
Só mesmo a persistência para explicar que a água, em estado líquido, consegue moldar uma pedra. “Tanto bate até que fura”, diz o ditado. E essa mesma persistência, que também envolve resiliência, é a responsável por fazer, através do barro, da argila, uma peça em cerâmica. É um processo que exige paciência. Inclui perdas e rachaduras. Necessidade também de recomeçar. Encantamentos do passado reencontrados por acaso e todo esse caminho de produção da cerâmica estão expressos na exposição “Água mole em pedra dura”, que reúne obras de Adriana Lopes e Thiago Bartels no Atelier Adriana Lopes (Rua Sampaio 36, Granbery), com abertura nesta quinta-feira (28), às 18h.
O ateliê funciona dentro de uma casinha que, por fora, esconde sua extensão. Lá no fundo, onde, geralmente, o cliente não entra, é onde coloca-se a mão na massa. “Aqui, o processo criativo é grande”, brinca Adriana Lopes. Foi lá que Thiago, formado em artes – e que, até a pandemia, tinha um estúdio de tatuagem -, encantou-se pela cerâmica: um processo que tinha conhecido timidamente na faculdade. Apesar de sempre ter desejado se especializar em design de produtos, acabou não se aprofundando na área. Por outro lado, foi também na faculdade que Adriana conheceu a cerâmica e decidiu que esse seria o seu ofício, há mais de 20 anos. Nesse tempo, já atuou em outras cidades e produzia, principalmente, adornos. Fazer cerâmicas utilitárias, como as de cozinha, só calhou de acontecer em Juiz de Fora, quando decidiu que queria mudar tudo.
Adriana precisava de uma pessoa para ajudá-la no ateliê e encontrou, por acaso, Thiago. “Costumo dizer que ele caiu mesmo de paraquedas aqui”, diz. Interessado no processo, foi ficando e não quis mais sair. “A Adriana me deu liberdade para ir criando. Fui pesquisando, experimentando e cheguei a essas soluções que são as que eu gostei, que têm essa coisa da função, da parede dupla, do isolamento térmico, além das pesquisas de formulação de esmalte, que Adriana e Ana Cuca (que também trabalha no ateliê) fazem”, explica Thiago. Quando viram que dessa criação sairia uma linha, decidiram iniciar uma exposição. “Eu fazia só algumas cumbucas. Com a sugestão da Adriana de fazer uma exposição, comecei a projetar as peças.”
Vontades antigas
Thiago ficou, então, sob a responsabilidade de fazer as peças utilitárias, com paredes duplas, que as fazem mais resistentes. “Ele explorou a forma da matéria, a ergonomia”, mostra Adriana. “Eu fui para duas linhas diferentes: uma mais doméstica, para as pessoas usarem em casa, e outra voltada para restaurantes. A diferença está, por exemplo, na forma das louças. No restaurante não pode ter as quinas, que são pontos mais frágeis, então eu fiz mais arredondadas”, completa Thiago, que, finalmente, colocou na prática o interesse pelo design de produtos. “Quando eu entrei aqui, eu fui vendo que era isso mesmo que gostava”, relembra.
Já que as peças utilitárias estavam sendo elaboradas por ele, Adriana pôde, então, voltar a se aventurar na parte decorativa. “Eu entrei muito na parte de retomar o meu desenho. Por mexer só com a cerâmica, eu deixei o lado do desenho. Com o Thiago ficou essa parte do utilitário. Eu sempre juntei muito o desenho com a cerâmica. Eu parti do desenho, com peças aleatórias, a partir do barro”, diz. Mesmo em caminhos diferentes, as peças se encontram. “A gente entrou em uma de pesquisar cores de terra e barro. Tanto que fez essa pesquisa com várias argilas de cores diferentes. Mexemos também com essa coisa de movimento, do gestual da cerâmica. Eu parti para os objetos, ele ficou com o utilitário. A gente trocou os papéis e daqui a pouco troca de novo e mistura tudo”, brinca Adriana.
Aprender com o processo
O nome, “Água mole em pedra dura”, foi sugestão de Thiago. “A gente pensou em um nome que conversasse com tudo, porque essa exposição é muito dinâmica. É sobre essa transformação e o nosso processo de fazer a cerâmica em uma coisa de insistência. A cerâmica demanda isso. Não é só pegar e vai dar certo. Tem muita perda, muita frustração. A cerâmica é um exercício eterno de resiliência”, justifica Thiago. “A cerâmica é considerada uma arte-terapia porque a gente tem que trabalhar até com a perda. Quem pega e faz tudo rápido, com ansiedade, é impressionante: sempre quebra a peça. É a energia que a mão carrega, parece. Tem que ter resiliência. Não dá para atropelar o processo”, prossegue Adriana.
Uma das salas da casa ainda vai abrigar uma exposição com algumas das peças feitas na Casa do Sol, em São José dos Lopes, distrito de Lima Duarte, na Serra de Ibitipoca. Adriana oferece aulas de cerâmica na casa, e parte da produção estará na exposição, que, de acordo com ela, deve durar, pelo menos, um mês. A casa funciona de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h.

