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Hotel São Luiz, imóvel tombado da década de 1940, funciona como café no Centro de JF

hotel sao luiz

(Foto: Leonardo Costa)

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Na parte baixa da Rua Halfeld, o Hotel São Luiz abre nas tardes de segunda a sexta-feira, das 15h às 18h, para quem quer tomar um café, enquanto o local termina suas obras no espaço de hospedagem. Com um jardim florido, decoração que preserva o ar vintage do imóvel tombado e datado da década de 1940 e o silêncio do ambiente, mesmo em meio à correria da região, é fácil entrar pelo portão e esquecer que estamos no Centro de Juiz de Fora. Mas a localização próxima da Praça da Estação foi, ao longo da história do espaço, de máxima importância para receber os hóspedes, que chegavam de trem e buscavam um canto para se sentir em casa. Também é esse o propósito que carrega Cristina Felippe, que desde 2005 está à frente do espaço, administrado por sua família há 47 anos. Fazer com que o hotel abrisse as portas para a comunidade local foi a forma que ela encontrou de continuar promovendo encontros em meio às adversidades — e, ainda, de fazer com que mais pessoas conhecessem essa joia preservada em Juiz de Fora.

Foi durante a pandemia de Covid-19 que o espaço, que funcionava apenas como hotel, e com café da manhã para os hóspedes, precisou se reinventar. “Tivemos que fechar por força das circunstâncias, porque todos os funcionários eram do grupo de risco. (…) Se acontecesse algo, eu não teria paz de espírito. Apesar de ter estudado muito diferente disso na faculdade, sempre pensei que uma empresa tem que ter um papel além de gerar lucro”, diz. Durante aquele período, em 2020, ela também não sabia por quanto tempo a situação iria durar. Aproveitou o período para dar início a obras que eram necessárias, como a de prevenção de incêndio recomendada pelo Corpo de Bombeiros, pensando que seria possível que o hotel voltasse a funcionar com rapidez.

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Cristina cresceu no Hotel São Luiz e agora cria seus filhos no mesmo jardim (Foto: Leonardo Costa)

No entanto, a obra acabou levando mais tempo do que o imaginado, justamente por se tratar de um imóvel tombado e cheio de especificidades: no telhado, por exemplo, a telha que precisava ser substituída não podia ser adquirida em lojas, era preciso esperar outra construção do período descartar o material para que pudessem usar. “Nossos hóspedes sempre ligavam e pediam para gente ‘pelo menos um cafezinho’. E quem era de JF também queria. Com a quantidade de obra que ainda teria que fazer, e como aqui embaixo [onde é o café] já estava pronto, começamos a pensar”, explica. Até o primeiro semestre de 2025, no entanto, o local ainda funcionava com caráter intimista. “O portão ficava até fechado.  Nossos hóspedes que tinham que ficar em outros lugares durante as obras vinham e gritavam: ‘Oi! Tem alguém aí?’”, relembra. 

Até que, em junho deste ano, em uma dessas visitas quando o local ainda funcionava timidamente, o turismólogo e influenciador Inácio Botto foi até o local por indicação de uma amiga e fez um vídeo contando sobre a história do hotel, com a autorização de Cristina, mas sem que ela imaginasse o impacto que poderia ter. Esse vídeo chegou a quase 300 mil visualizações. “No dia seguinte, tinha muita gente na porta para conhecer. Depois desse dia, não trabalhamos mais com portinha fechada, e assumimos de vez a ideia de trabalhar com o café”, diz. O cardápio, então, se fixou justamente com a identidade que o hotel já tinha, e funciona com ela no salão e a mãe, Maria Elizabeth Felippe, na cozinha: “O nosso princípio, que já era no hotel, é que a pessoa se sinta à vontade, como se estivesse em casa. Tudo que fazemos na cozinha tem carinha de casa de vó, é fresco e feito na hora, pra fazer o lanche à vontade”. Entre os mais pedidos, estão pão de queijo, muffins doces e salgados, café com leite e suco de laranja.

Parte baixa da cidade

Apesar de Cristina ser formada em Direito, ela segue uma tradição familiar: já são cinco gerações no ramo da hotelaria. “Tudo começou com a minha bisavó, em Tombos, que foi para dentro de um hotel com sete filhos. Ela foi uma guerreira, uma inspiração mesmo”, relembra. Em seguida, seus avós também foram para a área, e seus pais se mudaram para Juiz de Fora para trabalhar como administradores do Hotel São Luiz. Ela assumiu a frente quando seu pai, Gilson, faleceu. No mesmo jardim em que também aprendeu a andar, agora cria os próprios filhos, e traz parte dessa memória em cada detalhe – seja na presença da família no local, na louça que era da avó, nas cristaleiras do salão do café ou até no piano que está lá e era da mãe, e que fica aberto para o público tocar.

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Mas entender que um negócio familiar pode funcionar assim, nessa parte da cidade, ainda é um estigma. “A parte baixa da Rua Halfeld e Marechal é carregada de preconceito e discriminação. Essa imagem negativa construída não é verdade. Temos muitos comércios bons na região e muitos ambientes de respeito. Minha família está aqui dentro. É uma pena ainda ter que lutar para mostrar isso”, conta.

Ato de amor

Reconhecer a importância de um patrimônio para ele ser tombado envolve vários estudos sobre suas características e importância. O que Cristina vê, na prática, é que um imóvel que permanece preservado com os anos também desperta uma emoção diferente nas pessoas, criando uma conexão com o passado, e isso também faz com que sempre queiram voltar e reencontrar essas memórias. “São várias pessoas que chegam aqui falando que os pais ou avós passaram a lua de mel aqui. As pessoas se emocionam com essa identificação e o resgate da história. (…) Hoje, tem gente que fala comigo preocupado se eu vou reabrir e se o hotel vai ficar preservado como era. Quem gosta, quer que a gente mantenha.”

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Mas para manter um imóvel histórico assim de pé, como ela nota, é preciso do esforço de várias pessoas. Não é fácil mas, como percebe, também faz parte do que é o hotel e dessa ligação que ele tem com as pessoas, seja para hospedar ou para receber para um café. “A preservação de um patrimônio tombado é, antes de tudo, um ato de amor. Falo isso com plena convicção, porque não temos os benefícios que precisaríamos ter do Poder Público para preservar a história. Se muito da história é preservada na cidade, é por amor de quem está ali dentro”, afirma Cristina.

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