
Comemorado no dia 26 de julho, o Dia dos Avós é uma data marcante para muitas pessoas no Brasil. Sua origem se deu no século 20, quando foi definida pelo papa Paulo VI, com o intuito de homenagear os pais de Maria, mãe de Jesus, Sant’Ana e São Joaquim. Celebrar avôs e avós vai além de uma dia comemorativo, é reconhecer o afeto desses familiares que, muitas vezes, atuam também como figuras maternas e paternas.
Os laços afetivos entre avós e netos são criados em momentos de conexão genuína, capazes de estabelecer memórias para toda a vida, seja por meio de passatempos em conjunto, conversas, abraços, boas risadas e, também, pela arte.
Em Juiz de Fora, avôs, avós e netos mostram como a arte fortalece esses laços com criatividade, cores, ensinamentos e muito amor.
As multiplicidades do carinho
Coordenador do Grupo Divulgação, José Luiz Ribeiro é referência no teatro juiz-forano. Formado em jornalismo, atuou no Diário Mercantil e foi professor da UFJF. Por meio de uma proposta do reitor da instituição à época, Gílson Salomão, José Luiz teve êxito na criação do atual Forum da Cultura. Nomeado imortal da Academia Brasileira de Cultura, o artista acumula mais de 60 anos de atuação nos palcos. Em 2020, estreou em um novo papel: avô.
José Luiz conta que a chegada da neta Maria Luísa Campos Ribeiro deu um “upgrade” na sua vida. Destacando que a “netinha linda” foi um presente que recebeu de sua nora e seu filho, ele conta como a arte tem sido presente nessa relação
“Eu me propus com a Maria Luísa de sempre trabalhar com música, e ela foi iniciada praticamente com o Mundo Bita. Pelo menos duas vezes por semana, ela ficava comigo aqui. Agora está ficando menos, porque já cresceu, já tem um monte de coisa para fazer. Mas nós sempre inventamos algo, a gente tem um teatro de fantoche de rolha, que ela que ajudou a fazer.”
José revela que o teatro provocou encantamento na menina. O primeiro espetáculo que ela assistiu foi o “Ratim conquistador”, do Grupo Divulgação. A partir daí, todas as peças que fizeram, como “Menina ventania'”, “Verdadeira princesa”, e “Mochila mágica”, ela fez questão de ir e divulgar para as pessoas.
“Uma coisa engraçada é que um dia ela virou para a mãe e falou assim: ‘agora, enquanto eu estou pequena, eu estou aqui na plateia, mas, quando eu fizer 10 anos, eu quero estar representando’. Então, ela fala para o vovô, ‘quando que eu vou atuar?’ Eu digo, ‘quando você tiver paciência de ensaiar’, porque aqui na minha casa, ela não só ensaia, mas brinca muito de contar histórias, joga bola e faz outras atividades”, relata.
“A gente tem uma parceria ótima, a gente brinca o tempo todo. Desde novinha, ela gosta de santo e começou a aprender o nome de tudo quanto é santo, e a gente dava aqueles santinhos pequenos, as miniaturas, e ela tem uma coleção de mais de 30 deles. Os santos, para ela, são quase o mesmo que bonecas: ela dá nome, é muito íntima da Rita, da Socorro, que é a Nossa Senhora do Socorro (risos), então ela coloca em ordem e não tem aquela coisa do sagrado e do profano junto.”
José Luiz relembra que, na véspera do ensaio geral de “Verdadeira princesa”, teve que assumir o papel de um ator que saiu do elenco. Fora do teatro infantil há 35 anos, ele retomou seu trabalho na área e sua neta agora o vê no palco interagindo com ela.
“Quando eu fui pai, meus filhos frequentaram, como Maria Luísa, todas as minhas peças infantis, porque o Divulgação acabou sendo uma família deles, já que todos os atores passaram a ter um carinho por eles. A Marcinha (Márcia Falabella) tem uma ligação muito grande com a Maria Luísa e ela tem a mania de dar um presentinho toda vez que a Maria aparece no camarim. As minhas lembranças como pai são de sempre trazer as crianças para esse caminho”, discorre o artista.
Entre tintas e cores pra pintar o mundo
Conceição Aparecida Victor Garcia Venuto, mais conhecida como Ciça Venuto, é graduada em engenharia civil pela UFJF e pós-graduada em matemática e física. Apesar da profissão voltada para a área de Exatas, tem forte interesse na área de Humanas, em especial, nas artes plásticas. Entre 1993 e 1995, Ciça fez um curso de pintura em telas com Mabeni Machado e depois, pintura em óleo sobre tela, com Everaldo Silva, no qual permanece até hoje. Ela também cursa arte sacra no Ateliê Pedro Guedes e já expôs suas obras em ateliês, na Sociedade Belas Artes Antônio Parreiras, na RH Espaço e no Clube Naval, no Rio de Janeiro.
Ciça é avó em dose dupla: Miguel Victor Costa Venuto nasceu em 2020 e Samuel Victor Fagundes Venuto, em 2023. “Quando meus netos nasceram e começaram a entender que a vovó pinta quadros e faz imagens, comecei a incentivá-los, comprando tintas, pincéis e telas. Para a minha alegria eles gostam de pintar junto comigo. No último aniversário do Miguel, eu dei a ele de presente uma maleta, tintas, pincéis e telas, isso resultou em um quadrinho que eu tive o prazer de emoldurar.”
Miguel é filho de Fellipe e mora com seus pais em Ubá, cidade há 111 quilômetros de Juiz de Fora. Já Samuel, filho de Thalita, mora em Juiz de Fora. Ciça diz que, sempre que possível, se encontra com os netos e os coloca em contato com a pintura.
A avó relata que, no mês passado, levou tintas, pincéis e uma tela para Samuel. Ele adorou e fez bastante bagunça, mas saiu uma tela “bem bonitinha”, que ela também emoldurou. “Eu amo o que faço. E sei que eles também curtem muito essa vovó aqui. Inclusive, sempre participam de exposições prestigiando esse meu lado artístico.”
O incentivo pelas artes não ocorreu apenas com os netos, Ciça fez questão de apresentar essa área também para seus três filhos, Fellipe, Thalita e Eduardo.
“O Fellipe devia ter uns 10, 12 anos quando teve aulas com uma vizinha que fazia pintura, a Lena Kelfner. Mas, depois, ele se desinteressou. A Thalita também teve aulas com ela e fez bastante quadrinhos. E o Eduardo já foi mais adulto, fez com o Everaldo Silva. Ele fez um quadro enorme, que está no quarto dele. Um quadro muito bonito. De início, todos os três se interessaram e fizeram aula. Mas agora, o Fellipe é médico oftalmologista, a Thalita é veterinária e o Eduardo ainda cursa Arquitetura”, relembra.
O artesanato que liga histórias
Conhecido como “vovô das pipas”, Geraldino Leandro Antunes iniciou a produção para a sua comunidade há anos. Avô de Yhan Campos Antunes dos Santos, o rapper Preto Vivo, os dois compartilham uma atividade em comum: ações culturais e artísticas para as crianças juiz-foranas.
Já aposentado, Geraldino relata que ele queria não só ocupar o tempo, mas também fazer algo que fizesse bem para cabeça e que ajudasse os outros. Por conta disso, começou a produzir pipas para serem distribuídas para as crianças do Bairro Santa Luzia, na Zona Sul de Juiz de Fora, e de projetos sociais.
Os dois artistas concordam que a parceria entre eles gera inspiração mútua. Yhan realiza o projeto Alto Falante, que oferece oficinas culturais e aulas para crianças da região e, em contrapartida, o “vovô das pipas” distribui suas produções para que as crianças se divirtam. “O que é marcante pra gente é ver as crianças aí, felizes, alegres, né? E a gente ‘tá’ vendo que ‘tá’ ajudando. Tem as crianças lá da aldeia, que a gente também manda. E as crianças que moram aqui na rua, no bairro. Eles ficam tudo atrás. Falam ‘é o vô das pipas! o vô das pipas!’ e graças a Deus a gente se sente feliz”, afirma Geraldino.
De acordo com o avô, para que outras famílias se reconectem através da arte, ele incentiva que ajudem as crianças, pois o prêmio que ganham é o sorriso, que vale muito mais que qualquer tipo de dinheiro. Ele também incentiva que não só os avôs e avós tenham esse papel, como também os pais.
Yhan destaca o trabalho dos dois em sua biblioteca comunitária, chamada “Quebrada também lê”, para a qual o avô sempre traz vários livros. “A gente sempre se ajuda. Um ensina o outro as coisas, um aprende com o outro. Isso aí faz bem para a gente, porque a gente se sente feliz por estar ajudando as pessoas. E aí, a experiência com a atualidade também faz essa mistura. Isso aí é coisa boa.”
Para avô e neto, a família tem um papel importante no apoio às artes, incentivando as crianças a desenvolverem seus talentos.
*Estagiária sob supervisão da editora Gracielle Nocelli
