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Eu, você e os outros

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Visitantes podem tirar fotos em cenários que remetem à premiação do Oscar e aos Jogos Olímpicos do Rio (Foto: Fernando Priamo)
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Antes de se ver no outro, é em si mesmo que o ser humano busca o referencial estético. São poucos os que não gostam de parar em frente ao espelho, qualquer um, e conferir se o cabelo está bom, se a roupa caiu bem, se todo o “conjunto” está de acordo. E essa preocupação com o “eu” sempre esteve presente nas artes, com artistas plásticos como Frida Kahlo e Van Gogh produzindo autorretratos, enquanto que aquelas com vaidade alimentada por poder e dinheiro suficientes para tal encomendam, desde períodos como a Renascença, retratos que consideravam condizentes com a sua beleza (pelo menos a que acreditavam ter), posição social, poder ou riqueza. Essa “autopromoção”, por assim dizer, passou com o tempo também para a fotografia, com famílias abastadas posando para as lentes num período em que o filme analógico – e caro – era a única opção, até a massificação permitida pelas novas tecnologias. Hoje qualquer um com um smartphone pode produzir as próprias fotos e compartilhar suas selfies com o mundo inteiro, em tempo real, nessa nova “máquina” de fazer doido que é a internet, onde se pode construir a própria imagem e, ao mesmo tempo, perder o controle sobre ela.

Pois é a nova configuração de construção dessa imagem pessoal, da diferenciação entre público e privado, do embaralhamento de limites sobre a definição de famosos e anônimos que trata a mostra colaborativa “Selfie&Serve”, em cartaz desde o último dia 19 no Espaço Cultural Correios. A exposição multimídia busca investigar o fenômeno das selfies, o hábito de fotografar a si mesmo que surgiu com a popularização das câmeras fotográficas digitais e que tomou o mundo de vez quando os celulares passaram a ter o recurso de registrar imagens. A mostra conta com fotografias feitas por pessoas anônimas e enviadas para a organização do evento, que as disponibiliza por meio de projetores. Elas estão misturadas ao trabalho do fotógrafo brasileiro Ricardo DeAratanha, que há quase 30 anos trabalha nos Estados Unidos e já fotografou inúmeras celebridades do mundo do entretenimento, entre eles figuras como os atores Jeff Bridges e Al Pacino, o diretor Tim Burton, as atrizes Emma Stone e Saoirse Roman, o cantor Beck e a socialiet/atriz/participante de reality show Paris Hilton. Estes, assim como outros artistas, fazem parte do trabalho do DeAratanha que pode ser conferido em uma das salas da mostra.

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As fotos foram enviadas pelo público por meio do link bit.ly/selfieeserve, que continua a receber os registros de anônimos até o encerramento da exposição, em 17 de dezembro. Após a confirmação de não haver material homofóbico e/ou pornográfico, as imagens são adicionadas ao acervo do evento e publicadas de forma aleatória nos projetores. Além disso, elas são compartilhadas nas páginas da “Selfie&Serve” no Facebook e no Instagram. O objetivo é publicar todo o material nos dois perfis. Outra opção para o visitante é ter sua foto adaptada para o formato 3D por meio do aplicativo Fyuse, disponível para celulares da Apple e que em breve voltará a ser disponibilizado para os aparelhos com sistema operacional Android. Para quem tiver a curiosidade misturada à pressa, pode pedir a uma das monitoras para fazer a transformação na hora, caso seja feito um autorretrato com os smartphones da organização do evento.

E quem não enviou sua participação pela internet pode fazê-lo na hora, pois a coordenação disponibiliza dois smartphones para que sejam realizadas selfies em cenários que remetem à premiação do Oscar e aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Para entrar no clima, o visitante chega até a mostra por meio de um tapete vermelho, com direito a aplausos pré-gravados e transmissão em vídeo em tempo real.

Da vaidade à mensagem

Curadora da “Selfie&Serve”, Jeanne Duarte diz que seu interesse pela fotografia vai além da foto em si, buscando ver o que existe por trás dela. “Percebi que havia outras intenções por trás da selfie. O que surgiu como processo de vaidade, egocentrismo, hoje tem uma outra conotação também”, argumenta. “Há a selfie de protesto, como das pessoas que participam de manifestações; a selfie celebração, em casamentos, batizados, aniversários. E aquelas capazes de criar mobilização, como foi o caso do menino Paulinho, aqui em Juiz de Fora, que com suas fotos vestido de super-herói mobilizou todo o Brasil e conscientizou sobre a questão da importância da doação de medula óssea. É um processo de colaboração muito legal, da pessoa saber da sua causa, do local em que você foi, da sua colaboração”, diz Jeanne.

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“Você tem, claro, a questão da autoestima, de querer parecer bonita e etc., mas tem outra coisa muito legal: ela só existe enquanto compartilhada. Ninguém faz selfie e guarda para si”, acrescenta. “Para mim, ela diz muito mais do que imagina. O Ricardo (DeAratanha) me disse uma coisa que eu não tinha atinado: a selfie é o novo autógrafo. Hoje você não quer o autógrafo da celebridade, quer fazer uma foto com ela e compartilhar.”

Jeanne esclarece, ainda, que a exposição é uma forma de brincar com a célebre frase do artista multimídia Andy Warhol, que dizia que “todo mundo seria famoso, nem que fosse por 15 minutos”. “Hoje temos cinco segundos (risos). Todos somos famosos, e a ideia de misturar com as celebridades é um pouco isso. Na sala você vai se sentir como tal.”

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A ‘fama’ democrática

Uma das coisas que chamou a atenção da curadora desde o início da exposição tem a ver com a forma com que o público reage. De acordo com ela, são muitos os casos de visitantes que fazem selfies não apenas nos cenários, mas também a partir das fotos das personalidades projetadas pelo telão ou na própria exposição de Ricardo DeAratanha – sem esquecer da “selfie da selfie”, em que fazem autorretratos quando suas selfies são exibidas ou de pessoas conhecidas. “A produção na hora está frenética. Começamos com cerca de 500 fotos enviadas antes da estreia, agora temos pessoas que fazem as selfies antes mesmo de entrarem na mostra, quando passam pelo tapete vermelho. Acho isso muito legal, afinal a exposição é feita pelas pessoas para as pessoas”, comemora Jeanne, lembrando que a “Selfie&Serve”, por ter aberto espaço para o público pela internet, recebeu autorretratos até mesmo do exterior, de países como a Alemanha, Chile, Estados Unidos, Itália e Nepal.

Para um artista do ofício como Ricardo DeAratanha, a selfie não é vista como algo menor. Na opinião dele, é tudo uma questão de saber captar o momento. “A expressão artística é o tempo da clicagem e a interação; isso nunca muda, isso faz a foto. As pessoas se reconhecem ali e perdem a inibição. Muita gente não se sente à vontade diante das câmeras, mas nesse caso, como elas se fotografam, acabam se soltando mais.”

SELFIE&SERVE

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Segunda a sexta-feira, das 10h às 18h, e sábados das 10h às 14h no Espaço Cultural Correios (Rua Marechal Deodoro 470). 3690-5715. Até 17 de dezembro.

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