
Machado de Assis já dizia que, em dia de carnaval, a loucura há de ser de alegria. Pessoas com transtornos mentais, constantemente estigmatizadas e excluídas na sociedade, diariamente são reduzidas a sua enfermidade. Pensando nisto, surge o bloco Loucomotiva, organizado pelo coletivo de mesmo nome. Um de seus principais objetivos é contribuir para transformar o imaginário social acerca do tema e mostrar, em meio à folia, que ninguém deve ser reduzido a um diagnóstico. O bloco se concentra às 13h, no Parque Halfeld, nesta quinta-feira (27). A Tribuna conversou com o coletivo para saber mais sobre o enredo deste ano, o trabalho desenvolvido pelo grupo e acerca da importância da luta antimanicomial nos dias de hoje.
Confira a entrevista completa sobre o Loucomotiva:
Tribuna: Como surgiu o bloco Loucomotiva?
Coletivo Loucomotiva: O bloco Loucomotiva, já tradicional na programação oficial do carnaval de Juiz de Fora, leva para o coração da cidade as pautas da Luta Antimanicomial por meio da arte e cultura. Ele acaba sendo mais um elemento da diversidade de um campo de projetos artístico-culturais que surge a partir da atenção psicossocial, com a proposta de expandir o alcance dos objetivos da reforma psiquiátrica e da luta antimanicomial.
Ele foi organizado pelo Coletivo Loucomotiva, grupo formado em 2019 por usuários, familiares e profissionais da Rede de Atenção Psicossocial do município, que nasceu do desejo de ampliar o alcance da proposta constituída na Oficina de Protagonismo realizada desde 2017 no Centro de Convivência Recriar do Departamento de Saúde Mental de Juiz de Fora.
O Coletivo Loucomotiva surgiu da necessidade de promover espaços de participação dos usuários dos serviços pois, apesar dos avanços conquistados no processo de desinstitucionalização dos usuários da Saúde Mental em Juiz de Fora – cidade conhecida por integrar junto com Barbacena e Belo Horizonte o popularmente chamado “corredor da loucura” – faltavam ainda experiências relevantes que promovessem o protagonismo dos usuários para o avanço da reforma psiquiátrica na cidade.
O enredo deste ano será sobre o quê?
Em 2025 o enredo traz a conscientização sobre o aquecimento global e mudanças climáticas, uma luta que pertence a todos e cada um de nós, sem nenhuma exceção. O clima está esquentando. A cada dia sofremos mais essa realidade, com eventos extremos, que trazem destruição, prejuízos e impactos em nossas vidas, até a morte. Nesta perspectiva, o Bloco Loucomotiva pretende levar os foliões a refletirem sobre a responsabilidade de todos e cada um para a preservação da nossa casa comum – o planeta Terra. Mais do que progresso e desenvolvimento, já nos alertou Ailton Krenak – liderança indígena e ambientalista mineiro – precisamos é de mais envolvimento na luta. Podemos reverter o aquecimento global apostando em formas de viver mais respeitosas, recuperando os valores da nossa ancestralidade que apontam para o cuidado com a mãe Terra e assim reencantar o mundo!
Como se dá a luta antimanicomial nos dias de hoje?
“Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça.” Importante reforçar a luta constante de resistência diante de tantos retrocessos que assombram as conquistas da Reforma Psiquiátrica. Lutar contra as marcas cruéis deixadas pela violência dos hospitais psiquiátricos. A imagem da exclusão e abandono representada pelo “trem de doido”, agora é ressignificada e ganha força na desconstrução das barreiras do preconceito. É a Loucomotiva: expressão viva da delicadeza e do cuidado em liberdade, motor da Luta Antimanicomial por uma sociedade livre de manicômios.
Como brincar carnaval pode ajudar nesta causa?
Todos os anos levamos cerca de 500 pessoas, entre usuários, familiares e profissionais da Rede de Atenção Psicossocial, além dos foliões que prestigiam o bloco. Ao ocupar a cidade, novos laços e vínculos se estabelecem e, por meio das relações sociais, cada um é chamado a exercer sua cidadania. Neste sentido, o bloco tem cumprido importante papel na transformação do imaginário social da loucura com vistas à superação de preconceitos e como uma condição de possibilidade de produção de novas identidades decorrentes da arte e cultura.
*Estagiário sob supervisão da editora Cecília Itaborahy