ENTREVISTA/Regina Bertola, diretora do Ponto de Partida
São 30 anos de história e 31 espetáculos montados. A história do Ponto de Partida começou em Barbacena, de onde o grupo partiu para o mundo, mas sem deixar de fato a cidade. Em entrevista à Tribuna, a diretora Regina Bertola fala sobre os planos futuros de olhar para o passado. Além de dois novos espetáculos para 2012, ela adianta que a ideia é também revisar a obra coletada nessas três décadas de produção teatral.
O último projeto, o musical Pra Nhá Terra, saiu da esfera dos palcos e pode ser levado para casa, em forma de DVD. Com textos do poeta Manoel de Barros e do Ponto de Partida, Nhá Terra foi gravado no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo, e conta com 50 artistas, entre atores, cantores, músicos, incluindo os Meninos de Araçuaí.
Os personagens centrais são os Guardiões da Nhá Terra, que, como seus muitos filhotes, são diferentes de tudo que se conhece e nasceram dos caminhos, do ar, da água, do mato. Em sua missão, se confrontam com jovens humanos da era da internet, do celular, da poluição, do aquecimento global.
– Tribuna – Como é fazer 30 anos de grupo? A idade pesa? Quais os pontos positivos e negativos?
Regina Bertola – O positivo é ter a certeza de que realizamos nossos sonhos. Cumprimos o propósito de não mudar e não ir para a vitrine, apesar de fazer sucesso. E ter a consciência de que fazemos uma cultura de mão e contramão. Ter 30 anos de história nos permite desenvolver nossa linguagem, errar e acertar, passar a limpo. Tivemos sabedoria e amor suficientes para manter um grupo por todo esse tempo. Mas o triste é saber que, mesmo com todo esse tempo, temos que nascer de novo a cada ano. Quando se trabalha em um país onde é preciso viver de projetos de lei, é necessário sair para captar recursos anualmente, e isso é duro. Seria ótimo se nosso tempo fosse apenas para criar, mas, da forma como está configurada a política cultural brasileira, é muito difícil. Ter que provar a todo tempo nossa história é algo complicado.
– Como se reinventar depois de tanto tempo?
– Primeiramente acho que é próprio do Ponto de Partida a inquietação. Inventar a cada dia é estar vivo. Sempre procuramos o inusitado, não acredito que já exista um caminho a se seguir, ele deve ser construído. E o trabalho em grupo ajuda. Em segundo lugar, a inovação foi algo que sempre buscamos. Se fazemos um musical, no projeto seguinte não colocava nenhuma música, para experimentar e estar em permanente desafio.
– Em cartaz desde 2007, Pra Nhá Terra é lançado em DVD. Qual o sentimento em relação ao DVD?
– Acho que a sensação é de fechamento de um ciclo. O projeto nasceu como algo sonoro com o CD e se tornou físico com o espetáculo, que é um contato direto e algo plasticamente muito forte. No DVD, conseguimos manter viva a energia e ampliar alguns aspectos da beleza da peça com os enquadramentos que usamos. Outro ponto é que assistir ao espetáculo no DVD é bem diferente da experiência do teatro, pois, com o foco da câmera, é possível perceber toda a força interpretativa dos atores.
– O que diferencia esse projeto do Ser Minas tão Gerais?
– O Ser Minas tão Gerais é algo muito autoral. Tem uma linguagem muito particular, misturando vídeos com quadros, repleto de cortes inusitados. Já o Pra Nhá Terra tem uma linguagem mais cinematográfica e personagens mais fantásticos. Mas creio que o grande diferencial é que aprendemos com o Ser Minas. Desta vez, fomos mais eficientes, tiramos lições do projeto anterior.
– Você acredita que existam espetáculos mais propícios para esse formato que outros?
– Sim. Enquanto Fuso – Histórias de homens está muito fincado no ator e tem difícil transposição para o cinema, espetáculos como El Gato Manchado e La Golondrina Sinhá e Travessia estão prontos para serem filmados. Estes espetáculos têm uma linguagem estética muito apropriada para passar do teatro para o vídeo. Creio que o fato de serem cenicamente bem desenhados ajuda nesse aspecto. A iluminação e os cenários colaboram, e isso instiga os diretores de cinema para trabalharem com novas possibilidades.
– Quais os planos para o futuro?
– Queremos revisar a nossa história. Sentimos falta de documentar a trajetória do grupo. Temos no nosso trabalho clássicos da literatura brasileira que precisam ser documentados, mas isso ainda está em estudo. Além disso, estamos começando a pensar em dois novos espetáculos para o próximo ano. Costumo dizer que nesta fase começo a narigar, investigar o que quero falar, deixar a percepção aberta. Não tenho planos de longa data, penso somente no próximo.
