
Escritora estará nesta terça-feira em Juiz de Fora
"Não quero morrer nunca, porque temo perder o que desta janela se desdobra em tesouros." Quando, em 1999, Adélia Prado escreveu "Oráculos de maio" (Siciliano), a escritora imortalizou em versos a angústia pelo inevitável fim da vida. "Acho que, como todo mundo, queria que a juventude fosse perpétua", reflete. "Tento fazer de nossa condição mortal uma oportunidade de crescimento na fé e na alegria, uma chance única de retornar a esperança dos verdes anos, uma chance de ação de graças", completa a mineira, que abre nesta terça-feira (27), às 20h, no Cine-Theatro Central, a primeira edição do Sesc Literatura: Grandes Escritores – programa que pretende estimular o gosto pela leitura e a difusão da vida e da obra de autores da literatura brasileira por meio de palestras e oficinas gratuitas. Já estão programadas as vindas de Ignácio de Loyola Brandão (25 de setembro), Zuenir Ventura e Cassia Kiss (23 de outubro) e Affonso Romano de Sant’ Anna e Ângela Vieira (20 de novembro).
Aos 78 anos, Adélia mantém firme a poesia de "Bagagem", sua estreia no mercado editorial, lançada em 1975, mesmo com as quase quatro décadas que a separam de "A duração do dia", de 2010, (Record). "São irmãs. Se reconhece o DNA, mas têm personalidades próprias", argumenta ela, que construiu uma escrita norteada por religiosidade. A indissociação entre obra de arte e experimentação divina já lhe rendeu inúmeras críticas, o que não a impede de ver seus censores com respeito. "Isso acontece sempre, mas não posso fazer nada. Não me desvia do que devo escrever." Sem qualquer temor, em várias de suas entrevistas, faz questão de evidenciar que produz como um oráculo. "Toda arte verdadeira é religiosa, a despeito do eventual ateísmo de seu autor. Não invento a beleza, eu a descubro vinda de uma fonte que ultrapassa explicações lógicas. A meu ver, nasce em nós o sagrado, o que permite a mística, a arte, a poesia, experiências não cerebrais, criadas, orientadas e oferecidas a nós pela via do sentimento."
A primeira experiência poética de Adélia ocorreu ainda na infância, na antiga terceira série primária. O versículo bíblico dito pela professora durante a aula de catecismo – "Olhai os lírios do campo. Nem Salomão, com toda sua glória, se vestiu como um deles" – serviu de inspiração para aplaudidas redações da pequena menina. Contudo, só ganhou as prateleiras na maturidade, aos 39 anos. O já anunciado talento visto na tenra idade surpreendeu Carlos Drummond de Andrade, que sugeriu ao editor da Editora Imago, Pedro Paulo de Sena Madureira, a publicação de poemas que eram "fenomenais". O responsável por apresentá-la ao itabirano foi Afonso Romano de Sant’Anna. Não demorou muito para que Drummond assinasse uma crônica sobre a o trabalho inédito da escritora no "Jornal do Brasil". Já com o segundo livro, "O coração disparado" (Nova Fronteira _ 1978) foi agraciada com o Prêmio Jabuti.
Arte nascida à mão
À moda antiga, Adélia faz seus apontamentos iniciais à mão, para depois enviá-los ao computador. "Faço pequenas notas quando alguma coisa se mostra com luz poética", conta a escritora, que não segue um ritual para criar e nem se restringe às imposições do tempo. "Quando a coisa pede, esta é a hora", afirma, justificando o hiato de dez anos sem publicar poesias. Depois de "Oráculos de maio" (Siciliano – 1999), voltou a publicar outro livro do gênero _ "A duração do dia" (Record), somente em 2010.Os versos que quebraram a lacuna poética percorrem o amor carnal e divino, o ofício do poeta e os sofrimentos intrínsecos ao ser humano."Os poemas demoraram a aparecer", confidencia para logo completar. "Às vezes, tem-se a impressão de que a fonte secou. Impressão que é meia verdade, porque a fonte real é divina. E esta é infinita. Eu, sim, experimento esterilidades".
Nesse intervalo, a autora publicou obras-primas em prosa: "Filandras" (Record _ 2001), "Quero minha mãe" (Record _ 2006) e "Quando eu era pequena" (Record _ 2006). Em breve, chega às livrarias o poético "Miserere".
Sem citar nomes, Adélia diz ter entre suas leituras autores estrangeiros até bem pouco tempo desconhecidos para ela. Também confidencia não acompanhar com regularidade a literatura contemporânea, impedindo-a de ter opinião formada sobre o assunto. Contudo, arrisca algumas possibilidades sobre o que tem sido produzido. "Tem pérolas e cascalhos certamente, estes em maior quantidade, não duvido."
Oficinas
A programação do Sesc Literaturas: Grandes Escritores continua no sábado, no Sesc Juiz de Fora (Av. Barão do Rio Branco 3090, Centro – Juiz de Fora/MG), com duas oficinas gratuitas. Das 9h ao meio-dia, a jornalista, professora, poeta e compositora Bella Mendes fala sobre "Linhagens e linguagens: a travessia de Adélia Prado. A palestrante, que firmou sua produção entre os artistas da cidade, é autora da obra "Como fazer um arco-íris", publicado pela Lei Murilo Mendes.
Na parte da tarde, das 14h às 17h, é a vez de o poeta e compositor juiz-forano Julyo Satyro comandar o curso intitulado "Experiência e narrativa na produção literária." Ele assina "Balbucio", livro de poemas lançado em 2012 também pela Lei Murilo Mendes. As inscrições podem ser feitas através do telefone 3215-1908 e do e-mail cadijacosta@sescmg.com.br. As vagas são limitadas a 30 pessoas por dia.
PALESTRA COM ADÉLIA PRADO
Nesta terça-feira (27), às 20h.
Cine-Theatro Central
Entrada gratuita

