
Intervenção no álbum de família, em que faz troça com a própria imagem
Carla Diacov não estava quando seus poemas foram lidos no lançamento de seu primeiro livro no Brasil. Mas também não estava ausente. Permanentemente conectada, Carla se faz onipresente. Está na rede e em cada verso do que escreve. Reclusa em sua casa no litoral paulista, a escritora de 41 anos percorre o país como um dos mais potentes nomes da literatura contemporânea nacional. Portugal, espertamente, se apressou em publicá-la primeiro. “Amanhã alguém morre no samba” (Douda Correria) ganhou corpo em 2015. Passado um ano de sua estreia literária, Carla se despe em páginas, mais uma vez, escolhendo a pequena e cuidadosa Edições Macondo, de Juiz de Fora, como casa para seu “A metáfora mais gentil do mundo gentil”.
“Poesia hoje, em mim, é a seiva, o fluido que me ergue para os dias. Escrever é a única opção. E sem o diálogo que a arte traz, no caso, o leitor, não faz sentido escrever. Isso é fundamental e foi meu guidão lá no comecinho. Mudei o rumo diversas vezes quando não havia o diálogo. Hoje tenho isso como alicerce, mas também consigo e gosto de dar pequenas sacudidas nesse alicerce, pintá-lo de outras cores, fazer umas experiências e então flanar por diversos nichos. Sem a troca, sem o toque, o diálogo, a poesia é só um brinco bonitinho, um broche herdado de uma tia”, pontua a escritora, em conversa pelo Facebook, única ferramenta que utiliza para se comunicar.
Diante das repetições
Atriz experiente na cena independente, fundadora de uma experimental companhia, Carla trocou os holofotes pela luminosidade de uma tela de computador. Continuou sendo vista. E admirada. “Tenho crises de pânico de tempos em tempos. Não saio de casa tem tempo. E isso está caminhando para pior: não consigo pisar para fora da porta. Tomo remédios pesadíssimos. Me trato no CAPS daqui de Itanhaém e quando tenho consulta, minha mãe é quem me arrasta para lá. Em São Bernardo (do Campo, onde nasceu) fui internada três vezes. Tive surtos horríveis”, conta ela, que também expõe relatos semelhantes nas sensibilidades de seus textos.
“Além das fobias, isso estava a pensar hoje mesmo, tenho o TOC e acho que o TOC esta presente na minha poética: tenho essa mania serial”, diz a autora de repetições tão dramáticas quanto teatrais. “É um caminho íntimo e que tem seus vários atalhos, brechas. Vivo mudando isso. Quando desconfio estar há muito na mesma ‘llinha’, dobro mais à esquerda ou vou abaixo. Dou um jeito”, brinca. “Acho que minha morada atual nesse galho é o tempo quebrado dos versos. Também o corpo livre de alguns sons. Não sei se consigo, mas gosto de pensar que deixo ao leitor algum compromisso em conjunto com a música de alguns versos.”
Dentro do banheiro
Onde vivem os restos também se prepara um projeto de beleza. Ao lugar onde a solidão é forçada pelo fisiologismo do corpo, Carla Diacov dispara seu olhar generoso. “Acho o banheiro uma das maiores figuras de linguagem, a mais bonita dentro do tema casa”, afirma, referindo-se ao espaço que toma todo o espaço de seu novo livro. “O banheiro na minha vida é esse ‘templo’, a metáfora mais gentil do mundo gentil. O mundo é a casa. E considero as utilidades do banheiro como rumos naturais. Pensar, lavar, cagar, avaliar a obra (a merda mesmo e a merda metafórica), ter o espelho como um duplo do dia, do momento, do memento…”
Enumerando cenas potentes – “quantas vezes rezei para que/ o banheiro da igreja fosse/ uma armadilha/ o fim da missa” – os poemas de Carla por vezes parecem dar conta de um complexo fluxo do pensamento. São sofisticados ao mesmo tempo em que evocam certa precariedade – “mijava mijava chegava a mijar chorando”. Num instante soam como se ligassem a poetisa Ana Cristina César, atuante nos anos 1980, à Angélica Freitas, atuante nos dias de hoje. “Amo Ana Cristina e amo Angélica Freitas. Duas mulheres lindas, duas forças de que me faço valer por horas, hoooras!!!! Não procurei fazer a ponte. Procurei me ‘alimentar’ desses caminhos lindos”, comenta Carla.
Para o editor Otávio Campos, que coordena a Edições Macondo, a intimidade presente nos textos de Carla escrevem sua singularidade na cena. “O que mais me impressiona no trabalho da Carla é a liberdade com a qual ela escreve e cria aquelas imagens absurdas, sem perder a linha do poema (ou perdendo todas as linhas do poema), construindo um ritmo circular que entra muito bem no nosso corpo”, pontua. “O que vejo de mais contemporâneo no trabalho da Carla são as linhas de fuga de um sistema normativo e opressor, não apenas poético, mas também (e claro) social.”
A personagem adiante
Inquietante a escrita veloz de uma Carla igualmente intrigante. E porque não instigante? Num tempo de fugazes celebridades, de corridas mirabolantes pelos pódios da fama, a escritora se esconde, mas não silencia. Publica na rede e posta imagens de criações plásticas impactantes, como a série de desenhos feitos com o próprio sangue, ou as intervenções feitas no álbum de família, no qual faz troça com a própria imagem. “Em tudo o que faço vejo a poesia antes. É tudo virado para a poesia. É o meu norte para todas as artes que me tocam. É como se eu começasse a idealizar já pensando onde vai caber ali um poema.”
Enigmática, resulta, portanto, num personagem potente como sua obra. “Sempre fui muito tímida. Na escola eu era a que saía por último da sala para não correr o risco de ter de falar com alguém. Até a última vez que saí para me consultar usei fones de ouvido, mas não coloquei música. Evito mesmo o contato, mas não deixo de ouvir as conversas quando consigo estar na rua. Coisa que fica cada dia mais rara aqui comigo”, conta Carla, certa de que escrever será sempre uma forma de dizer: Presente!
A OUTRA HISTÓRIA
a humanidade
esfomeada por tempestades
esquece de dar descargas
rematar discursos óbvios
é no banheiro que o tento do homem
mais pertinente
se dá por varonil
a humanidade desaquece desacelera
desvanece se não frequenta o banheiro para assuntos que não
intestinais
o banheiro é para muito
fomos ensinados que na acústica intimidade está
o mais formoso diamante do organismo pensamento
também fomos ensinados a esquecer
a história afastou o banheiro do juízo
expulsaram a filosofia do banheiro como
fizeram na bíblia com aqueles irmãozinhos que
ousaram conhecer o íntimo do íntimo
o ouro entre os pelos cabelos unhas
cá é isso agora de não dar descargas
de não pôr para fora para caber do mais
pouco tempo passamos no banheiro
e se é maior que sonhar
lhes digo
é no banheiro que te quero
acaso meu acaso
de terno curto rabo sujo barba e fundamentos por fazer
Poesia retirada do livro
“A metáfora mais gentil do mundo gentil”

