
“Tô em casa, tô na causa. Tô sem nada, longe de tudo e sem tirar os olhos do mundo.” O verso final de “Pelespírito”, faixa que abre e batiza o novo álbum de Zélia Duncan, documenta o que estamos vivendo neste período de pandemia. Abordando temas como sentimentos diversos, relações e a morada, o disco com 15 canções inéditas, compostas em parceria com o músico e poeta Juliano Holanda, foi produzido à distância, cada um no seu estúdio. Lançado na última sexta-feira (21) nas plataformas digitais, o disco comemora os 40 anos de carreira da cantora e compositora, vencedora de quatro Prêmios da Música Brasileira.
Na tarde desta terça (25), a Tribuna participou da coletiva de imprensa organizada pela Universal Music para divulgação do novo álbum, que marca também seu retorno à gravadora. Misturando reflexões pessoais e a preocupação coletiva com a realidade político-social de nosso país, Zélia Duncan compôs de forma honesta uma tentativa de mapear, pelo menos um pouco, o que estamos vivendo. “Esse álbum tem a peculiaridade de estarmos em um momento especialmente melancólico, misterioso, triste, um momento em que você tem que procurar: cadê minha alegria? O que eu desejo é que ele console as pessoas do jeito que ele me consolou. Estou tentando compor desde que isso tudo começou para me perguntar coisas e para me salvar. Eu acho que o álbum me salvou e espero que ele console um pouco as pessoas”, comenta Zélia.
De “Pelespírito” a “Vai melhorar”
Ouvir o disco na ordem faz com que a temática se encaixe minuciosamente. “Pelespírito” retrata o vazio e o desejo de estar leve, dialogando com o que estamos vivendo. “Essa música é extremamente emocional, pega bem naquela veia do coração, aquela que tá doendo”, afirma Zélia. A busca por encontrar alternativas fica por conta de “Onde é que isso vai dar?”. “Nossas coisinhas” abre espaço para as delicadezas do amor. “Eu tenho um amor muito profundo nas pequenas coisas”, ela confessa.
O aconchego e a brasilidade estão presentes em “Eu moro lá”, enquanto “Você Rainha” reflete a realidade de mulheres que sofreram violência doméstica ou foram vítimas de feminicídio. O trabalho finaliza com um fio de esperança por meio da faixa “Vai melhorar”, indicando que a saída só é possível se estivermos juntos. Em um álbum com tantas perguntas, que expressa tão bem os sentimentos, descrevendo suas dores e dúvidas, Zélia conecta e promove identificação com o ouvinte. Segundo ela, quanto mais íntimo o processo, mais universal é a música.
Parceria com Juliano Holanda
A entrevista pela plataforma Zoom foi feita do quarto de sua casa em São Paulo, o mesmo lugar onde Zélia Duncan passou horas produzindo, gravando e regravando canções. Em relação a dificuldades enfrentadas no home studio, ela destaca o desafio de aprender a se gravar. “Sem dúvidas o maior desafio foi eu resolver gravar minha própria voz. A primeira vez que eu ouvi o disco no estúdio eu comecei a chorar de emoção. A gente combinou de regravar caso alguma voz estivesse tecnicamente ruim, mas não foi preciso, nenhuma voz foi refeita. O maior desafio, que era a voz, um momento muito sensível no disco de uma cantora, eu superei.”
O reencontro com Juliano Holanda proporcionou muito mais que as 15 músicas do álbum. A disponibilidade de ambos fez fluir o processo de composição, que ocorreu por WhatsApp. A experiência do poeta completou o tom das letras. A parceria resultou em um passeio por diferentes gêneros musicais, do blues ao sertanejo nordestino e pantaneiro, mas a maior influência do álbum – e de sua carreira – é o folk.
‘Sou mais aventureira hoje’
A caminhada de Zélia Duncan na música é marcada por 15 discos, prêmios – e uma indicação ao Grammy – , discos de ouro e de platina, e muitas trocas musicais com outros grandes artistas brasileiros. O primeiro passo foi em 1981, quando Zélia, com apenas 16 anos, ganhou um concurso promovido pela Sala Funarte em Brasília. A escolha da canção foi homenagem a Milton Nascimento. “Fazenda” abriu as portas para a artista que aproveitou diversas oportunidades após essa apresentação. Seu primeiro LP “Outra luz”, lançado em 1990, a fez repensar o estilo que gostaria de seguir.
Em 1994 sua voz marcaria de vez o cenário musical brasileiro. Com o lançamento do álbum “Zélia Duncan”, a faixa “Catedral”, versão para uma música da cantora alemã Tanita Tikaram, se tornou um sucesso estrondoso. Outro ponto alto veio em 2006: o convite para cantar ao lado dos irmãos Serginho e Arnaldo Baptista e do baterista Dinho, como integrante da nova formação do grupo Os Mutantes, assumindo os vocais que foram de Rita Lee.
São muitas fases e, consequentemente, faixas para listar como marcos de carreira. Há 20 anos era lançado “Alma”, segunda música do álbum “Sortimento” (2001), um dos maiores sucessos de sua trajetória. “Pagu”, composta em parceria com Rita Lee, uniu a voz grave de Zélia aos agudos da Rainha do Rock Brasileiro para falar da representação da mulher na sociedade. A temática feminina também guiou o álbum de 2019, “Eu sou mulher eu sou feliz”, no qual Zélia e a cantora Ana Costa narram histórias do universo feminino com viés social. O projeto contou com parcerias de várias artistas, entre elas Daniela Mercury e Elba Ramalho.
Um longo caminho percorrido nesses 40 anos, muitas histórias contadas em forma de música – e outras tantas que se desenrolaram ao som de suas canções -, entrelaçando diferentes estilos mesmo mantendo a essência folk, transformando dor em arte, mas alegria também. “Eu consegui manter um frescor pelo menos pessoal, não sei se isso traduz na minha vida ou na minha discografia, um frescor que tem a ver com amor pelo que faço, pelo meu ofício e a vontade de me arriscar e me desafiar para manter esse frescor. Acho que eu sou mais aventureira hoje do que quando comecei”, relata Zélia.
Live
A live de lançamento do disco comemorando os 40 anos de carreira de Zélia Duncan está marcada para o dia 19 de junho, às 21h. Os ingressos podem ser adquiridos pelo Sympla. Parte da renda será doada a uma instituição social atuante no combate à fome.
O clipe da faixa “Pelespírito” já está disponível no Youtube.

