
Juracy Neves recebe homenagem das mãos do reitor da UFJF Henrique Duque
Há 30 anos, a Tribuna provou que Juiz de Fora rende, sim, um caderno diário de cultura. A aposta pioneira do jornal resultou em um trabalho que hoje se consolida como documento da produção artística local nas últimas décadas. Além de registrar, o Caderno Dois também "fez" a história, atuando como espaço de discussão e denúncia, e exercendo um papel decisivo em campanhas pela preservação do patrimônio cultural do município. Os esforços e resultados alcançados ao longo dessas três décadas são tema de homenagem no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), em uma mostra que vai marcar a inauguração de um novo espaço expositivo na instituição. O "Lugar de honra", como foi nomeado, surge com a proposta de prestar tributo a instituições, publicações e movimentos que contribuíram para a construção, o resgate e a divulgação da cultura local. "Queríamos ressaltar a importância do Caderno Dois como instrumento crítico da permanência da cultura em Juiz de Fora", comenta o pró-reitor de Cultura da UFJF, José Alberto Pinho Neves.
Com edições mensais, o "Lugar de honra" no Mamm tem previstas homenagens à Sociedade de Belas Artes Antônio Parreiras, à célebre Capela Galeria de Arte do Colégio Stella Matutina e ao escritor Belmiro Braga. A abertura do novo espaço, localizado no hall de entrada do Mamm, foi efetuada em solenidade realizada ontem.
Apesar de não contar, inicialmente, com a chancela de "Caderno Dois", a cultura esteve presente na Tribuna desde sua edição inaugural, em 1º de setembro de 1981. De lá para cá, o conteúdo e o visual das páginas passaram por mudanças, acompanhando o espírito de cada época em Juiz de Fora e no Brasil.
Primeiro jornal do município a ter um espaço diário dedicado à cultura, a Tribuna encontrou um campo fértil para a arte na efervescência de talentos e ideais que povoaram a década de 1980 na cidade. Reflexo de um tempo em que nomes como Dnar Rocha, Arlindo Daibert e Renato Stehling produziam plenamente e em que os espaços públicos eram ocupadas por movimentos literários, como o "Abre Alas" e a revista "D’Lira". Da mesma forma, povoavam as páginas do jornal as vozes de ilustres visitantes, como o diretor teatral Amir Haddad e o escritor Roberto Drummond. "A Tribuna cumpriu muito bem o papel de registrar as manifestações culturais da cidade, e o tempo fez o papel de juiz disso", complementa Pinho Neves.
Pautado na liberdade de expressão, o jornal divulgou as mais variadas manifestações culturais, reflexo de um país em desagregação da ditadura militar. Esse empenho resultou em um processo de investigação, instaurado através da Lei de Segurança Nacional, logo nos primeiros meses do periódico.
Cultura em mutação
Em 30 anos, o Caderno Dois acompanhou e interferiu nas transformações do cenário urbano de Juiz de Fora. Um dos momentos mais marcantes foi a manifestação "Mascarenhas, meu amor", adotada amplamente pela classe artística e que se converteu em um marco para a transformação da antiga fábrica em um espaço cultural. Na década de 1990, foi a vez do abraço simbólico no Museu Mariano Procópio, criando um alerta contra a degradação do conjunto. Anos mais tarde, o processo de aquisição do Cine-Theatro Central pela UFJF e sua restauração foram destaque nas páginas do periódico. A luta pela preservação do patrimônio cultural da cidade inclui, ainda, a mobilização pela restauração da obra de Di Cavalcanti, que ornamenta o Marco do Centenário, na Praça da República.
Trinta anos de história deixaram suas marcas na própria maneira de se produzir e consumir cultura. Esse processo de transição fez com que a Tribuna fosse testemunha, por exemplo, da triste sina dos cinemas de rua. As últimas sessões dos extintos Cine Paraíso, em São Mateus, e dos Cine Excelsior e Veneza, no Centro, foram temas de reportagens. A tristeza do fechamento do Cine Palace, entretanto, pode ser compensada, anos mais tarde, pela reabertura do mesmo.
No campo da música, o Caderno Dois guarda a memória de eventos que fizeram história na cidade, como os festivais de rock realizados no campo do Sport Club, que fizeram nomes como Cazuza – ainda como vocalista do Barão Vermelho – circular pela cidade. A demolição da Capela Galeria de Arte também deixou suas marcas nas páginas da Tribuna.
No final da década de 1990, uma reforma gráfica e editorial na Tribuna agregou ao Caderno Dois conteúdos de variedades, antes explorados em suplementos específicos. Assim, assuntos como moda, decoração, comportamento e turismo entraram para o rol de pautas do espaço. Nos anos 2000, o jornal acompanhou a criação do Museu de Arte Murilo Mendes, assim como a ampliação de suas coleções, denunciou o abandono de parte do patrimônio histórico e cultural.
Ao mesmo tempo em que assistiu à tão esperada reforma do Museu Mariano Procópio, depois de expor a precariedade em que se encontrava, hoje cobra a conclusão das obras, responsáveis pelo seu fechamento há mais de três anos. Também registrou a consolidação de eventos, como o Festival Internacional de Música Colonial e Antiga, realizado pelo Pró-Música há 22 anos, Festival Nacional de Teatro e Corredor Cultural. Uma das maiores conquistas da classe artística – a Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura – foi amplamente debatida nas páginas do Caderno Dois.
Conforme as mudanças na própria forma de se consumir informação, o caderno encontrou, gradualmente, seu equilíbrio, enfatizando seu perfil cultural, sem sonegar as exigências de um jornalismo mais moderno, ágil e plural.

