferença entre o conservatório e uma instituição que promove pesquisa, como a universidade?", indaga o pesquisador, defendendo ainda que pretende argumentar sobre como Juiz de Fora poderia se tornar um centro de experimentação musical.
