O trocadilho pode ser imperdoável, mas é necessário: o Grito Rock, um dos maiores eventos da música alternativa do país, mantém o fôlego em sua 13ª edição, atingindo mais de 300 cidades do Brasil e em países da América, África e Ásia, colocando no mapa musical milhares de artistas em busca de reconhecimento entre o público. Em Juiz de Fora, o evento chega a seu quinto ano, neste sábado, com as apresentações dos locais Seu Nadir, Traste e Soul Rueiro, além do rapper paulista Rico Dalasam. A edição 2015 do festival teve início em 10 de fevereiro e só encerra suas atividades em 20 de abril.
Como explica um dos organizadores do festival em Juiz de Fora (ao lado dos remanescentes da Casa do Fora do Eixo na cidade), Marcelo Castro, o Grito Rock tem o objetivo de fomentar a circulação de bandas e a atividade de novos produtores culturais. Nas cidades em que o evento é realizado pela primeira vez, por exemplo, ele destaca que os produtores que se dispõem a entrar para o roteiro do festival não começam a organização “do zero”, recebendo orientações, dicas, sendo integrados ao evento e entrando no mapa cultural resultante das cidades que estão integradas à iniciativa. “A partir daí você vai fazendo (o festival) todos os anos, e ele vai crescendo, é uma contribuição coletiva, ajuda a ter mais eventos de música autoral no circuito independente”, salienta.
Por isso mesmo, o festival não se resume apenas às pratas da casa, sempre tendo algum convidado de outra cidade ou estado para que exista, assim, o intercâmbio entre artistas e um novo público para quem sobre ao palco. Você acaba passando por outras cidades, conhece um novo público. A resposta vem, inclusive, nas redes sociais, com pessoas das cidades em que você tocou passando a te acompanhar pela internet”, diz Marcelo, que teve sua banda (a Silva Soul) participando do evento, com apresentação na cidade de São João Nepomuceno.
Entre os artistas locais, ele lembra que a banda Traste tocou em uma edição do Grito realizada em Petrópolis, enquanto a Visco chegou a ir até o Sul do país. “Além disso, você pode assistir a artistas que depois se apresentam em eventos como o Rock in Rio. Este foi o caso do Autoramas e do rapper (de Belo Horizonte) Flávio Renegado.”
Aproveitando o espaço
Uma das atrações locais, a Seu Nadir vai apresentar as canções de seu álbum de estreia, “Sujeito ao tempo”, que será lançado em abril por meio da Lei Murilo Mendes. Baixista e vocalista do grupo, Nathalia Guimarães destaca a diversificação de estilos no Grito do Rock, como o rap e o soul. “É muito importante e gratificante fazer parte dessa ação, nos unindo a outras bandas em busca de espaço e visibilidade para divulgarmos nosso trabalho. Felizmente, a quantidade de locais para se apresentar tem se ampliado cada vez mais devido à luta e força de vontade de muitas pessoas. Assim como o Grito Rock, o JF Rock City e pessoas como Wesley Carvalho, Marcelo Panisset, Luqui Di Falco e Marcelo Castro, entre outras, têm um papel fundamental para a conquista de espaços para que todas as bandas que surgem na cidade tenham um palco para tocar e que sejam recompensadas por esse trabalho.”
Guilherme Melich, do Traste, diz que o grupo está “pilhado” para apresentar o trabalho já produzido – e que foi lançado no final de 2014 -, e por isso mesmo a empolgação para a apresentação no Grito do Rock é grande. “Teremos cerca de 20 composições próprias e mais algumas versões para músicas do Superjoint Ritual, Black Flag e Ratos de Porão. Nosso show é muito ‘porrada’, cheio de energia no palco e com muita intensidade saindo dos PAs. Esperamos que a galera esteja com tanta energia quanto a gente e que esteja pronta para gritar conosco.”
Hugo De Castro, integrante do mix de soul, hip-hop, reggae e MPB denominado Soul Rueiro, lembra que o Grito do Rock não trata apenas de música e cultura, realizando eventos de conscientização sobre o HIV, homossexualidade e o meio ambiente. “A gente se identifica muito com esse tipo de intervenção, visto que é o que também tratamos nas letras de nossas músicas, a reflexão quanto à nossa existência e aos atos que tomamos no meio que habitamos, assim como a exposição de posições políticas que vão contra o sistema opressor que vem nos limitando.”
Sem meias palavras
A atração convidada para o “Grito Rock” em Juiz de Fora é o rapper paulista Rico Dalasam, de 25 anos, o primeiro dentro do gênero no Brasil a declarar sua
homossexualidade e que usa as rimas certeiras para falar não só de sua opção sexual, mas também de seu cotidiano. Ele vai lançar no próximo mês o seu primeiro EP, “Modo diverso”, e já vem conquistando espaço além do meio underground graças a “Aceite-C”, uma das canções do seu trabalho de estreia e que já alcançou mais de 73 mil visualizações no YouTube.
Morador do Taboão, na periferia paulistana, Rico vem a Juiz de Fora pela primeira vez, tendo se apresentado em outras cidades participantes do Grito. Segundo ele, a recepção de um rapper num evento que leva o rock em seu nome tem sido boa. “O pessoal conhece a ‘Aceite-C’, canta junto”, destaca o rapper, que há três anos se colocou efetivamente dentro do circuito do rap, mas que desde 2007 já participava das famosas batalhas de MCs, encarando nomes como Projota e Emicida.
Vertentes mais radicais do rap, como o gangsta norte-americano, são conhecidas pelas letras que tratam de violência, tráfico de drogas, promiscuidade e vandalismo, em que nomes como 50 Cent. N.W.A. e Tupac Shakur – estejam vivos ou mortos – são os reis. Isso, entretanto, não intimidou o rapper paulista. “A ‘classe trabalhadora’ do rap brasileiro, os MCs, DJs têm me apoiado. Nos shows, temos a galera que fica na frente do palco, canta junto, e também há aqueles que ficam lá no fundo, que veem isso com estranheza. Mas nunca sofri qualquer tipo de boicote ou fui vítima de atitude homofóbica. A demanda de trabalho tem permitido que eu me dedique apenas à música”, diz o artista formado em audiovisual e que também é cabeleireiro.
GRITO ROCK JUIZ DE FORA
Neste sábado, às 22h
Bar da Fábrica
(Praça Antônio Carlos s/n)

