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A Broadway é aqui!

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A história do francês Victor Hugo, "Os miseráveis", contada nas telonas por Tom Hooper, não abocanhou a estatueta de melhor filme, levando vantagem somente na categoria de atriz coadjuvante, para Anne Hathaway, que deu vida à sofredora Fantine, mas garante sucesso de bilheteria em todo o mundo. A produção ainda não tinha estreado em países como Itália e Tailândia, entre outros, e já havia alcançado a marca dos US$ 300 milhões, segundo informações da revista "The Hollywood Reporter", divulgadas no final de janeiro, o que confirma a explosão dos musicais, inclusive aqui no Brasil. O país que tomou Carmen Miranda como sua já é apontado como o terceiro em número de títulos, estando atrás somente dos Estados Unidos e da Inglaterra.

"É uma obra que permeia o imaginário até de quem não gosta do formato, tamanha a força da história e do desenrolar da dramaturgia. Acho que ela não é parâmetro para se medir essa boa fase, mas, sem dúvida, ajuda ainda mais a aquecer o universo e o público dos musicais", opina o músico juiz-forano, formado em violão, pelo Conservatório Estadual de Música Haidée França Americano, e em percussão, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Tiago Calderano.

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No site da empresa Aventura Entretenimento, criada por Aniela Jordan e Luiz Calainho para "transformar sonhos em entretenimento, mais especificamente no mundo dos musicais", consta que hoje o Brasil já pode ser comparado à Broadway, em Nova York, e West End, em Londres, principais centros produtores. Se em 2012 o mercado já se mostrava aquecido, em 2013, o cenário é ainda mais alvissareiro.

Para São Paulo, pelo menos, oito montagens estão programadas ao longo do ano: "Quase normal" (em cartaz desde o dia 21 de fevereiro, no Teatro Faap), "O mágico de Oz", (cumprindo temporada desde o dia 22 de fevereiro, no Teatro Alfa), "Alô Dolly" ( a partir de 15 de março, no Teatro Bradesco ), "Milton Nascimento – Nada será como antes" (22 de março, no Teatro Gel), "O Rei Leão" (28 de março, no Teatro Renault ), "Thriller live Brasil tour" ( de 9 de maio a 23 de junho de 2013, no Credicard Hall), "Shrek, o musical" (a partir de agosto em local não divulgado) e "Kiss me Kate" (a partir de setembro, no Teatro Geo). No Rio de Janeiro, nove é a quantidade de opções previstas. As que já estão em cartaz são "Rock in Rio" (Cidade das Artes – Grande Sala), "Tudo por um pop star" (Teatro Clara Nunes), "A família Addams" (Vivo Rio), "Ary Barroso do princípio ao fim" (Teatro Carlos Gomes), "Tim Maia – Vale tudo" (Theatro Net Rio) e "Mônica mundi" (Theatro Net Rio). Entre as promessas estão "Grey gardens"( a partir de 15 de março, na sala Baden Powell), "Como Vencer na vida sem fazer força" (a partir de março, no Oi Casa Grande) e "Cássia Eller – O musical" (a partir de agosto, em local ainda não divulgado).

"Percebo um crescimento, principalmente, das produções importadas, algumas vindo já com ‘receita do bolo’ pronta, tendo que ser montadas exatamente com o padrão e o formato exigidos pela produção estrangeira. Vale lembrar que o Brasil sempre teve a tradição de musicais, mas no formato de teatro de revista, que exigia, por exemplo, um preparo e uma resistência vigorosa dos atores que executavam recitais de terça a domingo, com direito a matinês nos fins de semana", observa Calderano, que vai integrar a montagem de "Grey gardens", escrito, originalmente, por Doug Weight, com versão brasileira de Jonas Klabim e direção de Wolf Maia.

"O que ocorre agora é um renascimento do gênero", avalia a atriz, compositora e cantora Alessandra Maestrini, que na TV interpretou personagens como Bozena, do seriado "Toma lá dá cá", entre 2007 e 2009, e Benedita Kunetscov (Ditta), da novela "Tempos modernos", ambos exibidos pela Rede Globo. Seu último musical, "New York, New York", foi estrelado em 2011, com direção de José Possi Neto. "Destaco dois motivos para esse boom. O primeiro foi o surgimento, em 1997, da dupla Charles Moeller e Claudio Botelho, aficionada não só pelos musicais, mas especialmente pelo esmero técnico das produções norte-americanas. Em seguida, ressalto o investimento maciço no setor, desde 1999, pela antiga CIE (atual T4F), montando aqui – em versão em português – as produções da Broadway e do West End Londrino. Participei desses dois nascimentos e sei o quanto foi positivo e surpreendente para o público", afirma a cantora, que também ressalta o preconceito inicial para as adaptações de produtos estrangeiros.

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"Fomos tachados de estar ‘imitando’ os americanos. A questão é: antes de criar é preciso aprender com quem já sabe. O Brasil sempre foi riquíssimo em criatividade, mas muito preguiçoso com a disciplina. Os musicais ’empacotados’, por incrível que pareça, libertaram talentos que não viam o porquê ou para que se preparar. Tanto no palco, quanto na coxia, na cenotécnia, na tática de divulgação. Digo sem medo de exageros que esta ‘nova onda’ reestruturou o mercado que andava um pouco subjetivo demais. E o público reconheceu e se reconheceu enquanto objeto de desejo, comparecendo e pedindo mais esmero técnico", completa.

 

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Mercado é promissor, mas ainda enfrenta dificuldades

História bem contada, dramaturgia bem escrita, partitura bem feita, bom elenco e uma boa banda ou orquestra são os requisitos indispensáveis, de acordo com Calderano, a um musical de sucesso. Conforme Alessandra, canções que não desgrudam da cabeça e que, de preferência, sejam fáceis de cantarolar, engrossam a lista. "Coloque um jegue interpretando sem emoção, sem timbre, sem charme e sem afinação um repertório desses e você tem um desastre nas mãos. Também não adianta contratar a Beyoncé se a iluminação não nos permite vê-la e o som não nos permite ouvi-la. Se o texto ou o tema que conecta tudo isso também causa náuseas ao público, dificilmente terá êxito", complementa a cantora.

Apesar de os dois artistas serem unânimes em afirmar que o Brasil não deixa nada mais a desejar às produções internacionais, possuindo, com maestria, todos os atributos acima apontados, eles ressaltam que o país ainda tem muito o que caminhar. Na visão da cantora, boa acústica, poltronas confortáveis, banheiros suficientes para não serem necessários longos intervalos, mesa de som de qualidade, vara de luz, coxias com espaço para abrigar os cenários da trama em espera, camarins adequados e locais para ensaio são apenas algumas das necessidades básicas da maioria das salas de espetáculo brasileiras.

"Os teatros no Brasil viraram táxis. Uma mesma casa costuma abrigar dois, três, quatro, cinco montagens ou mais na mesma semana, às vezes, até mesmo no mesmo dia. Musicais, com grandes estruturas de cenário e orquestra, precisam de um tempo maior de adaptação ao espaço cênico. Seja para o movimento coreográfico dos atores e bailarinos, seja para a formatação adequada do som e da luz para realizar a magia desejada. Musical é cinema. Precisa de mais espaço e de mais tempo para ser realizado. Hoje em dia, a praxe é dar dois dias para uma produção se adaptar à casa de shows, sendo que o ideal é, no mínimo, duas semanas. E só a ideia de ter que desmontar tudo ou ter que acochambrar tudo num cantinho porque outro espetáculo vai ‘entrar no táxi’, é de arrepiar. Compreendo que assim fazem as casas de shows para sobreviverem (imagino) ou para obterem o lucro desejado. Mas isso não torna menor o ciúme desesperador e mais que compreensível por ser a única amante no espaço. O musical é uma mulher…", brinca Alessandra.

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Já para Calderano, que reconhece que os atores brasileiros estão cada vez mais preparados tecnicamente para dançar e cantar, a ausência de abertura a novos talentos é uma das principais dificuldades enfrentadas por quem quer atuar no ramo. "O mercado é bastante fechado para quem quer entrar nele, os nichos ou ‘panelinhas’ são bem restritos e se resumem àqueles que tem contatos, principalmente, porque as próprias produtoras preferem trabalhar com quem já conhecem e confiam. Mas existem muitos testes onde um novo talento é descoberto e começa a fazer parte desse grupo atuante. O que sinto mais é a carência de bons atores, jovens, que tenham um bom peso cênico, de interpretação mesmo. Isso ainda está faltando", aponta Calderano. A esposa do músico, Carol Futuro, que está no elenco de "Quase normal", adaptação de Tadeu Aguiar para a obra da Broadway "Next to normal", engrossa o coro de que as produções têm primado pela qualidade, destacando como exemplo o espetáculo em que atua. "O grande diferencial percebido nas críticas foi justamente a alta qualidade interpretativa e vocal. O musical é muito exigente, e as críticas foram ótimas", conclui.
 

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