
José Santos autografa os livros “Rimas de lá e de cá”, “Muito barulho por nada” e “A divina jogada”
O mineiro de Santana do Deserto José Santos tinha a idade do seu filho Jonas, 20 anos, quando viveu a fervilhante Juiz de Fora cultural dos anos 1980. Ele estava em meio àquela turma (Iacyr Anderson Freitas, Fernando Fiorese, Edimilson de Almeida Pereira, Julio Polidoro…) que botou a poesia nas ruas e fez história com o “Abre Alas” e a “D’Lira”, considerada pela crítica a melhor revista literária do país. O berço de Murilo Mendes e Pedro Nava foi sua escola. Aos 55 anos e morando em São Paulo, José Santos retorna, nesta semana, à cidade em que fez amigos, de escrita e de vida. O também diretor do Museu da Pessoa (SP) é autor de 25 livros publicados, entre eles os recentes “Rimas de lá e de cá” (Peirópolis, 44 páginas), “Muito barulho por nada” (Amarylis, 60 páginas ) e “A divina jogada (Nós, 64 páginas). Neste sábado, ele recebe o público para uma sessão de autógrafos na Livraria Liberdade, a partir das 17h.
Em “Rimas de lá e de cá”, criado em coautoria com o português José Jorge Letria, os dois Josés se encontraram para brincar de geografia. A obra ganhou o selo de altamente recomendável pela FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantojuvenil) e, neste ano, foi selecionada para o catálogo brasileiro da Feira de Bolonha. Ela ainda figura entre os 30 melhores livros do ano pela revista “Crescer”. Em “Muito barulho por nada”, o escritor preparou uma adaptação em cordel de uma comédia de William Shakespeare. Já em sua “A divina jogada”, Santos apostou em uma paródia de “A divina comédia”, de Dante Alighieri. “Fiz uma brincadeira usando o embate entre o céu e o inferno como um jogo de futebol. É uma melhor de três partidas, uma no inferno, uma no purgatório e uma no paraíso. Dante fez tudo em tercetos rimados, e eu tentei fazer nessa mesma forma.” Ao falar sobre seus próximos trabalhos, o escritor conta que está aproveitando o momento dos livros digitais.
“No Museu da Pessoa, a gente fez um projeto sobre a memória da literatura infantojuvenil. Entrevistamos 40 grandes autores e estamos tentando transformar isso num livro, espero que para o ano que vem. Agora, estou escrevendo um livro com o ilustrador Jô Oliveira, que está comemorando 40 anos de carreira. Também estou fazendo um livro infantojuvenil em cima do mascote do Cruzeiro Esporte Clube. É uma produção bem eclética.” Também está entre os legados do autor o lendário documentário “O último dia do Bar Redentor – Maio de 1987”. O filme que retrata o famoso ponto de encontro de estudantes, professores e da boemia daqueles tempos foi exibido na última quarta-feira na mostra “Cinema e patrimônio”, promovida pela Funalfa.
Tribuna – Você vem autografar uma adaptação de Shakespeare e de Dante Alighieri. As crianças querem consumir os clássicos?
José Santos – A função educativa da literatura é apresentar o que a gente tem de bom, o que a nossa cultura criou nos últimos dois mil anos. As crianças precisam conhecer isso, elas não podem ficar só nessa oferta imediatista da cultura de massa. Eu e vários escritores temos essa preocupação de mostrar os clássicos da língua portuguesa e de outras línguas. Foi uma experiência de uma coleção de três livros tendo a cultura popular como mote.
– Como foi esse encontro entre Brasil e Portugal em “Rimas de lá e de cá”?
– Tenho trabalhado com autores de Portugal há alguns anos. Morei lá em 2009, quando fiz uma pesquisa grande que resultou em cinco livros. Lá eu conheci o José Jorge Letria, que é um dos maiores autores portugueses tanto para crianças quanto para adultos. Bolamos um projeto coletivo. Por e-mail, eu mandava um poema que tinha uma pergunta no final, e ele me respondia com outro poema, fazendo outra pergunta. A gente falou de geografia, natureza, comida, arte, arquitetura. É um passeio por Brasil e Portugal através da poesia com a ajuda maravilhosa da internet.
– Por falar em internet, você é um autor que está sempre conectado?
– Não tenho essa facilidade toda que meu filho tem, mas se a gente tem cem milhões de smartphones, 50 milhões de tablets, esse é um espaço aonde o livro pode chegar para os leitores. Surgiram agora editoras para trabalhar esse espaço, e estou conversando com elas, publicando alguma coisa no formato digital.
– O mercado infantojuvenil tem sido simpático com os novos autores?
– O mercado nunca foi. Também demorei anos para publicar o primeiro livro, e olha que eu tinha um ilustrador muito conhecido. As editoras falavam: ‘olha, você é conhecido, mas ele não”. O mercado infantojuvenil é bastante fechado e precisa, além de toda competência do autor, de persistência. A gente leva muito não, mas não pode desanimar, tem que acreditar e continuar insistindo. Eu fui teimoso, fui indo, depois do primeiro melhora um pouquinho, e já estou no 25º.
– E quando você se torna um autor de 25 títulos publicados, as editoras é que passam a te requisitar?
– Os grandes autores, como o Eliardo e a Mary França, o Ziraldo, as editoras procuram, mas o resto tem que ficar o tempo todo mostrando novidades. Tenho que dizer o que estou fazendo agora e o que vou fazer daqui a pouco, porque tem muita gente boa produzindo. O Brasil realmente está muito bem servido no infantojuvenil.
– A fervilhante Juiz de Fora cultural dos anos 1980 é relembrada por muitos que viveram aquela época. Foi o melhor momento da literatura juiz-forana?
– Por estar morando há 25 anos em São Paulo, não consigo acompanhar o cotidiano da cena cultural de Juiz de Fora, mas sempre tem aquele mito de que o passado foi melhor. Toda época tem sua produção, e ela vai se revelar um pouco depois. Tenho muita saudade desse período porque tive a sorte de ter contato com professores incríveis de literatura, como Leila Barbosa, Gilvan Ribeiro, Marisa Timponi e Terezinha Scher, que foram pessoas muito legais, e também com a geração de escritores, como Knorr, Julio Polidoro, o falecido José Henrique da Cruz, o Mutum, Fernando Fábio e Iacyr Freitas. Essa turma continua produzindo literatura de primeira.
– Esse foi um período em que a literatura andava de mãos dadas com a política. Esse engajamento diminuiu nos dias de hoje?
– Literatura está muito ligada à política. Tenho trabalhado com essa pesquisa no Museu da Pessoa, com meu filho Jonas. Em São Paulo, os saraus de poesia são fortíssimos, acontecem uns 200 por mês, e há sempre uma discussão. A poesia é política o tempo todo. Ainda estamos finalizando um documentário sobre essa poesia periférica, e estou sentindo que isso está fortíssimo. No Rio, também está cheio de sarau.
– Suas inquietações são as mesmas daquela época?
– Tenho outra idade, 55 anos, e outras inquietações. Comparando com meu filho, que tem 20, vejo que são momentos diferentes. Quando a gente cria literatura, está sempre inquieto. Estou mais preocupado hoje se meu livro vai conseguir chegar às escolas, atingir um público maior. Não é só a questão de ter o livro, mas de ele ser lido, ser apreendido. Tenho viajado muito para lugares aonde ninguém vai. Esse ano estive no interior do Maranhão e do Rio Grande do Sul, tenho ido a muitas escolas rurais, ontem mesmo fui a Torreões conversar com uma turma de uma escola de lá. Estou preocupado com a presença do escritor e com a forma como a gente incentiva a leitura.
SESSÃO DE AUTÓGRAFOS
Neste sábado, às 17h
Livraria Liberdade
(Rua Benjamin Constant 801 – Centro)

