No teatro, qualquer movimento é suspeito. À espera da Tribuna, que acompanhou o ensaio geral do espetáculo "Os ossos do ofício" na última segunda (24), o único movimento dos integrantes do Grupo Divulgação era de muita concentração. Não durou muito. Diante de um roteiro de suspense e um ambiente sombrio, o elenco, sob a ordem de "vai" do diretor José Luiz Ribeiro, iniciou sua busca. "É um texto psicofísico na medida em que traz uma sociedade mecânica, solitária, como a com a qual estamos vivendo hoje em dia", destacou Ribeiro, após exatos 60 minutos de ensaio. Sobre a peça, que entra em cartaz nesta quarta-feira (26), o diretor promete algo diferente das comédias de costumes que se tornaram a marca da companhia.
No desenrolar da trama, o estrangeiro Lindomar Flanel (de Jefferson Oliveira) chega à cidade de Sossego com uma ideia que, à exceção do personagem homônimo de Lima Barreto, no conto "Nova Califórnia", beira o absurdo: transformar ossos de defuntos em ouro. "Com isso, Flanel mecaniza ainda mais as instâncias de poder do local, desestruturando, assim, a trinca formada por política, representada por um funcionário da prefeitura (João Paulo Amaral), ciência, por um boticário (Hugo Dutra), e religião, por meio da Guardiã das Almas (Fátima Amorim)", explica, antes de anunciar que suas personagens nada mais são que estereótipos. "Elas são a radiografia do osso, fruto da cobiça de todos, que acabam se corrompendo."
Apesar de beber na fonte de Lima Barreto, Ribeiro esclarece que "Os ossos do ofício" não é uma adaptação. "Eu apenas utilizei a ideia da transformação do osso em ouro, mas a estrutura é completamente diferente. O estrangeiro é o Diabo, que entra por meio da família e faz tudo funcionar como uma peça de relógio", complementa. "O osso funciona como aquilo que resta do homem. Uma forma de dessacralizar o que a Igreja sacralizou. Tudo está diferente. Atualmente, encontramos um Jesus em cada garagem", provoca o diretor, destacando ainda a referência no Rei de Midas, personagem da mitologia grega que transformava tudo o que tocava em ouro.
Em mais uma investida na iluminação pontuada (técnica de demarcar com luzes os movimentos cênicos), José Luiz Ribeiro optou também por uma sonoplastia ora regional, como em "Flor amorosa" (choro de Joaquim Callado), ora fracionada. "Essa trilha mais mecânica (a segunda) reforça os movimentos de cabeça e gestos de Meyerhold", disse, ao explicar sua opção de utilizar máscaras em todos os personagens durante todo o espetáculo. "É uma fuga ao realismo e naturalismo mesmo. Com máscara, o ator é obrigado a trabalhar corporalmente de uma outra forma", opina a atriz Márcia Falabella, que representa Conceição, a égide da família, que, aliás, é a primeira a se corromper.
O cenário, único e não realista, está dividido em vários espaços. O elenco, no entanto, permanece em cena o tempo todo, em disposição de coro, uma espécie de testemunha da ação em desenvolvimento. "O coro é o povo, o mais importante do teatro clássico", sublinha Ribeiro. "É um espetáculo de ação física permanente. Um mês de treinamento com o objetivo de formar não só o grupo para esta peça, mas o ator", acrescenta.
Com figurino atemporal, os oito atores pretendem abrir as cortinas do cotidiano, em que as bolsas do governo e o déficit do ensino funcionam, de acordo com Márcia Falabella, como um dos pilares da obra sustentada pelos verdadeiros "Ossos do ofício". "A história propõe uma grande reflexão do momento em que a gente vive", resume Márcia.
Perante à corrupção endêmica e à possibilidade de enriquecimento a qualquer custo, o texto de José Luiz Ribeiro tem como objetivo maior propor a reflexão frente ao "apocalipse" da contemporaneidade. Seja ele moral e/ou social.
OS OSSOS DO OFÍCIO Quarta a domingo, às 20h30. Até 4 de dezembro
Forum da Cultura (Rua Santo Antônio 1.112)
