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Crescendo com velhos medos

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Protagonista de Jogos vorazes, Katniss Everdeen – vivida nas telonas por Jennifer Lawrence

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Em uma arena, crianças e adolescentes se enfrentam até a morte. O vencedor, atormentado pelo terror vivido no campo de batalhas, passa o resto dos dias amparado no alívio – e vício – dos morfináceos. Os oponentes da protagonista Katniss Everdeen, contudo, não são seus adversários, mas as forças por trás do reality show transmitido para todo o miserável país. Discussões sobre autoridade, repressão, culto a celebridades, violência, fome e esperança são algumas das temáticas em pauta na série literária de Suzanne Collins, que se passa nas ruínas futuristas de Panem, antiga América do Norte. "Jogos vorazes", que já ganhou sua primeira adaptação para o cinema no último ano, impressiona pelos temas complexos, sobretudo quando classificada como série infantojuvenil.

A estreia na sexta-feira de "João e Maria – Caçadores de bruxas", dirigido pelo norueguês Tommy Wirkola, trouxe às telonas mais um releitura do conto de fadas que atravessou gerações – passando pelo o comportado e infantil "Hansel & Gretel" (2002), com Dakota Fanning, e pela versão de terror sul-coreana banhada em sangue, de 2007. No filme em cartaz, os irmãos, 15 anos mais velhos, são bem alimentados e especialistas no extermínio de feiticeiras. Da versão religiosa de "A Bela e a Fera" à adaptação repleta de ação de "Chapeuzinho Vermelho"; do romance entre a "Branca de Neve e o Caçador" à explícita sexualidade de "Alice no País das Maravilhas", as histórias que entretêm o público infantojuvenil parecem cada vez mais carregadas de tons densos e sombrios.

"A história nos mostra que aqueles contos antigos, alguns da Idade Média, como ‘Chapeuzinho Vermelho’, por exemplo, nasceram como contos para adultos, repletos de violência, morte, pavor, sexo", especula o escritor de obras infantis Marcelo Manhães. "Então, ao que parece, estamos voltando às raízes daqueles contos." Para o autor, o "prazer de sentir medo" não é novidade. "Terror sempre fez parte do imaginário, não só infantil, mas também de adultos", avalia Manhães, que publicou recentemente obra permeada por uma atmosfera levemente obscura ("O Carnegão e as Bugangás Crisopas") e se prepara para segunda publicação do gênero, tamanha a aceitação dos pequenos leitores.

Poderosas transmissoras de valores de geração para geração, as histórias perpetuam regras, crenças e padrões comportamentais, que contribuem para a formação tanto do indivíduo quanto da cultura a qual pertence. Abandonando a oralidade na atualidade, incorporam outros meios e tecnologias para chegar a seu público leitor, espectador ou até mesmo consumidor. "Lidar com sentimentos é algo inerente ao ser humano", constata a professora do Programa de Pós-graduação da Faculdade de Educação da UFJF, doutora em linguística aplicada e estudos da linguagem, Ilka Schapper. Para Ilka, que também é coordenadora do Grupo de Pesquisa e Linguagem, Educação, Formação de Professores e Infância, a capacidade criativa da criança está enraizada nos estilhaços e fragmentos da memória, estimulados pelo ato de ouvir e contar. "Quando ouvimos uma história, temos a possibilidade de criar uma nova imagem e reinventá-la", explica. "No mundo contemporâneo, a menina não mais quer ser a Branca de Neve, ela quer ‘a’ Branca de Neve e vai à loja comprá-la."

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Revivendo contos de fadas

Embora as narrativas antigas sejam adaptadas ao momento presente, os contos de fadas mantêm, geralmente, seu cerne original e têm espaço garantido no imaginário de crianças e jovens no futuro, segundo o vencedor do Prêmio Europeu de Contos de Fadas de 2012, o alemão Wolfgang Mieder. A disseminação de histórias e valores, porém, mudou drasticamente, o que acaba por surtir efeito nas narrativas. "O que antigamente demorava décadas, hoje, espalha-se com uma rapidez absurda. A questão é só saber se os novos contos e provérbios vão continuar sobrevivendo. Em sua maioria, eles desaparecem com rapidez", disse o especialista – que há mais de 40 anos estuda a importância da disseminação dos contos de fadas -, em entrevista recente.

Na versão originalmente escrita pelos Irmãos Grimm, Branca de Neve não sofre com a Madrasta Má. É a própria mãe que tenta matá-la. Rapunzel, grávida, é abandonada no deserto e demora anos para encontrar seu príncipe, que fica cego ao escalar a torre para resgatá-la. Cinderela não conta com uma fada madrinha e vê suas irmãs mutilarem os próprios pés para tentar enganar o príncipe. A dureza e ironia dos mestres alemães – evidentes antes da popularização das versões posteriores, suavizadas – foram recentemente trazidas ao Brasil pela editora Cosac Naify em "Contos maravilhosos infantis e domésticos". A edição comemorativa foi lançada no fim de 2012, 200 anos após o lançamento do primeiro dos dois volumes assinados pelos Grimm.

Para a diretora do núcleo infantojuvenil da Cosac Naify, Isabel Coelho, não é a violência que atrai os jovens, mas um contexto maior de estética, tanto narrativa quanto visual. "A arte teria a função de lidar com tais temas e, se há alguma intenção de educação, é quase sempre de uma maneira provocativa de estimular sentimentos que possam, por sua vez, estimular a reflexão", elucida.

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"O fascínio de crianças e adolescentes por histórias e jogos com temas complexos é oriundo do momento de desenvolvimento psicológico em que estão, quando aprendem seus direitos e deveres e absorvem as consequências pessoais e sociais de suas atitudes e condutas", acrescenta a psicóloga terapeuta cognitiva comportamental, mestre em processos psicossociais e saúde pela UFJF, Luciana Senra.

 

 

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Ficção e realidade

Apesar dos inúmeros efeitos tecnológicos e exemplos ditados pelos conflitos da sociedade moderna, o que permanece intacto nas sagas que povoam o universo infantojuvenil é o princípio do bem e do mal, ainda que estes possam, por vezes, trocar de papel. "O maniqueísmo é o que mais incendeia esse público, como sempre o fez. Mas o confronto com o mal se dá de maneira diferente, como João e Maria serem os caçadores de bruxas, e não o contrário", levanta o psicólogo, analista junguiano, mestre em filosofia e doutorando em educação, Jorge Braga. "O que amedronta as crianças hoje não é o mesmo que nos amedrontava. Os temas de muitas obras atuais são aterrorizantes para nós, adultos, não para eles."

As histórias fantásticas preparam – e devem preparar – o imaginário infantojuvenil para lidar com o que há de bom e, sobretudo, ruim, segundo Luciana. Ela alerta, porém, que temáticas tão abstratas e complexas podem estimular a queima de etapas no desenvolvimento infantil, pois a confusão de valores pode levar à precocidade de condutas inadequadas. "Os excessos dessas histórias podem funcionar também como modelo de atitudes agressivas, que são observadas, aprendidas e imitadas como estratégia de resolução de conflitos."

Compartilhando a ideia, Ilka acrescenta que a antecipação de certas temáticas promovem uma visão "adultocêntrica" das crianças, o que seria prejudicial em determinados parâmetros. "Há quem defenda que, como vivemos no mundo da informação, quanto mais informação dada à criança, quanto mais dor, sofrimento, alegria vistos, mais elas estariam preparadas para o mundo. Para mim, a absorção direta e precoce, sem filtragem, pode prejudicar o desenvolvimento psicológico."

O contato e a busca pelos temas sombrios podem estar relacionados, na opinião do escritor Marcelo Manhães, a uma tentativa de aprender a lidar com a violência real. "Creio que tem a ver com o fato de crianças e jovens conviverem com ‘violências’ de toda ordem em seus cotidianos, seja assistindo ao telejornal ou a cenas dramáticas nas ruas, ou até mesmo em casa. Elas estão sempre procurando enfrentar seus próprios medos, talvez de forma até inconsciente. E isso é bom. Faz amadurecer."

Para Jorge Braga, crianças e jovens são mais capazes de distinguir a realidade da fantasia que seus pais podem supor. "Eles pertencem a outra época e organizam tais conflitos, que são do mundo, do homem, da vida", avalia o analista, que não vê o contato com temas nefastos como algo que possa deteriorar o caráter ou estimular a violência por si só. "Sabemos lidar com o belo, mas quase sempre é difícil fazer juízo da morte, do horror, do perverso."

 

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