
O canto de Belchior é arrebatador. Aquela voz grave chega forte onde deve chegar. E, para além de sua técnica, as letras ultrapassam as gerações, vão ganhando novos sentidos e novas caras. É como se elas ainda continuassem a contar a história de um povo atual, mesmo tendo sido escritas há tempos. Não à toa, são diversos os músicos que apresentam sua versão para essas músicas. A começar por Elis Regina que deu voz à potente “Como nossos pais” e à divertida, no entanto, crítica, “Velha roupa colorida”. Mas a lista segue e os interessados em Belchior não acabam nunca.
A cantora e compositora Ana Cañas foi uma dessas que foi arrebatada pelo canto e pela poesia certeiros do cearense Belchior. E isso sempre aconteceu. Mas foi no período em isolamento, quando decidiu fazer uma live cantando Belchior, que o arrebatamento foi ainda maior, a ponto de decidir se debruçar na discografia do músico. Depois de cinco discos quase completamente de música inéditas (“Amor e caos”, 2007; “Hein?”, 2009; “Volta”, 2012; “Tô na vida”, 2015 e “Todxs”, 2018), Ana grava o “Ana Cañas canta Belchior”. E isso com o apoio dos fãs tanto de Ana quanto de Belchior, que também foram impactados por sua live e ajudaram na “vaquinha” para a gravação do álbum.
É um disco extenso, com 14 músicas e composto, principalmente, pelas mais clássicas. Por mais profundo que seja o disco, é no show que Ana revela o que há de mais íntimo nesse trabalho. Ainda mais que atinge um lugar de memória. “Eu comecei cantando nos bares (Édith Piaf, Nina Simone, Chico Buarque, Tom Jobim) e, curiosamente, Belchior foi uma ponte de reconexão com esse meu início de vida musical”, revela. “Ana Cañas canta Belchior” vai ganhar ainda uma gravação ao vivo, com uma música inédita de Belchior recuperada por ela. Mas nesta sexta-feira (28), ela vem a Juiz de Fora para lançar o disco no Sensorial, a partir das 20h. Em conversa com a Tribuna, Ana conta sobre sua conexão com Belchior, a produção do disco e sua relação com o palco.
Tribuna: Belchior é mesmo um músico que arrebata. De que forma você foi arrebatada por ele?
Ana Cañas: É mesmo. De inúmeras formas, porque mesmo antes de cantá-lo, suas ideias já me atravessavam profundamente, seja através do canto de Elis na adolescência ou na sua própria voz. Mas foi com a live na pandemia, em 2020, que ele me arrebatou num lugar inédito, interpretando suas canções e sentindo na própria alma a força de seus versos… sua faca com mel na ponta. Ele me transformou no canto, na dicção, na percepção do todo da música pois, para além da escola da poesia, é uma escola de vida.
O Belchior já foi cantado por vários músicos. E cada um vai inserindo características de maneira que as músicas vão ganhando a cara dos intérpretes. Como foi pensar nessas músicas e colocar você nelas?
Belchior é de todos nós e cada um contribui à sua maneira. Para mim, foi a metafísica dos versos que me atingiu em cheio, a perenidade e atualidade da sua obra, o recorte feminino do seu eu-lírico e a sincronia dos nossos planetas em escorpião (ele 6 e eu, 4 rsrs).
E, por falar nisso, a obra dele é muito extensa. Como foi escolher as que entrariam no disco?
Escolhi as que mais me emocionam – pois só podemos pretender emocionar alguém se nos emocionamos primeiro. Entraram os clássicos mas também alguns lados B e agora, uma inédita que sai no disco ao vivo em breve. Mas a sua obra é vasta e riquíssima, tem material para 3 discos ali, sem dúvidas.
As músicas dele são atemporais. O que ele significa hoje para o Brasil?
“Alucinação” foi lançado em 1976, numa moldura ditatorial e do AI-5 (censura). Infelizmente, voltamos ao cenário de ameaça à democracia – e isso é um diálogo atroz se pensarmos no viés histórico. Ao mesmo tempo, revela a perenidade de uma mente capaz de observar ciclos e fazer uma análise que se sobrepõe ao próprio tempo. Um gênio total.
Como o palco afeta suas músicas? E como você, como artista, é afetada pelo palco?
Sou bicho de palco, como me disse certa vez Ney Matogrosso, que também o é. Estar no palco é uma troca, você é atravessada (e avassalada) pela emoção da canção em si e das pessoas que comungam da experiência amorosa e poética que o Belchior emana. Tô feliz que vamos lançar em breve o registro ao vivo (disco e imagem – DVD) porque isso faz realmente toda a diferença!

