Qualquer brasileiro que tenha acompanhado a cobertura da mídia na última semana confirmou o que os Engenheiros do Hawaii profetizaram mais de 20 anos atrás: "O papa é pop". Além da popularidade do Sumo Pontífice Francisco I, a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), que acaba neste domingo (28), provou que a música religiosa, muitas vezes negligenciada, também é pop. Aliás, é muito além disso: é pop, rock, axé, sertanejo, bossa nova e qualquer ritmo que aparecer.
Para o pianista Ricardo Itaborahy, que participou do show "Vida in concert" da JMJ na última segunda-feira, a música é um caminho diferente de mobilizar a fé das pessoas. "Ela quebra barreiras racionais e vai direto ao coração. Às vezes uma mensagem musicada toca mais as pessoas porque passa menos pela compreensão e mais pelo sentimento."
Ao lado de Ricardo, estiveram no palco da Cidade da Fé, no Riocentro, outros instrumentistas de Juiz de Fora: Dudu Lima (baixo), Caetano Brasil (clarinete/saxofone), Leandro Scio (bateria), Gladston Simas (bateria) e Rafael Castro (piano). A apresentação reuniu grandes nomes de destaque no cenário nacional, como Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Toni Garrido e Thiaguinho, além de vozes da música católica, como Padre Fábio de Melo, Padre Reginaldo Manzotti, Ziza Fernandes e a banda Rosa de Saron.
Na visão de Caetano Brasil, o crescimento da vertente religiosa da música é tanto que participar de um evento como a JMJ pode, inclusive, abrir portas profissionais. "Cada vez mais vemos músicos profissionais inseridos neste mercado – independentemente de qual religião a música esteja vinculada. Com isso, o meio passou a ter repertório de maior qualidade, com melhores vocais, instrumentais, arranjos e letras. E a energia do show no Rio foi muito boa, todas aquelas pessoas estavam lá com a melhor intenção possível."
Além da participação no "Vida in concert", Ricardo Itaborahy também dirigiu a banda de base que acompanha os artistas integrantes da programação musical da JMJ. No próximo domingo, o músico, que se converteu ao catolicismo via Renovação Carismática, participará de outro momento especial: ao lado de Dudu Costa e Leandro Scio, ele fará, domingo, a trilha sonora da entrada do Papa Francisco na Cidade da Fé, em um evento em homenagem aos voluntários. "Ainda está tudo parecendo um sonho em que estou com meus amigos tocando para o Papa, reafirmando minha fé em um evento tão significativo espiritualmente. E, profissionalmente, é uma infraestrutura de palco, som e geral excepcional. A ficha vai demorar a cair", brinca o pianista.
Citando a frase de Santo Agostinho, que escreveu o "Tratado de música" no ano de 389, Ricardo Itaborahy opina sobre a relação entre música e religiosidade. Consagrado como um dos grandes instrumentistas mineiros de sua geração, Ricardo, que já tocou ao lado de nomes como Emmerson Nogueira, Stanley Jordan e Jean Pierre Zanella, possui alguns projetos musicais voltados para sua fé. Um deles usa o axé-music como porta-voz das mensagens cristãs, na pegada animada da banda Água Viva.
Já o outro, com a Banda Zara, tem o CD "Em tuas mãos" gravado, com lançamento previsto para o mês que vem. "São composições minhas, com letras religiosas e em ritmo de bossa nova, que é minha grande influência musical, meu jeito de compor", observa Ricardo.
Com 23 anos de estrada, sete CDs gravados e dois DVDs, a banda juiz-forana Vinho Novo, que atualmente trabalha em um projeto de pop rock, passeia por diversas vertentes musicais. "Na verdade, a fé que permeia as letras é sempre a mesma, mas o que dita o estilo musical é o tipo de evento. Em um show na praia, partimos para um repertório mais axé; se o público é mais jovem, investimos no rock; para uma plateia tradicional, tocamos baladas mais tranquilas", observa o vocalista e violonista Luiz Cardoso.
Formação espiritual e musical
Apesar de muitas pessoas não fazerem associação imediata, Luiz Cardoso destaca que a música sempre esteve presente na história da Igreja Católica."Basta lembrar que as missas eram cantos gregorianos. Além disso, as igrejas – não só a católica – sempre foram formadoras de músicos. No exterior, diversos cantores de renome começaram a cantar em missas e outras celebrações religiosas", pondera.
Vocalista da banda Comunidade Resgate, Daniel Ribeiro foi um dos instrumentistas que aprendeu seus primeiros acordes depois de ir a uma missa musicada por 80 violonistas em Niterói, onde morava na ocasião. "Foi lindíssimo e despertou meu interesse. Perguntei a um deles como fazia para aprender a tocar, e ele me ensinou, sem cobrar nada. Por causa disso, durante muito tempo a música foi um meio de ganhar a vida, toquei em formaturas, casamentos e fui professor em escolas particulares", conta Daniel, que atualmente se dedica apenas a atividades da comunidade.
Na banda que reúne metais, guitarra, teclados, baixo, bateria, guitarra e violão, Daniel canta composições que costuma assinar com a mãe Cristina e a irmã Sabrina, em ritmos diversos. Segundo ele, o grupo possui um projeto de música infantil e transita por referências tão diversas quanto axé, samba, MPB, pegadas jazzísticas e bebe até no modernoso som despojado de John Mayer. "A Igreja Católica demorou muito a ter uma evangelização musical sólida, que começou em escala nacional com o Padre Zezinho. Essa profusão de bandas e estilos é muito positiva. Eu mesmo me aproximei da religião devido ao meu interesse por música."
Concluindo, Daniel aponta que a música religiosa atual muito além dos hinos de louvor e das preces cantadas no estilo banquinho-violão, instituindo um tipo de fé manifestada com o corpo e, sem dúvida, muita animação. "Temos uma coreografia, a ‘dança da Kombi’, em que simulamos uma viagem, e as pessoas vão embarcando, simulando movimentos como abrir e fechar a porta e dirigir o veículo. Ninguém consegue ficar parado", garante o músico.
