Talento e experiência são as duas palavras que melhor definem os critérios para a seleção dos alunos do Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga que integram o Madrigal do Festival, conjunto vocal de alto nível formado no primeiro dia do evento. Além dos cantores, os instrumentistas que participam do concerto também são escolhidos. Segundo o regente do grupo, que assume a responsabilidade musical da empreitada, Homero Magalhães Filho, os dois processos seletivos são norteados pela observação de habilidades específicas. Existem, sim, instrumentistas que possuem um talento e uma voz natural para o canto, mas não têm essa formação específica, e são selecionados para o Madrigal. O importante, em linhas gerais, é que o cantor tenha qualidade sonora e textual, porque a música cantada é som e texto.
Violonista por formação, Nívio Mota, que atua como diretor do Museu da Imagem e do Som de Santos (SP), é um dos músicos ao qual o regente se refere, soltando a voz como tenor no Madrigal. Não sou cantor, mas gosto de cantar e tenho habilidade para ler música, o que é essencial para este tipo de trabalho, em que temos cerca de dez dias de preparação. Participo há uns 20 anos do grupo, e é sempre uma experiência muito interessante apresentar algo criado dentro do festival.
Também paulista, Rodrigo Lopes, regente de coral na capital do estado, veio ao festival pela primeira vez em 2008 e, desde então, sempre reservou parte de julho para vir a Juiz de Fora. Fiquei muito impressionado com a qualidade do festival e percebo o amadurecimento de tudo que vem sendo realizado. No madrigal, acho incrível o cuidado do regente com a sonoridade, os critérios estéticos… o refinamento musical.
Ainda caloura no grupo, mas desfrutando ao máximo do aperfeiçoamento musical que ele tem proporcionado, a violinista Juliana Souza veio de Manaus para participar do festival pela primeira vez. Aprimorei muito minha técnica em violino barroco, pois tenho formação para o moderno. Essa experiência de aprender um repertório em poucos dias para já executá-lo é muito enriquecedora. Somada à troca de experiências e às amizades feitas, faz do festival um momento único para um músico.
Para Homero, radicado na França há 30 anos e regente do Madrigal desde 1993, a possibilidade de ver a evolução musical de uma geração de cantores e instrumentistas dentro do festival e fora dele é muito gratificante. Normalmente é algo que se constata depois. Tenho o primeiro encontro com jovens aqui em Juiz de Fora e, anos depois, os revejo seguindo carreira, muitas vezes em eventos internacionais. Também é possível acompanhar este crescimento observando alunos que são verdadeiros veteranos do Madrigal, e vão se aperfeiçoando ano a ano. De qualquer maneira, é um prazer enorme.
‘Sempre uma novidade’
O Madrigal se apresenta hoje, na Igreja do Rosário, às 20h30, com repertório escolhido após a definição dos integrantes, reunindo dois motetos do alemão Schütz e um magnificant do italiano Durante. São obras de origem eclesiástica, predominante na música barroca. Como pesquisador, tenho me interessado especialmente pelo trabalho de Durante, que influenciou muito a música brasileira colonial. Segundo Homero, a escolha das canções é sempre uma surpresa, pois depende completamente da formação vocal que o grupo terá. Saio da França com muitas e variadas partituras, porque não sei os tipos de vozes que terei no Madrigal, mais contraltos ou mais sopranos, por exemplo. É sempre uma novidade. Mas a vida só tem graça com o novo.
Homero defende que, ao contrário do que muitos argumentam, a música não é linguagem universal. Somos educados para certas linguagens musicais, então, frente a signos que não conhecemos, não há compreensão, então não há universalidade na música. Ele destaca, por outro lado, que o Festival de Música Antiga vem trabalhando na formação do público juiz-forano. Os concertos estão sempre cheios, e o público está habituado à dinâmica dos concertos: sabe quando aplaudir, sabe o que esperar deste gênero musical. Isso só contribui para que a qualidade de primeiro mundo seja mantida.
Para o atual professor de regência de canto do Conservatório de Châtillon e diretor do Coro Eonia, o Brasil vem avançando na tradição da música antiga. Ainda não é uma cultura sedimentada como na Europa, onde existem cursos universitários que formam instrumentistas de época. Isso é raro no Brasil. Mas, conforme Homero, o festival juiz-forano tem contribuído muito para a disseminação e o fortalecimento do gênero musical. É referência em todo o país. Eu mesmo dirijo alguns festivais aqui no Brasil, mas nenhum atingiu o porte do realizado em Juiz de Fora.
Hoje, às 20h30
Igreja do Rosário
(Rua Santos Dumont 215)
